A corrida da inteligência artificial (IA) mobiliza bilhões de dólares, impulsiona ações de gigantes da tecnologia e domina discursos de executivos do Vale do Silício. Ainda assim, fora do setor, a reação do público tem sido mais contida do que o esperado. Pesquisas recentes indicam que entusiasmo e confiança não acompanham o ritmo das promessas.
Uma análise publicada pelo The New York Times observa que, diferente do que ocorreu na era da internet nos anos 1990, o atual ciclo da IA convive com desconfiança aberta. A reportagem questiona se essa falta de empolgação pode limitar o avanço do mercado, mesmo diante de cifras recordes e investimentos crescentes.
Promessas ambiciosas, adesão moderada
Executivos descrevem a IA como uma tecnologia comparável à eletricidade e até maior que o fogo, capaz de transformar a economia e a vida cotidiana em curto prazo. No entanto, levantamentos sugerem que a percepção social é mais cautelosa.
Uma pesquisa da YouGov realizada no ano passado mostrou que mais de um terço dos entrevistados teme que a IA possa levar ao fim da vida humana na Terra. Em outro levantamento, a maioria afirmou que não pagaria mais para ter recursos de IA em seus dispositivos.
Dados do National Bureau of Economic Research apontam que 80% das empresas disseram não ter registrado impacto da IA em produtividade ou emprego. Já no quarto trimestre de 2025, 38% dos trabalhadores informaram à Gallup que seus locais de trabalho haviam integrado a tecnologia, número praticamente estável em relação ao trimestre anterior.
O CEO da OpenAI, Sam Altman, reconheceu neste mês, em uma conferência, que a difusão cultural e econômica da IA ocorre de forma “surpreendentemente lenta” diante do que considera possível.
Disputa de narrativas
Para Jensen Huang, presidente da Nvidia, há uma “batalha de narrativas” em curso. Em entrevista a um podcast no mês passado, afirmou que críticas de figuras respeitadas reforçam uma visão apocalíptica da tecnologia e podem inibir investimentos.
Apesar disso, a Nvidia alcançou valor de mercado de US$ 4,5 trilhões, tornando-se a empresa mais valiosa do mundo. Outras companhias como Google, Microsoft, Amazon e Meta também registraram forte valorização, enquanto startups de IA atingiram cifras bilionárias em pouco tempo.
Mesmo assim, o mercado não está imune a oscilações. O índice S&P North American Software caiu 15% em janeiro, a maior queda mensal em 17 anos, diante do temor de que a IA substitua softwares tradicionais.
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Regulação e “licença social”
A preocupação com os efeitos da tecnologia também aparece nas discussões sobre regulação. Segundo pesquisa da Gallup no último semestre, 80% dos americanos defendem regras para IA, mesmo que isso desacelere o desenvolvimento.
Levantamento do Pew em 2025 mostrou que 61% dos entrevistados gostariam de ter mais controle sobre como a tecnologia é usada em suas próprias vidas. Relatório da Edelman divulgado em janeiro apontou que dois terços dos entrevistados de baixa renda acreditam que ficarão para trás com a IA generativa. Entre os de alta renda, quase metade compartilha dessa percepção.
No Fórum Econômico de Davos, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, afirmou que a questão central é quando a IA será percebida como ferramenta capaz de melhorar resultados concretos para pessoas e comunidades. Sem essa percepção, disse, a tecnologia pode perder a “licença social” para operar, especialmente diante do alto consumo de energia de data centers.
Especialistas em bolhas financeiras veem paralelos históricos, mas apontam uma diferença relevante: a ausência de entusiasmo generalizado. Para William Quinn, coautor de “Boom and Bust: A Global History of Financial Bubbles”, raramente um ciclo de inovação enfrentou tanta resistência ativa desde o início.
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