Emagrecer é a mesma coisa que perder peso?

Quando falamos em mudança do corpo, é comum usar “emagrecer” e “perder peso” como sinônimos. Mas, na prática médica, eles representam coisas diferentes — e entender essa diferença pode fazer toda a sua jornada de saúde ser muito mais eficaz, seja você paciente de cirurgia bariátrica ou não.

Perder peso é diferente de emagrecer

O peso é apenas um número total, que engloba:

gordura corporal
massa muscular
água
ossos
volume de órgãos
até mesmo o quanto você comeu ou bebeu nas últimas horas

Perder peso pode significar perder água, massa muscular ou até ter menos conteúdo intestinal — nada disso é emagrecer.

Emagrecer é outra história. Emagrecer é reduzir gordura corporal, especialmente a gordura visceral (aquela que fica dentro da barriga e aumenta risco de diabetes, pressão alta e doenças cardiovasculares).
Ou seja, você pode:

perder peso sem emagrecer (ex.: desidratação, perda de massa magra)
emagrecer sem perder muito peso (ganho muscular enquanto reduz gordura)

É por isso que, nas consultas, priorizamos medidas como composição corporal, circunferência abdominal e, principalmente, marcadores metabólicos.

E após a bariátrica? Dá para não emagrecer?

A cirurgia bariátrica é uma ferramenta poderosa — mas ela não garante sozinha o emagrecimento. Embora 80% a 90% dos pacientes tenham perda de gordura expressiva, existem, sim, casos de perda insuficiente ou de reganho de peso.

“Mas doutor, como alguém pode não emagrecer depois de reduzir o estômago?”

Porque a bariátrica atua em dois pilares:

Restrição (redução do estômago)
Metabolismo hormonal (alterações que reduzem fome e melhoram diabetes)

Mas existem fatores que podem “sabotar” esses efeitos:

COMER POUCO, MAS COMER ERRADO

Há pacientes que, mesmo comendo pequenas porções, consomem:

muito açúcar
farinhas
alimentos líquidos e calóricos
doces, milkshakes, bebidas alcoólicas

O resultado?
Muita caloria entrando, pouca saciedade.

FALTA DE PROTEÍNA = NÃO EMAGRECER

Proteína é indispensável para:

reconstrução muscular
saciedade
manter o metabolismo acelerado

Sem ela, o corpo perde músculo e estagna o emagrecimento — mesmo comendo pouco.

SEDENTARISMO: O FREIO DO RESULTADO

Sem treino, o corpo perde massa magra, ficando com o metabolismo mais lento.

A cada 1 kg de músculo perdido, você queima cerca de 30 a 50 calorias a menos por dia — o equivalente a “desligar” parte da sua caldeira interna.

BEBER CALORIAS

Café com leite, sucos, vinhos, “smoothies fit”: tudo isso passa fácil pelo novo estômago.

Mas soma calorias que não geram saciedade.

QUESTÕES HORMONAIS

Algumas condições prejudicam o ritmo de emagrecimento, como:

hipotireoidismo
resistência à insulina
menopausa
alterações cardiovasculares
deficiências nutricionais após a cirurgia

Por isso, o acompanhamento é obrigatório.

FALTA DE ACOMPANHAMENTO MULTIDISCIPLINAR

A bariátrica não termina na sala de cirurgia.
Ela exige:

nutricionista
endócrino
psicólogo
atividade física
exames de rotina
suporte médico contínuo

Sem isso, a chance de não emagrecer ou reganhar peso aumenta.

Por isso que emagrecer não é apenas perder peso — é perder gordura, ganhar saúde e recuperar qualidade de vida.
E sim, é possível não emagrecer após a bariátrica, principalmente quando não há acompanhamento próximo ou quando escolhas alimentares e comportamentais não mudam.

A boa notícia? Com avaliação correta, ajuste do plano alimentar, suplementação, atividade física e análise metabólica, quase todos os pacientes conseguem “travar” o peso e voltar a emagrecer com segurança.

Seu corpo muda quando você entende como ele funciona.

Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho e CEO do Instituto Medicina em Foco