Fones bluetooth trazem risco à saúde? Entenda a polêmica que tomou conta das redes sociais

Nos últimos dias, fones de ouvido bluetooth passaram a ocupar o centro de uma polêmica nas redes sociais. Vídeos com tom alarmista afirmam que o uso frequente do acessório poderia provocar nódulos na tireoide e outros problemas de saúde, o que gerou dúvidas, medo e desinformação entre usuários de todas as idades. Mas afinal, o que de fato se sabe sobre esses possíveis riscos?

A discussão ganhou força após a circulação de conteúdos que citam um estudo científico recente, publicado em uma revista do grupo Nature. A pesquisa existe, mas o modo como seus resultados vêm sendo apresentados online distorce pontos fundamentais do trabalho.

O que o estudo citado nos vídeos realmente analisou

O estudo mencionado nas redes foi conduzido como uma investigação epidemiológica, área da ciência que analisa a distribuição e os fatores associados a doenças em grandes populações. Para isso, os pesquisadores utilizaram ferramentas de inteligência artificial para observar possíveis relações entre o uso de fones bluetooth e a ocorrência de nódulos na tireoide.

O ponto central é que o próprio artigo deixa claro que foi identificada apenas uma associação estatística, e não uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, os dois fatores aparecem juntos com alguma frequência nos dados analisados, mas isso não significa que um provoque diretamente o outro.

Para que se fale em causalidade, seriam necessários estudos mais longos, com acompanhamento dos participantes ao longo do tempo, grupos de controle bem definidos e repetição dos resultados em diferentes contextos e populações.

Associação não é causa: por que isso importa

Na ciência, encontrar uma associação é apenas o primeiro passo. Dois fenômenos podem ocorrer juntos por diversos motivos, inclusive por fatores externos que não foram analisados. É justamente por isso que especialistas alertam para o risco de conclusões precipitadas.

“Quando surgem muitas falas alarmistas, é importante aguardar novos estudos antes de mudar comportamentos. São necessários estudos independentes, com diferentes populações e contextos, além de pesquisas prospectivas, com acompanhamento ao longo do tempo, grupo controle e replicação dos resultados. Existem vários critérios para que a gente consiga, de fato, comprovar uma relação de causalidade. Qualquer alarme que se faça em relação a isso, no momento, é excessivo”, afirma Carolina Ferraz, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

A verdade sobre o uso de fones blueotooth. Foto: FreePikA verdade sobre o uso de fones blueotooth. Foto: FreePik

O principal risco conhecido está ligado à audição

Do ponto de vista médico, o cuidado mais bem estabelecido em relação ao uso de fones de ouvido não tem relação com a tireoide, mas com a saúde auditiva. Segundo Pauliana Lamounier, médica da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, os fatores mais relevantes são o volume do som e o tempo de exposição.

“O tipo de fone também influencia. Os modelos intra-auriculares tendem a concentrar mais energia sonora dentro do canal auditivo do que os fones do tipo concha, que envolvem toda a orelha”, explica.

O uso prolongado em volume elevado pode levar à perda auditiva induzida por ruído, um problema que se instala de forma gradual e muitas vezes passa despercebido no início.

Crianças e jovens merecem atenção especial

Entre crianças e adolescentes, o cuidado deve ser ainda maior. Isso porque essa faixa etária tende a usar fones de ouvido por longos períodos para ouvir música, assistir a vídeos ou jogar, acumulando uma exposição maior ao longo da vida.

Além disso, os sintomas iniciais de dano auditivo, como zumbido ou dificuldade para compreender a fala, nem sempre são percebidos de imediato. “Os fones de ouvido, por si só, não são vilões. O problema é o uso inadequado, especialmente ouvir música em volume elevado por períodos prolongados, o que representa o principal risco à saúde auditiva”, reforça Pauliana.

E a radiação emitida pelos fones bluetooth?

Outro ponto que gera confusão diz respeito à radiação. Os fones bluetooth emitem radiação de radiofrequência não ionizante, a mesma categoria usada por celulares, Wi-Fi e outros dispositivos eletrônicos comuns no dia a dia.

Essa radiação é de baixa energia e não tem capacidade de causar danos diretos ao DNA. A tecnologia bluetooth opera na frequência de 2,4 GHz, amplamente estudada e regulamentada. Segundo a Organização Mundial da Saúde, não há evidências consistentes de efeitos adversos à saúde associados à exposição à radiofrequência dentro dos limites recomendados.

Atualmente, não existem diretrizes médicas ou regulatórias que restrinjam o uso de fones bluetooth por risco de radiação.

Há alguma recomendação prática para o uso diário?

Embora não haja indicação de rastreamento ou mudança radical de hábitos por causa do estudo citado, especialistas reforçam cuidados simples e já conhecidos para proteger a audição. Uma orientação bastante difundida é a regra do 60/60: usar o som em até 60% do volume máximo por, no máximo, 60 minutos seguidos, fazendo pausas para descanso auditivo.

Esse tipo de cuidado ajuda a reduzir o risco de perda auditiva e vale tanto para fones bluetooth quanto para modelos com fio.

Resumo:
Vídeos nas redes sociais levantaram suspeitas sobre riscos dos fones bluetooth à saúde, mas o estudo citado aponta apenas uma associação estatística, sem comprovar causa e efeito. Especialistas explicam que o principal cuidado continua sendo com a audição, evitando volume alto e uso prolongado, e reforçam que não há evidências de riscos relacionados à radiação desses dispositivos.