Esses dias uma frase me chocou muito, foi a frase do jogador de futebol Adriano Imperador que ele falou a seguinte frase: “Eu ganhava 7 milhões de euros por ano. E daí? Cadê minha felicidade?”.
Eu achei essa frase muito forte, talvez porque ela bata exatamente numa ideia que quase todos nós temos em algum momento da vida. A gente imagina que existe um lugar onde finalmente vai chegar e pensar: pronto, agora está tudo certo. Mas a questão maior é que quando chegamos lá nem sempre temos tão sonhada felicidade.
A verdade é que a linha de chegada sempre se movimenta partir do momento que alcançamos aquela meta e a isso nós damos o nome de esteira hedónica é como se o cérebro sempre se acostumasse com tudo, inclusive com o extraordinário e vivesse numa esteira caminhando e caminhando até chegar a “lugar nenhum”
Mas a verdade é que ter um objetivo, uma meta é o que nos fazem vivos, inclusive quando vamos avaliar estados de depressão sempre perguntamos se aquela pessoa tem sonhos!
A vida é um conjunto de metas e linhas de chegada e mais do que isso, precisamos degustar a vida, cada gosto doce ou amargo. A jornada até a montanha não é só a contemplação do Pico quando chegarmos lá.
Apesar das pessoas quererem definir felicidade com: “quando chegar lá eu vou ser feliz”, “quando eu me aposentar vou ser feliz”, “quando eu tiver x na conta bancária, vou ser feliz”, mas a verdade é que a felicidade parece ser muito mais complexa. Edward Deci e Richard Ryan, dois psicólogos que estudaram muito motivação humana, desenvolveram a chamada Teoria da Autodeterminação. O nome parece difícil, mas eu acho a ideia bastante simples e, na verdade, muito próxima da vida real.
Eles falam que existem algumas necessidades psicológicas importantes para o nosso bem-estar. A primeira delas é autonomia, sentir que você é dono da sua vida e dos seus caminhos, outra é a sensação de pertencimento, pertencer a um grupo e sentir-se amparado e a terceira é a sensação de competência. Se sentir feliz fazendo o que faz e também se sentir em constante aprendizado e evolução.
E isso também mostra uma coisa interessante sobre felicidade: nem tudo que faz bem é gostoso enquanto está acontecendo. Estudar para uma prova pode ser um saco. Fazer exercício nem sempre é maravilhoso.
Criar filhos tem momentos lindos e tem momentos extremamente cansativos. Trabalhar em algo importante pode trazer muita satisfação e também muito estresse. Então talvez uma vida boa não seja aquela em que a gente consegue retirar tudo que é difícil. Tem coisas difíceis que fazem parte justamente daquilo que dá sentido para a vida. A satisfação de perceber que você aprendeu, que ficou melhor, que conseguiu enfrentar algo que antes parecia impossível também tem um peso enorme.
Quando a gente junta essas coisas, começa a ficar mais fácil entender por que prazer não é a mesma coisa que felicidade. Existe também o que chamamos de bem-estar eudaimônico, que está mais ligado a sentido, desenvolvimento, propósito, a sensação de que a vida tem alguma coerência.
Entrevistei o Dr. Luiz Eduardo Xavier, médico também psiquiatra, segundo ele, um dos maiores equívocos do nosso tempo é imaginar a felicidade como um lugar ao qual finalmente chegaremos quando a vida estiver em ordem. Quando conquistarmos o trabalho certo, o relacionamento ideal, o corpo desejado, o reconhecimento que esperávamos ou a estabilidade que ainda nos falta. Vivemos, assim, sob uma espécie de promessa silenciosa: “‘Quando isso acontecer, então eu serei feliz’. O problema é que a vida raramente permanece em ordem por muito tempo. Além disso, somos extraordinariamente capazes de nos adaptar àquilo que um dia acreditamos que nos faria felizes. A conquista chega, a euforia diminui, e logo surge uma nova condição a ser desejada. Quando fazemos da felicidade um destino, corremos o risco de passar a vida inteira adiando a própria vida” – diz ele.
Então talvez a pergunta “eu sou feliz?” seja grande demais. Eu gosto mais de perguntas menores. Essa vida que eu estou vivendo ainda parece minha? Eu tenho alguém com quem consigo ser eu mesma? Tem alguma coisa que estou aprendendo ou construindo? Eu tenho escolhido alguma coisa ou estou apenas fazendo o que esperam de mim? E, principalmente, existe alguma coisa na minha vida que continua valendo a pena mesmo quando não é agradável?
Acho que hoje eu penso felicidade muito mais assim. Não como aquele momento em que finalmente tudo dá certo, porque sinceramente não sei se esse momento existe. Talvez seja mais uma sensação de que, apesar da bagunça, dos dias ruins, das coisas que ainda faltam e das que deram errado, você consegue olhar para a própria vida e reconhecer nela alguma coisa que faz sentido para você. E talvez isso seja menos emocionante do que a ideia de felicidade que vendem para a gente, mas me parece muito mais possível.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera.
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