O limite da “imortalidade”: estudo revela por que não podemos clonar mamíferos para sempre

Após 20 anos de pesquisas e mais de 1.200 camundongos gerados, cientistas japoneses demonstram que a clonagem em série tem um fim biológico determinado pelo acúmulo de “lixo genético”.

Desde o nascimento da ovelha Dolly em 1997, a ciência persegue a resposta para uma pergunta fundamental: seria possível manter uma linhagem de um animal indefinidamente por meio da clonagem? Um estudo monumental publicado na revista Nature Communications nesta terça-feira (24) acaba de provar que a resposta, para mamíferos, é não.

Pesquisadores da Universidade de Yamanashi, no Japão, acompanharam gerações de camundongos clonados sucessivamente por duas décadas. A conclusão é que o processo possui um limite biológico intransponível devido ao acúmulo progressivo de mutações letais no DNA.

A queda da 58ª geração

O experimento começou em 2005 com uma única fêmea doadora. Nas primeiras gerações, os clones pareciam saudáveis e a taxa de sucesso chegou a 15,5%. No entanto, a partir da 27ª geração, os números começaram a despencar.

A “barreira final” foi atingida na 58ª geração, que marcou o colapso do experimento quando todos os filhotes morreram logo após o nascimento.

“Acreditamos que o acúmulo dessas mutações acabou ultrapassando um limite, levando à incapacidade de reprodução”, explicou Teruhiko Wakayama, autor do estudo, em entrevista ao G1.

Diferente do que se acreditava, o problema não era apenas “epigenético” (como os genes são ativados), mas erros físicos no código genético. A cada nova geração, o genoma acumulava:

70 pequenas mutações (SNVs) em média.

1,5 alterações estruturais maiores (SVs).

Após a 23ª geração, a carga tornou-se insustentável, resultando em perda de cromossomos inteiros e genes vitais completamente inativados.

A “Catraca de Muller” e o papel do sexo

Os resultados confirmam na prática a teoria da Catraca de Muller, que prevê que linhagens sem reprodução sexual acumulam mutações prejudiciais de forma irreversível.

A grande descoberta é que o sexo funciona como uma ferramenta de correção genética. Quando os pesquisadores cruzaram fêmeas clonadas de gerações tardias com machos normais, o resultado foi surpreendente: a taxa de nascimento subiu e as anomalias desapareceram nas gerações seguintes, funcionando como uma “reinicialização” do sistema.

Embora o estudo revele um limite para a clonagem em série, a técnica continua sendo uma promessa valiosa para:

Preservação: resgate de espécies ameaçadas de extinção.

Pecuária: produção em escala de animais de alta qualidade, como o gado Wagyu, tornando carnes nobres mais acessíveis.

Como explicou Wakayama ao G1, o próximo passo é garantir que essas mutações não representem problemas para o consumo humano ou para a saúde dos rebanhos a curto prazo.

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