Voltei de uma recente viagem a Fernando de Noronha me sentindo estranha. Uma certa melancolia, uma sensação de vazio, olhar perdido e uma obsessão por ver e rever fotos e vídeos daqueles dias. Contei dos meus “sintomas” para um amigo que mora na ilha e ele foi certeiro: isso é Neuronha, amiga.
Fui pesquisar e descobri que o termo nasceu como uma brincadeira entre moradores e trabalhadores da ilha, da fusão entre “neurose” e “Noronha”. O neologismo era usado para descrever os efeitos do isolamento prolongado – da sensação de confinamento à convivência intensa em uma comunidade pequena, muito antes de qualquer Big Brother. Com o tempo, porém, o significado acabou se invertendo. Hoje, a expressão costuma remeter justamente ao oposto: ao encantamento pela ilha, à vontade de prolongar a estadia e ao desejo urgente de voltar ao arquipélago sempre que possível. Na esteira desse novo sentido, até uma marca de roupa foi criada tirando partido do termo.
A Neuronha existe, amigo leitor, e eu sou a prova viva disso. A ilha de fato merece a fama que tem e todos que puderem deveriam visitá-la ao menos uma vez na vida – ou várias. Faço aqui o relato da minha viagem com dicas para você planejar a sua.
Taxas
Fernando de Noronha é um destino que exige planejamento. Além da hospedagem e das passagens, há taxas obrigatórias que precisam entrar na conta. A primeira é a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), que é calculada de acordo com o número de dias da viagem. Em 2026, ela começa em R$ 105,79 para um dia e aumenta progressivamente conforme a duração da estadia. No meu caso, para 4 dias, esse custo foi de R$ 423,17. Saiba mais sobre a TPA.
A segunda é o ingresso do Parque Nacional Marinho, que não é obrigatório, mas é altamente recomendável para se ter acesso a algumas das praias mais lindas da ilha, como a Baía do Sancho, a praia do Leão e diversas trilhas. Custa R$ 192, válida por 10 dias. Saiba mais sobre o ingresso do parque nacional.
Abençoado, na Cacimba do Padre: agora com a assinatura do chef Onildo RochaKarla Chaves/Arquivo pessoal
Passeios imperdíveis
Com mais de uma dezena de praias, Noronha oferece opções para os mais diversos perfis. Entre os passeios que fiz, destaco três.
Ilhatur
Passeio de um dia inteiro que passa por alguns dos lugares mais bonitos. Se eu pudesse dar uma dica, seria: faça logo ao chegar. Além de visitar praias e mirantes famosos, o percurso ajuda a entender melhor Noronha e até a decidir onde vale a pena voltar nos dias seguintes com mais calma (de táxi ou ônibus). O roteiro inclui paradas para banho na perfeita Baía do Sancho e uma espiada na maravilhosa praia do Leão (nas duas você terá que mostrar o ingresso do parque nacional, que pode ser tanto o QR code no celular quanto o ingresso comprado na bilheteria do Centro de Visitantes no Boldró).
Águas Claras Noronha (R$300 por pessoa no buggy coletivo ou privativo a partir de R$ 1800 para duas pessoas; saiba mais)
Praia do Leão: parada do Ilhatur, mas deve ser apreciada com mais calmaFBrasiliense/Arquivo pessoal
Canoa havaiana
Outra atividade que eu recomendo muito é a canoa havaiana ao nascer do sol. O passeio dura em média 2 horas. A saída acontece ainda de madrugada, na Praia do Porto. Pouco a pouco, o céu começa a mudar de cor enquanto dezenas de canoas avançam mar adentro – e são grandes as chances de receber a visita de golfinhos. Em alguns pontos, também há parada para um mergulho rápido antes de voltar para a praia. Prepare-se para remar o tempo todo com o grupo que estiver na sua canoa. E nada de fazer remada curtinha, apelidada lá de bracinho de dinossauro, e nem passar manteiga no pão, só tocando o remo na superfície. Embarcou, tem que remar.
Águas Claras Noronha (R$220 por pessoa; saiba mais)
Canoa havaiana: todo esforço para ver o nascer do sol vale a penaKarla Chaves/Arquivo pessoal
Barco
Se existe um passeio que combina perfeitamente com o clima de Noronha é o tour de barco ao entardecer. Na opção coletiva, você faz o passeio em catamarãs. Eu fiz o tour privativo em uma lancha e que durou cerca de 4 horas. Navegamos pela costa, passamos por ilhas menores, fizemos paradas para banho e ainda aproveitamos um churrasco de peixe servido a bordo. O encerramento foi em frente à Baía do Sancho, justamente na hora em que o sol começa a se pôr. No nosso caso, o espetáculo ganhou um bônus: uma família de golfinhos acompanhou a embarcação por boa parte do trajeto.
Águas Claras Noronha (passeio privativo com churrasco a partir de R$ 4950 para duas pessoas, mais R$ 300 por pessoa adicional; saiba mais)
O Morro Pico e a praia da Conceição enquadrados de dentro da lanchaKarla Chaves/Arquivo pessoal
Onde comer
Nos últimos anos a gastronomia de Noronha subiu muito no quesito qualidade e, dos endereços que conheci, destaco três.
