Choro intenso, gritos, fuga, resistência a mudanças ou comportamentos que parecem difíceis de compreender podem deixar pais e cuidadores sem saber como agir. Quando isso acontece com uma criança autista, uma pergunta costuma aparecer rapidamente: é uma birra ou uma crise?
Antes de tentar encontrar uma resposta, é importante olhar para o contexto. Um comportamento não acontece isoladamente. Ele pode estar relacionado ao que aconteceu antes, aos estímulos presentes naquele ambiente e à capacidade que a criança tem, naquele momento, de lidar com determinada situação.
Barulho, excesso de pessoas, mudanças inesperadas na rotina, estímulos sensoriais, cansaço, fome, dor ou dificuldade para comunicar uma necessidade podem contribuir para uma situação de sobrecarga.
Para uma criança autista, um ambiente que parece tranquilo para os adultos pode ser extremamente intenso. Luzes, sons, cheiros, pessoas conversando ao mesmo tempo ou mudanças na rotina podem representar uma quantidade de estímulos difícil de processar.
Também é importante considerar a comunicação. Nem toda criança consegue dizer que está cansada, incomodada, com dor ou que precisa de uma pausa. Quando faltam recursos para expressar essas necessidades, o comportamento pode se tornar uma forma de comunicação.
Durante uma crise, portanto, insistir em explicações longas, fazer muitas perguntas ou exigir que a criança simplesmente se acalme pode aumentar ainda mais a sobrecarga.
Nesses momentos, o mais importante é garantir a segurança e reduzir, sempre que possível, os estímulos que podem estar contribuindo para a desregulação. Um ambiente mais tranquilo e uma comunicação objetiva podem ajudar.
Depois que a criança se reorganizar, o episódio pode ser analisado com mais calma. O que aconteceu antes? Houve uma mudança inesperada? O ambiente estava muito barulhento? A criança estava cansada? Ela conseguiu comunicar o que precisava? Esse comportamento acontece em situações semelhantes?
Observar esses padrões é importante porque pode ajudar a identificar gatilhos e desenvolver estratégias de prevenção.
Isso não significa deixar de estabelecer limites. Crianças autistas também precisam de regras, previsibilidade e orientação. A diferença está em considerar suas características individuais, seu desenvolvimento, sua forma de comunicação e suas necessidades sensoriais.
Quando as crises são frequentes, muito intensas ou interferem na rotina familiar e escolar, é importante buscar uma avaliação profissional. O objetivo não deve ser apenas eliminar o comportamento, mas compreender sua função e identificar o que a criança precisa.
Talvez uma das mudanças mais importantes seja trocar a pergunta “como faço para essa criança parar?” por “o que esse comportamento está tentando comunicar?”.
Quando conseguimos enxergar além do comportamento, abrimos espaço para compreender a criança. E essa compreensão pode ser o primeiro passo para construir uma rotina mais previsível, segura e acolhedora para toda a família.
*Silvia Kelly Bosi é neuropsicopedagoga especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), doutoranda em Psicologia e mestre em Intervenção Precoce.






