A chamada “Guerra do Delivery” ganha novos contornos no Brasil. O Olhar Digital conversou com as principais empresas do setor aqui no país para trazer as atualizações sobre essa concorrência que saiu dos aplicativos e chegou à polícia.
iFood
Vamos começar falando do iFood. A empresa brasileira foi a única que nos concedeu entrevista – e, por isso, naturalmente, terá mais detalhes nesta reportagem.
Em entrevista ao Olhar Digital, Rafael Corrêa, head de comunicação do iFood, descreveu um “ataque coordenado” de consultorias sediadas na China buscando informações confidenciais e privilegiadas da empresa brasileira.
Tudo começaria com com pedidos de pesquisa ou entrevistas online a funcionários, principalmente pelo LinkedIn e por e-mail. Essas solicitações, que começaram no primeiro semestre do ano passado, focavam em detalhes específicos da operação do iFood – como cálculo de margem de lucro, precificação e promoções com restaurantes.
Segundo o executivo, o iFood mapeou mais de 170 pedidos para funcionários das equipes comercial e de vendas, com ofertas de remuneração variando de US$ 200 a US$ 500 por hora de entrevista, chegando a US$ 1.000 para um alto executivo. Convertendo, teríamos algo entre R$ 1.000 e R$ 5.500.
O iFood vê como um ataque coordenado de consultorias, boa parte baseada na Ásia, em busca de informações privilegiadas e confidencias da empresa via pedidos de entrevistas online, feitas principalmente por LinkedIn. Então, você tem consultores enviando mensagem em inglês para funcionários do iFood com perguntas que não são sobre pesquisa de mercado. Esse tipo de pesquisa está estabelecido, de consultoria que procura especialistas para falar sobre mercado. O que é o diferencial aqui? As perguntas não são sobre mercado de delivery. As perguntas são sobre detalhes específicos da operação do iFood.
Rafael Corrêa, head de comunicação do iFood
Segundo o executivo, o iFood nunca tinha vivenciado algo parecido.
A nossa reportagem obteve prints atribuídos a essas consultorias.
Em um deles, o convite é para uma chamada por Zoom com pagamento posterior à reunião. São solicitadas informações como o número de usuários do iFood e a lógica de precificação. A remuneração era de US$ 350 (quase R$ 1.900) por uma ou duas horas de conversa.
Em outra captura de tela, a mensagem questiona: “Você está familiarizado(a) com os planos de investimento que o Diego (Diego Barreto, CEO do iFood) mencionou recentemente? A quais novos projetos isso se refere dentro do iFood? Quais grandes mudanças são esperadas na estrutura organizacional e nas operações de negócio do iFood?”.
Em outro exemplo, o interesse é pela IA do iFood, o Ailo. Uma mulher se apresenta como representante de um escritório em Xangai e diz entrar em contato para uma consultoria sobre assistentes de IA. Ela diz que o objetivo da conversa é entender o progresso do Ailo e o feedback da tecnologia até aqui – tanto de consumidores quanto de comerciantes. Ela oferece até US$ 500 por hora (quase R$ 2.700).
Desde que detectamos a primeira onda, tomamos medidas internas para explicar aos funcionários que essas informações são protegidas, que esse tipo de consultoria não é permitido. Em alguns casos, enviamos notificações extrajudiciais para essas consultorias dizendo que o iFood não concorda com o tipo de pedido de pesquisa que vem sendo feito.
Rafael Corrêa, head de comunicação do iFood
Investigação policial
O iFood diz, ainda, que contratos de non-compete foram violados. Um contrato de non-compete é um acordo em que a pessoa se compromete a não trabalhar ou abrir negócio concorrente por um período após sair de uma empresa.
A cláusula normalmente define prazo, região e atividades proibidas para evitar concorrência direta e uso de informações estratégicas. Em muitos casos exige compensação para quem fica impedido de atuar.
Segundo Rafael Corrêa, quebras contratuais estão tramitando na Justiça:
O iFood tem, sim, investigações policiais decorrente de dados que foram subtraídos por ex-funcionários. Estão sob segredo de justiça. E temos processos na esfera trabalhista de funcionários que quebraram acordo de non-compete com a empresa e hoje estariam trabalhando em empresas concorrentes.
Rafael Corrêa, head de comunicação do iFood
Em junho, inclusive, o iFood notificou extrajudicialmente a 99Food alegando que a concorrente estaria atraindo colaboradores com contrato de non-compete. A companhia chinesa estaria enviando mensagem para funcionários do iFood pelo LinkedIn, afirmando que esse tipo de cláusula não seria um problema.
O iFood foi fundado em 2011. Segundo a empresa, são 60 milhões de usuários no Brasil. Uma pesquisa da klavi apontou que o iFood detinha 93% de participação no mercado brasileiro até o primeiro trimestre de 2025. Nas contas da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, essa participação passa de 80%. São mais de 400 mil estabelecimentos parceiros em mais de 1.500 cidades. Ainda de acordo com a empresa, entre abril de 2025 e março de 2026, os investimentos diretos do iFood somam R$ 17 bilhões.
99 Food e Keeta também se dizem vítimas de espionagem
99Food
Como mostramos no ano passado, a 99 disse ter encontrado indícios suficientes de que informações confidenciais e sensíveis da empresa podem ter sido comprometidas em ações criminosas, como planos e datas de lançamento da 99Food em outras cidades, contratos com restaurantes, além de estratégias e estruturas comerciais de expansão da operação da plataforma no Brasil.
