Estudo esclarece mistério do campo magnético intenso na Lua

Um artigo publicado recentemente na revista Nature Geoscience pode ajudar a esclarecer um antigo mistério sobre o passado da Lua. Cientistas tentam entender por que algumas rochas lunares apresentam sinais de um campo magnético muito forte, semelhante ou até maior que o da Terra atual.

Essas rochas foram trazidas ao nosso planeta pelas missões Apollo, realizadas entre 1969 e 1972. Ao analisá-las, pesquisadores descobriram que várias guardam registros de um campo magnético intenso que existia há cerca de 3,5 bilhões de anos. O fato chamou atenção porque a Lua é muito menor que a Terra.

Em resumo:

Amostras revelam novo detalhe sobre o magnetismo lunar;

Cientistas reavaliaram rochas trazidas pelas missões Apollo;

Lua teve campo magnético geralmente fraco no passado;

Impactos gigantes geraram episódios breves de magnetismo intenso;

Estudo resolve antigo debate sobre origem do magnetismo lunar.

Pesquisadores modelaram como as rochas lunares fortemente magnéticas podem ter sido criadas. Crédito: Nichols et al., Nat. Geosci.

Campo magnético da Lua é diferente do terrestre

Na Terra, o campo magnético é gerado pelo movimento do ferro líquido no núcleo do planeta, que funciona como um dínamo natural. Já a Lua possui menos energia interna e um núcleo bem menor. Por isso, durante muito tempo os cientistas consideraram difícil explicar como ela poderia ter produzido um campo magnético tão forte.

Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, propõe uma nova interpretação para esse fenômeno. Segundo o estudo, o magnetismo intenso registrado nas rochas pode ter sido causado por eventos curtos e raros de atividade magnética, e não por um campo forte que durou centenas de milhões de anos.

Ilustração mostra o campo magnético (em azul) protegendo a Terra da radiação solar; áudio divulgado pela ESA revela o som violento dessa força em ação. Imagem: ESA/ATG medialab / Divulgação

Em um comunicado, a geóloga planetária Claire Nichols explica que as amostras coletadas pelas missões Apollo podem não representar toda a história da Lua. De acordo com ela, essas rochas podem registrar eventos muito incomuns que duraram apenas alguns milhares de anos, mas que foram interpretados como se representassem um período muito mais longo.

Para investigar a questão, os cientistas analisaram novamente rochas conhecidas como basaltos dos Mares, formadas por antigas erupções de lava na superfície lunar. Eles compararam a composição química dessas rochas com o nível de magnetização presente nelas, que indica a intensidade do campo magnético existente quando se formaram.

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Equipe simulou processos no interior do satélite

A análise revelou uma ligação importante. As rochas que apresentavam magnetismo mais forte também tinham uma quantidade maior de titânio em sua composição. Essa descoberta levou os pesquisadores a investigar como processos geológicos capazes de produzir lavas ricas nesse elemento poderiam influenciar o campo magnético da Lua.

Com o uso de modelos computacionais, a equipe simulou processos no interior do satélite. Os resultados sugerem que o derretimento de material rico em titânio perto da região entre o núcleo e o manto poderia aumentar temporariamente o fluxo de calor do núcleo. Esse processo ativaria ou reforçaria por um curto período o chamado dínamo lunar.

Ao mesmo tempo, esse fenômeno também produziria fluxos de lava ricos em titânio na superfície. Como muitas amostras das missões Apollo foram coletadas em regiões onde esse tipo de lava existiu, é possível que os astronautas tenham recolhido rochas formadas justamente durante esses eventos raros.

Amostra de rocha lunar coletado durante a missão Apollo 17 ficou guardada por cinco décadas. Crédito: Dave Edey and Romy Hanna, UTCT, Jackson School of Geosciences/NASA

Segundo os pesquisadores, esses períodos de magnetismo intenso provavelmente duraram apenas alguns milhares de anos – um intervalo muito pequeno em comparação com a idade da Lua, estimada em cerca de 4,5 bilhões de anos.

Apesar disso, os cientistas ressaltam que a hipótese ainda precisa ser confirmada. As conclusões se baseiam em modelos e em um número limitado de amostras. Atualmente, a Lua possui apenas um campo magnético fraco e irregular, bem diferente do campo global que envolve a Terra.

Novas respostas podem surgir nas próximas décadas. O programa Artemis, que pretende levar astronautas novamente à Lua, deverá permitir a coleta de novas rochas em diferentes regiões do satélite, ampliando o conhecimento sobre a história do magnetismo lunar.

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