Um pequeno caroço sob a mandíbula parecia algo simples. Para Anthony Perriam, morador de Cardiff, no País de Gales, foi o início de uma corrida contra o tempo. O que começou como um nódulo indolor acabou revelando um câncer de cabeça e pescoço associado ao vírus do papiloma humano, o HPV.
Anthony procurou um clínico geral logo após perceber a alteração. Em poucas semanas, após exames como tomografia, ressonância magnética e biópsia, veio o diagnóstico: tumor na base da língua relacionado ao HPV.
“Eu só tinha ouvido falar do HPV em relação ao câncer de colo do útero. Não tinha ideia de que poderia causar cânceres como este, especialmente em homens”, relata. Ele afirma que, se tivesse adiado a investigação, poderia ter perdido a língua ou até a própria vida.
O que é o HPV e como ele pode causar câncer?
O HPV, sigla para vírus do papiloma humano, é um grupo com mais de 100 tipos diferentes de vírus que afetam a pele e as mucosas. A maioria das infecções é eliminada espontaneamente pelo organismo, sem causar sintomas, segundo o Serviço Nacional de Saúde de Gales, o NHS Wales.
No entanto, alguns subtipos estão associados ao desenvolvimento de verrugas genitais e de diferentes tipos de câncer, principalmente de colo do útero em mulheres e de cabeça e pescoço em homens.
A transmissão ocorre principalmente por contato pele a pele na região genital, durante relações sexuais vaginais, anais ou orais, além do compartilhamento de brinquedos sexuais. Como muitas infecções são silenciosas, a pessoa pode carregar o vírus por anos sem saber.
HPV em homens também é preocupante. Entenda. Foto: Anthony Perriam / BBC News Brasil
Câncer de cabeça e pescoço: sinais que podem passar despercebidos
No caso de Anthony, o tumor primário foi localizado na base da língua. Ele não apresentava dor nem sintomas evidentes quando o câncer foi detectado.
“Se você notar um caroço, mesmo que não doa, vá fazer um exame”, orienta. “Não se fala o suficiente sobre este tipo de câncer, especialmente entre os homens. A detecção precoce realmente salva vidas.”
O tratamento foi intenso. Ele passou por cirurgia assistida por robô para remoção do tumor e teve 44 gânglios linfáticos retirados do pescoço. Um deles, segundo os médicos, estava prestes a se romper, o que poderia ter facilitado a disseminação da doença.
Depois da cirurgia, vieram sessões de radioterapia e quimioterapia. Anthony perdeu 22 quilos e relata dificuldades severas para se alimentar e beber líquidos, além de fraqueza extrema. “Perdi toda a saliva”, conta. “Até beber era difícil, pois tudo se transformava em pó na minha boca.”
Vacina contra o HPV: quem deve tomar?
Diversos países recomendam a vacinação contra o HPV ainda na pré-adolescência. A aplicação costuma ser indicada para meninos e meninas entre 12 e 13 anos, antes do início da vida sexual, quando a resposta imunológica é mais eficaz.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde oferece gratuitamente a vacina para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos específicos com maior risco.
Dados citados pelo Hospital Universitário de Gales indicam que, desde a introdução da vacina em 2008, houve redução de quase 90% nas taxas de câncer de colo do útero entre mulheres na faixa dos 20 anos.
O otorrinolaringologista Sandeep Berry, do Serviço de Saúde de Cardiff e Vale, reforça a importância da imunização. “A vacina contra o HPV tem sido usada em todo o mundo há anos; é segura e eficaz”, afirma. Segundo ele, a imunização ajuda a prevenir cânceres relacionados ao vírus e contribui para a saúde pública.
Por que homens também precisam se preocupar?
Durante muito tempo, o HPV foi associado principalmente ao câncer de colo do útero. No entanto, estudos e dados de sistemas de saúde mostram que tumores de orofaringe, que incluem base da língua e garganta, têm crescido, especialmente entre homens.
Como a infecção pode permanecer silenciosa por anos, a prevenção por meio da vacina e a atenção a sinais como caroços no pescoço, dificuldade persistente para engolir, dor de garganta prolongada ou alterações na voz são fundamentais.
A história de Anthony chama atenção para um ponto central: um sintoma aparentemente pequeno pode esconder algo sério. O diagnóstico precoce fez diferença no desfecho.
Resumo:
Um homem quase perdeu a língua após desenvolver câncer de cabeça e pescoço ligado ao HPV, descoberto a partir de um caroço indolor no pescoço. O caso reforça a importância da vacinação, disponível no SUS para jovens de 9 a 14 anos, e da investigação médica diante de qualquer alteração persistente.
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