ESA mostra vídeo raro de três erupções solares em eclipse artificial

A Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou um vídeo em time-lapse que mostra três grandes erupções de plasma se projetando para o espaço a partir do Sol durante um chamado “eclipse artificial”. As imagens foram captadas pela missão Proba-3, que utiliza duas espaçonaves alinhadas com precisão para bloquear o brilho intenso da estrela e permitir a observação detalhada de sua atmosfera externa, a coroa solar.

Segundo os pesquisadores, o material pode ajudar a avançar na compreensão de um dos principais enigmas da física solar: por que a coroa é muito mais quente do que a superfície do Sol. O registro reúne dados da missão europeia com imagens da NASA, oferecendo uma visão inédita da interação entre o disco solar e sua atmosfera.

Vídeo raro capturado pela missão Proba-3 da ESA (Imagem: ESA/Proba-3/ASPIICS, NASA/SDO/AIA)

Como funciona o “eclipse artificial” da missão Proba-3

A missão Proba-3 é composta por duas sondas lançadas em dezembro de 2024 para uma órbita altamente elíptica ao redor da Terra. Uma delas, chamada de occulter, bloqueia a luz direta do Sol, enquanto a outra, o coronagraph, observa a região ao redor. Esse alinhamento cria um eclipse artificial semelhante ao visto da Terra durante um eclipse solar natural, mas com maior frequência e por períodos mais longos.

Essa configuração permite que cientistas estudem detalhes sutis da coroa solar, a camada externa e difusa da atmosfera do Sol, que normalmente fica escondida pelo brilho intenso da superfície.

O que mostra o vídeo divulgado pela ESA

O vídeo foi publicado em 19 de janeiro e reúne imagens de um “eclipse” de cinco horas ocorrido em 2 de setembro de 2025, condensadas em um clipe de apenas quatro segundos. A luz amarela ao redor do Sol corresponde à coroa, registrada pelo coronagraph da Proba-3 com um filtro de hélio.

No centro, os pesquisadores sobrepuseram imagens da superfície solar captadas simultaneamente pelo Observatório de Dinâmica Solar da NASA. A combinação dos dois conjuntos de dados permite observar, com mais precisão, como a superfície e a atmosfera do Sol se relacionam.

Erupções que não são explosões solares

Durante o vídeo, três grandes plumas de plasma se destacam ao serem lançadas para o espaço. À primeira vista, elas podem parecer erupções solares do tipo flare, mas os cientistas observaram que não há os clarões típicos na superfície que caracterizam esse fenômeno.

Em vez disso, tratam-se de proeminências solares, estruturas em forma de arcos ou laços de plasma que se estendem da superfície, se tornam instáveis e acabam se rompendo, arremessando gás ionizado para o espaço.

Em vez de erupções, tratam-se de proeminências solares (Imagem: remotevfx.com / Shutterstock.com)

Segundo Andrei Zhukov, pesquisador do Observatório Real da Bélgica e principal investigador do coronagraph da missão, capturar tantas erupções desse tipo em um intervalo tão curto é incomum. Ele destacou que esses eventos, embora menos energéticos do que os flares, são valiosos para a pesquisa justamente por serem mais difíceis de observar.

Temperaturas e o mistério da coroa solar

A luminosidade intensa das proeminências pode sugerir que elas sejam mais quentes do que a coroa ao redor. No entanto, os dados indicam o contrário: o plasma dessas estruturas tem cerca de 10 mil graus, enquanto a coroa atinge temperaturas na casa de milhões de graus.

Essa diferença extrema é um dos maiores mistérios da ciência solar. De acordo com Zhukov, a coroa é cerca de 200 vezes mais quente do que a superfície do Sol, e ainda não há uma explicação completa para esse fenômeno. Registros como os obtidos pela Proba-3 podem ajudar a esclarecer esse comportamento.

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Novas tecnologias voltadas para a observação do Sol

Desde que começou a operar, há cerca de sete meses, a missão Proba-3 já realizou pelo menos 50 eclipses artificiais, e a expectativa da ESA é que centenas de observações sejam feitas nos próximos anos.

Outras iniciativas também têm ampliado o conhecimento sobre o Sol. Em junho de 2025, o telescópio CODEX, da NASA, instalado no exterior da Estação Espacial Internacional, registrou suas primeiras imagens da coroa, revelando perturbações associadas ao vento solar.

Representação artística do satélite Ocultador eclipsando o Sol para o Coronógrafo da missão Proba-3 (Imagem: ESA-P. Carril)

Além disso, o Telescópio Solar Daniel K. Inouye, no Havaí, e a missão Solar Orbiter, da ESA, ambos em operação desde 2021, captaram, respectivamente, a imagem mais detalhada já feita da superfície solar e a primeira foto do polo sul do Sol.

A sonda Parker Solar Probe, da NASA, também vem se aproximando mais do Sol do que qualquer outra nave antes dela, registrando imagens que podem ajudar a desvendar diferentes aspectos da atividade solar.

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