As principais montadoras globais estão avançando em direção a um novo estágio na corrida pelos carros autônomos: sistemas conhecidos como eyes-off, que permitem ao motorista tirar os olhos da estrada e realizar outras tarefas, como enviar mensagens ou usar o computador, até que o veículo solicite a retomada do controle. A tecnologia, conhecida no setor como Nível 3 de automação, é vista como um passo intermediário entre os atuais recursos de assistência e a condução totalmente sem motorista.
Empresas como a Ford Motor já anunciaram planos concretos. Doug Field, diretor de veículos elétricos, digital e design da companhia, disse à Reuters que a montadora pretende lançar um sistema eyes-off em modelos elétricos acessíveis a partir de 2028. A proposta, de acordo com o executivo, é começar a economizar tempo dos motoristas de forma imediata e a um custo considerado viável.
Debate sobre custos, demanda e viabilidade
Apesar do avanço, há divergências dentro da própria indústria. Parte dos executivos e especialistas questiona se a alternância de controle entre carro e condutor é segura ou prática, além de apontar potenciais desafios jurídicos. Paul Thomas, presidente da operação norte-americana da fornecedora Bosch, afirmou durante a CES, em janeiro, que ainda não se sabe se o Nível 3 faz sentido financeiramente.
Um levantamento da consultoria McKinsey indica que desenvolver um sistema Nível 3 para rodovias pode custar até US$ 1,5 bilhão, aproximadamente o dobro do investimento necessário para sistemas Nível 2, que já operam inclusive em áreas urbanas, mas exigem supervisão constante do motorista. Hoje, praticamente todos os sistemas disponíveis no mercado, incluindo o Full Self-Driving da Tesla, são classificados como Nível 2.
Algumas empresas já recuaram. A Mercedes-Benz, única a lançar tecnologia Nível 3 nos Estados Unidos até agora, suspendeu temporariamente seu programa devido a restrições de velocidade, condições limitadas de operação e delimitações geográficas que reduziram a demanda. A empresa informou que trabalha em uma versão aprimorada para os próximos anos. Em agosto, a Stellantis também interrompeu seus esforços nessa área por causa de custos elevados, desafios técnicos e incertezas sobre a procura do consumidor.
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Responsabilidade em caso de acidentes
A adoção do eyes-off também amplia o debate sobre responsabilidade legal. Analistas avaliam que, em caso de acidente, cresce a probabilidade de o fabricante ser responsabilizado. Artigo publicado no ano passado na Fordham Intellectual Property, Media and Entertainment Law Journal aponta que ainda há incerteza sobre quem responderia por colisões envolvendo tecnologia Nível 3.
Do ponto de vista técnico, o desafio é desenvolver um sistema capaz de identificar a necessidade de intervenção humana, alertar o condutor e manter a condução até a retomada do controle. Segundo Bryant Walker Smith, professor de direito da University of South Carolina, isso pode significar percorrer o equivalente a vários campos de futebol por pelo menos seis segundos antes que o motorista reassuma.
Enquanto isso, a Tesla segue focada na condução totalmente autônoma e iniciou um serviço limitado de robotáxi, com planos de expansão para algumas cidades dos Estados Unidos até o primeiro semestre de 2026. O movimento a coloca em concorrência direta com a Waymo, controlada pela Alphabet.
O avanço de montadoras chinesas também pressiona o setor. Em dezembro, o governo da China autorizou pela primeira vez um veículo com capacidade Nível 3, intensificando a disputa global por modelos de negócios baseados em autonomia.
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