Abençoado
À direita de quem chega na Cacimba do Padre, o cardápio ganhou desde o fim de 2025 a assinatura do chef paraibano Onildo Rocha, que comanda o Notiê no terraço do Shopping Light, em São Paulo. A proposta valoriza ingredientes da região, peixes frescos e preparos na brasa, tudo com clima descontraído e pé na areia. É uma ótima pedida tanto para um almoço sem pressa quanto para um pós-praia. De entrada, meu favorito foi o sanduíche de peixe com maçã verde e creme de wasabi (R$ 80). Entre os principais, feitos na brasa, destaco a lula (R$ 260) e o camarão (R$ 320), que estavam divinos. Aberto de segunda a sábado das 11h30 às 18h. Saiba mais.
Sanduíche de peixe com maçã verde e creme de wasabi do AbençoadoKarla Chaves/Arquivo pessoal
Cacimba
Um dos restaurantes mais tradicionais da ilha é comandado pelo chef Auricélio Romão. O ambiente mistura referências praianas, decoração maximalista com personalidade e uma atmosfera animada, especialmente à noite, quando costuma ter DJ tocando música brasileira. O cardápio tem forte influência da cozinha nordestina e dos frutos do mar locais. O pastel de lagosta (R$ 182) faz jus à fama, foi um dos melhores que comi na vida. Para sobremesa, recomendo a Cartola, banana da terra com queijo manteiga na chapa (R$ 68,98). Funciona todos os dias das 12h às 23h. Saiba mais.
Cacimba: salão tão delicioso quanto o pastel de lagosta e a cartolaKarla Chaves/Arquivo pessoal
Pousada Morena
Uma das maiores surpresas da viagem foi o restaurante da Pousada Morena. Mesmo quem não está hospedado pode comer por lá. O cardápio passeia por frutos do mar, carnes e clássicos brasileiros muito bem executados. O polvo balsâmico (R$188) estava no ponto perfeito, macio e cheio de sabor. O picadinho (R$150) também merece destaque. É aquele tipo de restaurante que consegue agradar tanto quem quer aproveitar os ingredientes da ilha quanto quem procura pratos mais tradicionais. Funciona todos os dias das 12h às 22h. Saiba mais.
Um post compartilhado por Pousada Morena | Fernando de Noronha (@pousadamorena)
A escolha da hospedagem
Muita gente encara o hotel apenas como um lugar para dormir. Eu penso diferente. Principalmente em destinos como Fernando de Noronha, a hospedagem também faz parte da experiência da viagem.
Desta vez, fiquei no Hamares Boutique, um dos hotéis mais sofisticados da ilha e dono de uma vista difícil de superar (ai, Neuronha). A área da piscina fica de frente para o Morro do Pico.
Hamares: o agradável jardim e a cama com vista para o Morro do Pico//Divulgação
O hotel conta com 20 acomodações distribuídas em 3 categorias, o que contribui para a atmosfera mais exclusiva e intimista. Eu fiquei na Villa Master Mar, um quarto com 82 metros quadrados, piscina privativa e a mesma vista privilegiada para o Morro do Pico. A cama quase jogou contra mim porque era difícil querer levantar. E o banheiro era muito amplo.
Além das acomodações, o hotel tem academia, spa e um café da manhã generoso, com buffet e também ovos e tapioca à la carte. O atendimento é muito gentil.
Diárias a partir de 2500 reais; reserve aqui
Melhor época
De julho a novembro o mar fica mais calmo e transparente e também é a época mais procurada. Como dizem os moradores, é quando o mar deita, fica uma piscininha, cristalino e com ótima visibilidade para mergulho e snorkel. Entre agosto e novembro, as chuvas são menos frequentes e os dias tendem a ser mais ensolarados.
De dezembro a março é a temporada das ondas e do swell, que pode inviabilizar o banho em boa parte das praias por conta das ondas fortíssimas – a praia do Porto e a do Leão costumam ter melhores condições em dias de swell. Para quem surfa, em compensação, é a melhor época, principalmente na Cacimba do Padre. Ainda é possível mergulhar, mas o mar nem sempre tem a calmaria e a visibilidade de outros meses. O Réveillon é quando as festas mais fervidas acontecem.
Março a julho são meses menos movimentados e com maior chance de chuva, especialmente entre abril e junho – geralmente são pancadas e nem sempre comprometem os passeios. Eu mesma visitei Noronha em maio e peguei dias de sol, mar bonito e temperaturas agradáveis. Mais importante do que buscar o mês perfeito é entender qual tipo de vibe você procura: mar cristalino, ondas para surfar, ferveção ou uma ilha mais tranquila e menos disputada?
Não tem como cansar da vista para o Dois IrmãosZe Paulo Gasparotto/Unsplash
Dicas extras
– Fernando de Noronha está uma hora à frente do horário de Brasília.
– Sente na janela do lado esquerdo do avião para ter a vista de cartão-postal na chegada: o Morro Dois Irmãos em sua perfeição.
– Leve protetor solar, repelente e remédios que costuma tomar. Como praticamente tudo chega à ilha de barco ou avião, alguns produtos podem ficar em falta ou custar muito mais caro.
– Pague a Taxa de Preservação Ambiental e o ingresso do Parque Nacional antes da viagem para evitar filas na chegada ao aeroporto.
– Até muito pouco tempo atrás, Noronha tinha um aeroporto abaixo da crítica. Em maio deste ano foi entregue o novo terminal que triplicou a capacidade de atendimento, inclusive com uma sala VIP no lado de fora; saiba mais.
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