Funcionários da empresa estariam recebendo mensagens de supostas consultorias que oferecem valores de US$ 200 a US$ 1.000 em simulações de pesquisas de mercado buscando informações confidenciais. A plataforma também denunciou o furto de notebooks corporativos de pessoas diretamente ligadas a lideranças da 99 e da 99Food.
“A investigação da companhia incluirá relatos e boletins de ocorrência de funcionários que sofreram perseguições em cidades onde a 99Food atua e desenvolve seus negócios, além de evidências de múltiplas tentativas, algumas diariamente, de tentativa de invasão aos sistemas internos da empresa e ao aplicativo”, acrescentava a nota.
Enquanto a 99 revoluciona um mercado há muito dominado por práticas que prejudicam restaurantes, entregadores e consumidores, acreditamos haver indícios que apontam para uma campanha para comprometer nossas operações: assédio para obtenção de dados, furtos de laptops, perseguições e tentativas diárias de acesso não autorizado. Temos sinais de violações envolvendo informações sensíveis e já iniciamos uma investigação minuciosa.
99, em nota divulgada em outubro de 2025
O Olhar Digital entrou em contato com a 99 para atualizar o caso e espera um retorno. A empresa também não se manifestou sobre a notificação extrajudicial envolvendo o iFood que citamos acima. Nossa reportagem solicitou uma entrevista com um porta-voz da 99 e aguardamos uma data.
A 99Food anunciou seu retorno ao Brasil em abril de 2025, depois de deixar o país em 2023. As operações foram reiniciadas em junho na cidade de Goiânia. Gradativamente, foi se expandindo. Hoje, está presente nos seguintes estados: Amapá, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo – na maior parte dos casos, os serviços se restringem às capitais. A 99Food pertence à chinesa DiDi Global. A promessa é de R$ 2 bilhões de investimento até junho de 2026.
Keeta
Em contato com o Olhar Digital, a Keeta informou que a Polícia Civil investiga ataques de espionagem coordenados contra a companhia e restaurantes em Santos. De acordo com o comunicado, após o lançamento da Keeta na cidade, pelo menos oito restaurantes foram abordados por pessoas que supostamente se passavam por funcionários da empresa.
A Keeta afirma que foram apresentadas credenciais falsas, com o objetivo de obter dados dos estabelecimentos, incluindo: pedidos aceitos e despachados, informações financeiras (métodos de pagamento dos consumidores, práticas de remuneração de entregadores, taxa de comissão e modelos de contratação), processos de integração e treinamento de restaurantes, cardápios, preferências de consumidores e outros itens sensíveis.
Sobre os casos de espionagem e quebra de contrato non-compete, a nota diz o seguinte:
Quanto ao processo de recrutamento de talentos, a Keeta reforça que atua de acordo com todas as leis e requisitos locais. No Brasil, seguimos rigorosamente a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), e possuímos políticas internas robustas e transparentes em relação ao uso de dados.
A Keeta acredita em um mercado aberto e justo e, por isso, a companhia está profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais, e opera em conformidade total com todos os requisitos locais.
Keeta, em nota enviada ao Olhar Digital
A Keeta é a plataforma de delivery da gigante chinesa Meituan. O aplicativo estreou no país em outubro do ano passado, começando por Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo. Em dezembro, chegou à região metropolitana da capital paulista. Até o fim de 2025, a plataforma já possuía mais de 27 mil restaurantes cadastrados na Grande São Paulo e mantinha uma rede de 98.200 entregadores parceiros cadastrados na capital paulista. A empresa assumiu um compromisso total de R$ 5,6 bilhões para o Brasil em cinco anos.
Nós também solicitamos uma entrevista com um porta-voz da Keeta e aguardamos uma data.
O outro player: Rappi
A Rappi disse ao Olhar Digital que não vai se manifestar sobre os assuntos tratados nesta reportagem. O espaço continua aberto e também solicitamos uma entrevista com um porta-voz do app.
Fundado em 2015 e presente no Brasil desde 2017, o aplicativo colombiano Rappi se diz o primeiro Super App da América Latina. Está presente na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru e Uruguai. Para os próximos anos, a Rappi diz que fará um aporte de R$ 1,4 bilhão até 2028. Até lá, a expectativa é de que a plataforma esteja presente em mais de 300 maiores municípios brasileiros.
99Food e Keeta tiveram queixas no começo da operação
Restaurantes reclamaram que ‘taxa zero’ da 99Food virou prejuízo
Em agosto do ano passado, noticiamos que donos de restaurantes relataram prejuízos após aderirem à 99Food. Em redes sociais e sites de reclamação, eles afirmaram ter sido atraídos pela promessa de isenção de taxas, mas dizem ter sido surpreendidos por cobranças consideradas abusivas.
Você pode relembrar o caso aqui.
Estreia da Keeta no Brasil teve até protestos
A operação-piloto da Keeta em Santos e São Vicente motivou, logo na largada, protestos de entregadores. As principais reclamações envolviam pagamentos abaixo do esperado, falta de transparência e bloqueios automáticos aplicados a quem recusa corridas.
Você pode relembrar o caso aqui.
O post Guerra do delivery: iFood, 99Food e Keeta se dizem vítimas de espionagem no Brasil apareceu primeiro em Olhar Digital.






