Uma formação rochosa do sul da Itália, conhecida como cenário de inúmeros pedidos de casamento, deixou de existir justamente no dia em que o amor é celebrado na Europa. Em 14 de fevereiro, o chamado “Arco dos Namorados” ou “Arco do Amor” – oficialmente Arco Sant’Andrea -, desabou após dias de chuvas intensas e mar agitado, que atingiram a costa adriática.
Localizado no “calcanhar” do país, na região da Puglia, o arco integrava o conjunto rochoso dos Faraglioni di Sant’Andrea, em Salento. Esculpido ao longo de séculos pela ação do vento e das ondas sobre a rocha calcária branca, o monumento natural se projetava sobre o mar como uma ponte, sendo um símbolo que atraia românticos de todo o mundo.
Um cartão-postal moldado pela erosão
Ao longo do tempo, o que já foi ponto estratégico de observação contra invasões marítimas transformou-se em parada obrigatória para turistas. O arco, além de uma formação geológica curiosa, virou cenário de pedidos de casamento, primeiros beijos e celebrações a dois.
Segundo a tradição local, quem se beijasse sob sua estrutura estaria destinado ao amor eterno. Fotos nas redes sociais ajudaram a consolidar o apelido romântico, e hotéis e resorts surgiram nos arredores, alguns deles inspirados no próprio monumento.
A estrutura cedeu na madrugada de sábado (14). As tempestades dos últimos dias, com ondas violentas e infiltração de água na base da rocha, aceleraram um processo de desgaste que já vinha sendo monitorado há anos. Quando o dia amanheceu – coincidindo com o Dia de São Valentim – o que antes era um dos pontos mais fotografados do litoral havia se reduzido a blocos de pedra espalhados pelo mar.
Não houve feridos, mas as autoridades locais classificaram o episódio como o dano mais significativo já registrado pela erosão costeira naquela faixa do Adriático.
“Um golpe devastador”
O prefeito de Melendugno, município vizinho à área onde ficava o arco, Maurizio Cisternino, lamentou a perda e descreveu o desabamento como um golpe duro para a cidade e para o turismo. Para ele, um dos elementos mais reconhecíveis não só do litoral da Puglia, mas de toda a Itália, desapareceu.
A cena foi comparada a um funeral por autoridades locais do turismo. Esse sentimento se espalhou entre moradores e visitantes, muitos deles ligados ao arco por memórias afetivas construídas ao longo de décadas. Com acesso livre e gratuito, nunca foi possível medir quantos casais passaram por ali.
Che tristezza #Salento #Puglia #Faraglioni pic.twitter.com/G0pi2y1kMA
— Alex38bell 5-0 (@alex38bell) February 15, 2026
Tempestades e clima extremo
O desabamento acontece em meio a um inverno marcado por eventos climáticos severos no sul da Itália. Nas últimas semanas, a passagem de ciclones e tempestades intensas provocou inundações e deslizamentos em diferentes regiões.
Em 25 de janeiro, o ciclone Harry atingiu o país e abriu uma fenda de cerca de quatro quilômetros na cidade de Niscemi, na Sicília – uma cratera que engoliu ruas, casas e veículos. Em outras áreas, imóveis também chegaram a ruir após fortes chuvas.
Especialistas associam a intensificação desses fenômenos ao aumento da temperatura das águas do Mar Mediterrâneo, que têm registrado níveis acima da média histórica. Esse aquecimento favorece a formação de ciclones e tempestades mais violentas, com ventos que podem ultrapassar 100 km/h e ondas que chegam a até 15 metros.
Em 2024, autoridades locais chegaram a solicitar recursos – cerca de U$ 4,5 milhões – para financiar um projeto de contenção da erosão costeira. O pedido foi considerado elegível, mas não recebeu a verba suficiente. Segundo o prefeito, tratava-se de uma tragédia anunciada. Após o colapso, ele afirmou que “a natureza recuperou o arco, assim como o criou”, e defendeu investimentos urgentes para proteger outros trechos da costa.
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