Sem cerimônia: aves marinhas fazem cocô várias vezes durante voo

Enquanto observavam o céu, pesquisadores japoneses notaram um comportamento animal curioso: as pardelas-listradas (Ardenna grisea) defecavam repetidamente em pleno voo pelo oceano. As aves marinhas eliminam fezes várias vezes por hora, em um comportamento que se destaca pela constância e pela regularidade.

Essas aves percorrem rotas migratórias extensas, sendo registradas em diferentes oceanos, inclusive no Atlântico Sul. O hábito de se manter sempre em deslocamento está diretamente ligado ao modo como se alimentam e se reproduzem. A frequência de excreção não compromete a estabilidade no ar.

Além do aspecto fisiológico, o guano — nome dado às fezes das aves marinhas, rico em nitrogênio e fósforo — liberado em voo alcança diretamente o mar, funcionando como um aporte extra de nutrientes. Essa descarga pode influenciar ecossistemas diferentes, do oceano aberto até áreas recifais.

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Por que as aves marinhas fazem tanto cocô

As pardelas-listradas têm um metabolismo tão rápido que a produção de ácido úrico ocorre em excesso. A substância é resultante da digestão de proteínas e principal forma de excreção de nitrogênio nas aves. Com isso, o organismo precisa eliminar esse resíduo constantemente para evitar sobrecarga nos rins e intoxicação.

Além disso, cada grama de fezes acumulada representa mais peso para ser carregado, o que aumentaria o gasto energético em rotas que podem se estender por milhares de quilômetros.

Rosely Soares, professora de biologia do Colégio Marista João Paulo II, explica que essa ligação entre metabolismo e dieta ajuda a entender o hábito de fazer cocô tantas vezes por hora.

“O metabolismo elevado das aves marinhas, em especial das espécies pelágicas como a pardela-listrada, está diretamente associado à necessidade de manter uma temperatura corporal constante e suprir a intensa demanda energética durante voos prolongados”, afirma Soares.
As pardelas-listradas seguem barcos de pesca, aproveitando restos e iscas, e também se alimentam de peixes e lulas que encontram no mar

O comportamento, no entanto, não é exclusivo das pardelas-listradas. Outras aves marinhas, como albatrozes, atobás e petréis, também defecam em voo, embora em diferentes frequências. A lógica por trás é semelhante: metabolismo acelerado, dieta proteica e necessidade de reduzir peso durante longos percursos.

O corpo dessas aves também é adaptado para tornar a defecação um processo rápido e eficiente. Estruturas internas garantem que a expulsão das fezes ocorra em frações de segundo, sem exigir esforço extra e sem comprometer o equilíbrio em pleno voo.

Essa coordenação é fundamental para espécies que passam longos períodos no ar, já que qualquer alteração de equilíbrio poderia comprometer o voo e aumentar o gasto energético.

“As aves possuem uma anatomia extremamente especializada para o voo, e isso inclui adaptações no sistema excretor. O processo de defecação ocorre de forma rápida e coordenada, sem a necessidade de alterar significativamente a postura ou o movimento das asas”, detalha a professora de biologia.

A estratégia de controlar o momento da excreção se repete quando estão pousadas na água. Nessa condição, as aves quase não defecam, o que ajuda a manter a plumagem limpa, preservar a impermeabilidade das penas e evitar odores capazes de atrair predadores.

 

Fezes de aves como fertilizante marinho

Em áreas com alta concentração de aves, a presença de nitrogênio e fósforo do guano enriquece a água e favorece o crescimento de fitoplâncton, organismos microscópicos que vivem na superfície dos oceanos e formam a base da cadeia alimentar marinha.

A professora de biologia Camila Braga explica que, em menor escala, no mar aberto, os nutrientes se dispersam rapidamente, mas ainda podem estimular o crescimento de fitoplâncton em manchas localizadas. “Esse pulso de fertilização aérea é comparável a uma chuva de nutrientes, que desencadeia pequenos blooms de microalgas”, conta a professora do Colégio Objetivo de Brasília.

Nos recifes, a dinâmica é mais delicada. O excesso de nutrientes pode favorecer algas que competem com corais por espaço e luz, modificando a estrutura do ecossistema e afetando peixes que dependem do equilíbrio entre corais e algas.

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