Os implantes hormonais subcutâneos, popularmente conhecidos como “chip da beleza”, ganharam espaço com promessas de melhora estética e desempenho físico. Muitos deles contêm testosterona ou outros hormônios com ação androgênica. O que nem sempre é amplamente discutido são os possíveis impactos na voz feminina.
Segundo o otorrinolaringologista e laringologista Guilherme Catani, esses hormônios atuam diretamente na laringe. “Qualquer hormônio exógeno com ação androgênica pode provocar alterações estruturais nas pregas vocais, levando a mudanças definitivas na voz, como agravamento do timbre e instabilidade vocal”, afirma.
A seguir, veja quatro efeitos que podem surgir.
1. Voz mais grave (virilização)
A testosterona estimula o espessamento das pregas vocais e aumenta a massa muscular da laringe. Isso reduz a frequência fundamental da voz, tornando o som mais grave.
“A testosterona estimula o espessamento das pregas vocais e o aumento da massa muscular da laringe. Isso reduz a frequência fundamental da voz, tornando-a mais grave. Em muitos casos, essa mudança não regride completamente, mesmo após a suspensão do hormônio”, explica Guilherme.
O resultado pode ser um timbre mais pesado e, em alguns casos, com características consideradas masculinizadas.
2. Rouquidão persistente
Além da mudança de tom, pode surgir rouquidão constante. O uso hormonal pode causar edema nas pregas vocais e modificar o padrão de vibração, deixando a voz áspera ou instável.
“Não é apenas uma voz mais grave. Muitas pacientes relatam perda de qualidade vocal, cansaço ao falar e dificuldade para sustentar a emissão”, diz o especialista.
3. Perda de extensão vocal
Outro impacto frequente é a redução da capacidade de atingir notas mais agudas. Cantoras, professoras e profissionais que dependem da voz costumam perceber essa alteração com maior intensidade.
“A paciente pode perder o controle fino da emissão e a capacidade de atingir frequências mais altas, o que afeta diretamente quem depende da voz no trabalho”, pontua.
4. Impacto emocional e na identidade
A voz é parte central da identidade e da forma como a pessoa é reconhecida socialmente. Alterações inesperadas podem gerar desconforto psicológico.
“A voz é parte de quem somos. Uma mudança inesperada pode gerar estranhamento, sofrimento e impacto na autoestima”, ressalta o médico.
Dá para reverter?
Nem sempre completamente. Parte das alterações estruturais pode ser definitiva. Ainda assim, há possibilidades terapêuticas.
O tratamento pode envolver fonoterapia e, em casos selecionados, procedimentos cirúrgicos como vaporização da musculatura das pregas vocais com laser de CO₂ e glotoplastia, técnicas que buscam elevar a frequência da voz e ajustar parâmetros vocais.
“Hoje dispomos de técnicas cirúrgicas de readequação vocal que permitem aumentar a frequência da voz e ajustar parâmetros vocais. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, mas é importante que a paciente saiba que há possibilidades de tratamento”, explica.
Ele reforça que o mais importante é a informação antes da decisão pelo implante. “Hormônio não é recurso estético isento de risco. Quando falamos de voz, estamos falando de estrutura anatômica. E qualquer intervenção deve ser feita com consciência dos possíveis impactos”, conclui.
Resumo:
Implantes hormonais com testosterona podem causar voz mais grave, rouquidão, perda de extensão vocal e impacto emocional. Parte das alterações pode ser irreversível, mas há opções terapêuticas e cirúrgicas para readequação. Informação e acompanhamento médico são fundamentais antes do uso.
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