QI animal: entenda por que polvos são considerados tão inteligentes

Eles têm o corpo mole e flexível, com poucas partes rígidas. Quem olha apenas os atributos físicos dos polvos não imagina que eles guardem tamanha inteligência dentro de si. É comum encontrar na internet vídeos desses cefalópodes realizando tarefas impressionantes, como abrir tampas de potes, escapar de labirintos e até tocar piano. Com tanta habilidade, eles facilmente ganharam a alcunha de “os mais inteligentes do mar”.

Tamanha inteligência está ligada a um sistema nervoso extremamente desenvolvido para um invertebrado. Para se ter uma ideia, os polvos possuem cerca de 500 milhões de neurônios divididos pelo corpo. Aproximadamente 10% deles ficam no cérebro, 20% no nervo óptico e mais de 50% estão nos braços. Essa distribuição permite um controle sensorial motor independente do cérebro central.

“Cada um dos oito braços possui um agrupamento de neurônios considerados ‘minicérebros’ ou centros de processamento locais, permitindo-lhe mover-se, saborear e reagir ao ambiente de forma semi-independente do cérebro central principal, dando a cada braço autonomia significativa para ações complexas, criativas e rápidas”, explica o oceanógrafo Ricardo Schwarz, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina.

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Segundo o especialista, o desenvolvimento cerebral dos polvos faz com que eles tenham alta capacidade de assimilação, incluindo aprendizagem por tentativa e erro, memória de longo prazo e associação entre estímulos visuais e recompensas.

“Eles exibem comportamento flexível e inovador, ajustando suas ações a situações novas em vez de depender apenas de respostas instintivas fixas”, diz Schwarz, que também é membro da Associação Brasileira de Oceanografia (Aoceano).

Os polvos têm alta capacidade de se camuflar no mar para escapar de predadores

Habilidade em abrir potes, memória apurada e camuflagem

Para quem pensa que se trata de “fake news”, está enganado. Os famosos vídeos de polvos abrindo potes são reais. Esse é um tipo de experimento utilizado para testar a capacidade dos animais de realizar tarefas de aprendizagem — e eles tiram de letra. Curiosos, também já foi relatado o uso de objetos como ferramentas pelos invertebrados.

“Outra característica interessante é que esses animais apresentam memória espacial, ou seja, tendem a ocupar a mesma toca por semanas. Quando saem para buscar alimento, precisam portanto lembrar qual é o caminho de volta”, aponta a bióloga Mizziara de Paiva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Além disso, os invertebrados conseguem se camuflar com destreza no ambiente, se adaptando a diferentes locais através de contraste, textura e polarização da luz.

Polvos foram forçados a se tornarem inteligentes

A maioria dos polvos vive no fundo do mar, dividindo espaço com espécies mais fortes que eles. Se comparados, os atributos físicos dos invertebrados são praticamente nulos para sobreviver em um ambiente tão hostil. Para se manterem vivos, os animais passaram a desenvolver cada vez mais a inteligência, apostando na esperteza para vencer a força, uma estratégia que por vezes dá certo.

“Um exemplo deste tipo de estratégia é que algumas espécies se locomovem segurando conchas ou cascas de cocos por alguns metros para usarem de abrigo em caso de alguma situação adversa. Os polvos também utilizam de suas habilidades de camuflagem e excelente mobilidade para escapar de predadores”, exemplifica a professora de medicina veterinária Adrielly de Oliveira, do Centro Universitário de Brasília (Ceub).

Para o oceanógrafo Ricardo Schwarz, a sobrevivência dos polvos está intimamente ligada a estratégias cognitivas sofisticadas, como camuflagem ativa, fuga estratégica e exploração eficiente do ambiente. “A inteligência funciona como uma defesa alternativa, substituindo proteções físicas por soluções comportamentais rápidas e flexíveis”, finaliza.