O mês de agosto é marcado pelo Agosto Dourado, campanha dedicada a conscientizar sobre a relevância do aleitamento materno tanto para o bebê quanto para a mãe. Contudo, enquanto as ações destacam os benefícios do leite, muitas mulheres vivem em silêncio a dor e a frustração quando a amamentação não acontece como o planejado.
Nesse sentido, o ato de amamentar vai muito além de um processo biológico. Trata-se de uma experiência psíquica profunda, atravessada por desejos, expectativas e pela saúde emocional de quem acabou de dar à luz.
As dores invisíveis e a cobrança na maternidade
Quando uma recém-mãe enfrenta dores, fissuras, mastite ou dificuldades na pega do bebê, a busca inicial costuma focar em soluções fisiológicas. Por outro lado, nem sempre os obstáculos se reduzem ao corpo. A psicanalista Octavie Laroque explica que a relação com o próprio corpo, a vivência do parto e a pressão familiar influenciam diretamente esse processo.
Transformar a amamentação em uma obrigação rígida gera sentimentos de culpa, insuficiência e fracasso. Para muitas famílias, a decisão de introduzir a mamadeira traz o equilíbrio e o alívio necessários no lar.
Como pondera a especialista:
“Quem viveu essa situação relata que, depois de desistir de dar o peito, a introdução da mamadeira trouxe paz para a família. Proponho então deslocar o olhar sobre o ato de amamentar. Se a discussão sobre a amamentação costuma perguntar o que é melhor para o bebê, prefiro interrogar o que permite à mãe estar bem para cuidar desse bebê. Aliviar o sofrimento da mãe e do bebê é, em consequência, mais importante do que manter a amamentação a qualquer custo”
O vínculo com o bebê vai além do leite
Na perspectiva da psicanálise, o amor e o afeto entre mãe e filho não dependem exclusivamente do aleitamento materno. O vínculo saudável se constrói diariamente por meio de gestos simples e fundamentais:
Contato corporal e carinho frequente;
Troca de olhares e uso acolhedor da voz;
Cuidado diário ao segurar e responder às necessidades do bebê.
Da mesma forma, inspirada nas teorias do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, a profissional lembra que os cuidados parentais cotidianos são a verdadeira base para o desenvolvimento emocional da criança.
Como cuidar de quem cuida no puerpério
Em um país com forte cultura de amamentação como o Brasil, é urgente abrir espaço para conversas sobre a saúde mental materna. Afinal, a cobrança excessiva agrava o sofrimento de quem já enfrenta as intensas transformações do puerpério.
A psicanalista convida a sociedade a refletir sobre o ambiente oferecido a essas mulheres:
“Compreender a dimensão psíquica da amamentação exige considerar também o contexto social e cultural em que a relação entre mãe e bebê se constitui. Como a mulher é tratada durante o puerpério? O que se espera dela? O ambiente lhe permite entrar no papel materno com tranquilidade? Num país como o Brasil, onde a cultura da amamentação é particularmente forte (quase sagrada), existe espaço para que uma mãe escolha a forma como deseja cuidar do seu bebê?”
Em suma, acolher os limites e as escolhas de cada mulher é essencial para garantir um início de vida saudável para a família. Como conclui Octavie:
“Precisamos pensar nas condições que permitem à mãe confiar em sua capacidade de construir, à sua maneira, a relação com o filho. Isso não depende apenas dela, mas também do cuidado que ela própria recebe.”






