O acúmulo de lixo espacial é um problema conhecido há anos. Estima-se que mais de 130 milhões de fragmentos estejam hoje presos na órbita da Terra, e a tendência é de crescimento, segundo a Agência Espacial Europeia.
À medida que o ambiente orbital se torna mais congestionado, cresce a dúvida sobre até que ponto essa poluição pode afetar sistemas essenciais, como GPS, comunicações via satélite e até a previsão do tempo.
Embora muitos impactos diretos na superfície ainda sejam considerados improváveis, especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam que os efeitos indiretos sobre equipamentos em órbita já preocupam.
A operação de satélites de navegação, telecomunicações ou monitoramento climático depende de trajetórias e sinais livres de interferência, algo cada vez mais desafiador diante do aumento de detritos.
O engenheiro aeroespacial Gustavo Luiz Olichevis Halila, professor de Engenharia Mecânica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica que partículas metálicas liberadas durante a reentrada de satélites podem contribuir para distorções eletromagnéticas.
“Quando pequenos fragmentos metálicos permanecem em órbita ou se dispersam na alta atmosfera, eles podem refletir, dispersar ou absorver ondas eletromagnéticas, o que causa alterações na propagação dos sinais de GPS, nos meios de telecomunicação e na operação de satélites de observação”, afirma.
Segundo ele, em grande escala, esse cenário eleva o ruído de fundo e degrada a precisão das estimativas de posicionamento.
Já o astrofísico Adam Smith, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), pondera que essa interferência não costuma ser significativa no contexto atual.
“As partículas metálicas só interfeririam de forma relevante se permanecessem suspensas na atmosfera, o que não acontece. Elas são densas e tendem a cair, sem massa ou distribuição suficientes para afetar sinais de rádio”, explica.
Lixo espacial pode comprometer instrumentos meteorológicos?
A previsão do tempo depende de satélites que carregam sensores capazes de medir radiação, umidade, temperatura e dinâmica de nuvens. Quando o ambiente orbital se congestiona, esses instrumentos ficam mais expostos a falhas e interferências.
“Fragmentos cruzando o campo de visão podem gerar reflexões espúrias em radares de observação da Terra ou degradar a qualidade de dados usados em modelos numéricos”, diz Gustavo.
Smith concorda que há risco de distorções, mas reforça que ainda não há impacto crítico no cenário atual. “O lixo espacial pode refletir ou desviar sinais de sensores e radares meteorológicos. Hoje o efeito é mínimo, mas, se a quantidade de detritos continuar crescendo, isso poderá se tornar um problema real no futuro”, alerta.
O professor destaca ainda que a maior vulnerabilidade está nas tecnologias que dependem de satélites, como internet via constelações em baixa órbita. “O lixo espacial interfere muito mais nos equipamentos que estão em órbita do que nos sistemas aqui na Terra”, reforça.
Imagem ilustrativa da Nasa mostra quantidade de lixo espacial na órbita da Terra
Colisões e efeito cascata são as principais ameaças aos satélites
Entre os riscos que mais preocupam pesquisadores, as colisões aparecem no topo da lista. Fragmentos de poucos milímetros podem viajar a até 28 mil quilômetros por hora. Uma colisão com essa energia pode destruir por completo um satélite.
“Esse é o ponto mais crítico. Satélites de comunicação, navegação, sensoriamento remoto e previsão do tempo podem ser comprometidos por impactos com detritos espaciais. E cada colisão gera ainda mais fragmentos, agravando o problema em efeito cascata”, esclarece.
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O Brasil, apesar de não operar grandes constelações de satélites próprias, também é vulnerável, já que depende fortemente de equipamentos internacionais. “Qualquer degradação na qualidade dos sinais pode afetar agricultura, aviação, previsão do tempo e monitoramento ambiental”, afirma.
A localização próxima da Anomalia Magnética do Atlântico Sul também torna o ambiente ainda mais exigente para equipamentos em órbita.
Tecnologias para reduzir o lixo já existem, mas ainda estão longe do ideal
Há projetos em desenvolvimento, mas nenhum sistema plenamente operacional para remover detritos. Entre eles estão satélites de captura com redes ou braços robóticos, dispositivos que aceleram a reentrada ao fim da missão e materiais que queimam de forma mais completa na atmosfera.
Gustavo ressalta que o setor busca soluções mais sofisticadas de prevenção. “Novas abordagens tentam empregar materiais que reduzam a formação de partículas metálicas, enquanto procedimentos de monitoramento e manobras procuram evitar colisões e a geração de novos fragmentos”, afirma.
Smith ressalta que os desafios são grandes. “Ainda não há um sistema ativo e eficaz de limpeza. As tecnologias estão em fase experimental e enfrentam obstáculos técnicos e financeiros”, finaliza.
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