Um estudo publicado este mês na revista Geophysical Research Letters alerta para um efeito colateral inesperado de substâncias criadas para proteger a camada de ozônio: elas estão contribuindo para uma espécie de “chuva química” em todo o mundo. Segundo a pesquisa, esses compostos liberam na atmosfera um ácido altamente persistente, que depois retorna à superfície da Terra por meio da precipitação e da deposição no solo.
Liderado por cientistas da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, o trabalho calculou pela primeira vez o volume total desse poluente formado nas últimas décadas. Entre 2000 e 2022, cerca de 335.500 toneladas de ácido trifluoroacético (TFA) foram produzidas na atmosfera e depositadas no planeta. O TFA é resultado da decomposição de gases usados como substitutos dos antigos clorofluorocarbonetos (CFCs), proibidos por destruírem a camada de ozônio.
Buraco na camada de ozônio sobre a Antártica. Substâncias hoje proibidas, devido aos seus impactos ambientais, liberaram grandes quantidades de compostos que se transformaram em ácido na atmosfera, alimentando uma espécie de “chuva química” persistente em todo o planeta. Crédito: Ozônio Watch/NASA
Em resumo:
Pesquisa revela “chuva química” invisível que se espalha globalmente;
Substitutos dos CFCs geram ácido trifluoroacético persistente na atmosfera;
Poluente retorna à superfície pela chuva e deposição ambiental;
Entre 2000 e 2022, 335.500 toneladas foram formadas;
TFA integra grupo dos químicos eternos persistentes;
Cientistas alertam para acúmulo crescente nas próximas décadas.
Os CFCs foram amplamente banidos após o Protocolo de Montreal, assinado em 1987. No lugar deles, passaram a ser utilizados outros compostos, como os hidroclorofluorocarbonos (HCFCs), os hidrofluorocarbonos (HFCs) e, mais recentemente, os hidrofluorolefinas (HFOs). Esses gases são empregados principalmente em sistemas de refrigeração, ar-condicionado e também em alguns anestésicos inalatórios.
Embora tenham sido considerados alternativas mais seguras para o ozônio, esses substitutos não são isentos de impactos ambientais. Quando liberados na atmosfera, eles podem reagir com outros componentes do ar e se decompor, formando o TFA. Esse composto pertence ao grupo das substâncias per e polifluoradas (PFAS), conhecidas como “químicos eternos” por praticamente não se degradarem no meio ambiente.
CFC swaps spike global TFA deposits. Ozone-protecting CFC replacements have dumped 335,500 tonnes of persistent TFA chemical across Earth since 2000, turning a planetary win into a lingering toxic legacy. Ozone hole patched, forever chemicals unlocked: We fixed the sky’s sunburn… pic.twitter.com/s4j1yda4Sf
— Nirmata (@En_formare) February 4, 2026
Poluentes podem viajar milhares de quilômetros
Para estimar a dimensão do problema, os pesquisadores utilizaram modelos de transporte químico. Esse tipo de ferramenta simula como os poluentes se deslocam pelo ar, reagem com outras substâncias e acabam sendo removidos da atmosfera. No caso do TFA, ele pode retornar à superfície por meio da chuva – configurando a chamada “chuva química” – ou se depositar diretamente no solo e na água.
Os cientistas alimentaram o modelo com dados de uma rede global de monitoramento atmosférico, que mede a concentração desses gases ao redor do mundo. A partir dessas informações, calcularam quanto TFA é produzido e onde ele tende a se acumular. Os resultados foram comparados com medições reais, como análises de água da chuva e amostras de gelo do Ártico.
Uma das conclusões mais preocupantes é que praticamente todo o TFA detectado no Ártico – uma região distante de grandes centros industriais – pode ser explicado pela decomposição desses gases substitutos dos CFCs. Isso mostra que a poluição não fica restrita às áreas onde os compostos são emitidos. Como permanecem por muito tempo na atmosfera, eles podem viajar milhares de quilômetros antes de se transformar em TFA.
Praticamente todo o TFA detectado no Ártico – uma região distante de grandes centros industriais – pode ser explicado pela decomposição desses gases substitutos dos CFCs. Crédito: MarcelClemens – Shutterstock
Em um comunicado, Lucy Hart, doutoranda da Universidade de Lancaster e autora principal do estudo, os substitutos dos CFCs devem se tornar a principal fonte atmosférica de TFA nas próximas décadas. Muitos desses gases têm vida longa e continuam ativos no ar por anos ou até décadas. Por isso, mesmo com a redução gradual de alguns deles, a produção de TFA pode atingir seu pico entre 2025 e 2100.
Outro ponto destacado é o crescimento do uso do HFO-1234yf, empregado em sistemas de ar-condicionado automotivo, especialmente na Europa. Esse composto foi promovido como alternativa mais ecológica aos HFCs. No entanto, já se sabe que ele também pode gerar TFA quando se decompõe na atmosfera, aumentando a incerteza sobre os níveis futuros do poluente.
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Chuva não representa risco imediato à saúde humana
O TFA ainda está sendo estudado, mas há sinais de alerta. A Agência Europeia de Produtos Químicos classifica a substância como prejudicial à vida aquática. O composto já foi detectado no sangue e na urina humanos. Na Alemanha, autoridades propuseram que ele seja considerado potencialmente tóxico para a reprodução.
Algumas agências avaliam que as concentrações atuais não representam risco imediato à saúde humana. Mesmo assim, pesquisadores chamam atenção para o caráter cumulativo e praticamente irreversível do TFA no ambiente. Como ele não se degrada com facilidade, tende a se acumular em rios, lagos e solos ao longo do tempo.
Para o professor Ryan Hossaini, coautor do estudo, o aumento contínuo dos níveis de TFA é impressionante. Segundo ele, mesmo com a redução progressiva do uso de HFCs, essa fonte de poluição continuará ativa por décadas. Por isso, os cientistas defendem um esforço internacional para ampliar o monitoramento e investigar outras possíveis fontes do composto.
O estudo reuniu pesquisadores de instituições da Europa, Austrália, Estados Unidos e Ásia. Ao combinar dados de diferentes regiões e fontes, o trabalho oferece a primeira avaliação global integrada sobre a formação atmosférica de TFA. Os autores alertam que, se nada mudar, a “chuva química” de TFA poderá se intensificar nas próximas décadas, ampliando o acúmulo desse poluente persistente no meio ambiente.
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