Você quer ter um robô humanoide? Estaria disposto a pagar?

Esse é um trecho da newsletter Primeiro Olhar, disponível para assinantes do Clube Olhar Digital
Hoje eu queria sair um pouco do hardnews e entrar num tema que não analisamos há um certo tempo aqui na newsletter.

Tive essa inquietação depois de a primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, caminhar brevemente com um robô humanoide antes de participar de um evento na Casa Branca na quarta-feira. O modelo é o Figure 03, fabricado pela Figure AI. Você pode assistir aqui. Achei um bom gancho pela repercussão.

Ontem de tarde, ao pescar o noticiário internacional para a pauta do Olhar Digital, encontrei a seguinte manchete no jornal China Daily: “Robôs humanoides ganham aplicações no mundo real”.

Antes de seguir, um breve contexto sobre o setor:

Quanto vale o mercado?

Em maio de 2025, a Morgan Stanley projetou: “o mercado de humanoides deverá atingir US$ 5 trilhões até 2050, além das cadeias de suprimentos relacionadas, bem como reparo, manutenção e suporte. Poderá haver mais de 1 bilhão de humanoides em uso até 2050”.

A adoção seria acelerada a partir do final da década de 2030.

2. Onde os humanoides atuariam?

Ainda segundo a Morgan Stanley, até 2050, cerca de 90% dos robôs humanoides provavelmente serão utilizados para trabalhos repetitivos — principalmente em indústrias e comércios.

“A previsão para o uso doméstico é muito mais conservadora, com apenas 80 milhões de humanoides em residências até 2050. Não veremos um robô em cada casa da noite para o dia.” – afirmou Adam Jonas, chefe de pesquisa global de automóveis e mobilidade compartilhada do Morgan Stanley.

3. China vs EUA

Do total, a China deverá ter o maior número de robôs humanoides em uso até 2050: 302,3 milhões. O segundo lugar, dos EUA, aparece distante na conta: 77,7 milhões de unidades.

O cenário muda quando falamos de uso doméstico: “Cerca de 10% dos domicílios americanos, no geral, poderiam ter um humanoide até 2050, totalizando 15 milhões de unidades no país. Embora a China provavelmente tenha o maior número de humanoides, apenas 3% dos domicílios devem possuir um, totalizando cerca de 4 milhões de unidades” – traz o relatório.

4. Mas e os preços?

A Morgan Stanley Research estima que o custo de um robô humanoide era de mais ou menos US$ 200 mil em 2024 em países de alta renda.

Com o avanço da tecnologia e da produção, os preços provavelmente cairão para cerca de US$ 150 mil em 2028 e US$ 50 mil em 2050. 

Em países de baixa renda, os preços podem cair para até US$ 15 mil em 2050.

“Para que esses humanoides cheguem aos lares, os preços precisam cair significativamente, em paralelo com a aceitação regulatória e social desse uso” – explicou a Morgan Stanley.

Quando falamos de um ano tão distante como 2050, claro que qualquer projeção tem mais cara de exercício de futurologia do que de certezas – por mais que existam dados robustos. Ainda mais se levarmos em conta flutuações financeiras, como inflação e poder de compra. O dinheiro de hoje não vale o mesmo que o dinheiro de amanhã.

Será que vai ser algo parecido com o setor automotivo? Os carros de décadas atrás custavam muito menos em valores absolutos. Mas, levando em conta a inflação, a relação com o salário mínimo e a tecnologia embarcada, a análise ganha novos ingredientes que não podem ser ignorados.

Para aterrissar, falando de presente, uma das principais empresas do setor na China atualmente é a Unitree. O G1, um humanoide mais simples, é anunciado no site oficial por US$ 13.500. O H1, modelo mais avançado, sai por US$ 90 mil.

Esse é o simpático H1. Imagem: Divulgação/Unitree

E vale lembrar:

Em fevereiro, a China exibiu seus avanços ao colocar robôs humanoides fabricados no país no centro das atenções do Festival da Primavera da CCTV, o programa de TV mais assistido por lá, quando realizaram apresentações de dança e artes marciais. O evento faz parte das comemorações do Ano Novo Lunar.

Em agosto do ano passado, a China realizou os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, as “Olimpíadas de Robôs”. Foram centenas de máquinas de 280 equipes e empresas, vindas de 16 países, para mostrar os avanços no setor.

Nos Estados Unidos, a Tesla anunciou em janeiro que estava encerrando a produção dos Model S e Model X, dois de seus veículos mais antigos, e converteria os esforços para a fabricação do Optimus, robô humanoide em desenvolvimento pela empresa. O projeto tem como objetivo desenvolver um robô bípede e inteligente, capaz de executar tarefas que vão desde trabalhos em fábricas até funções domésticas.

E esse é o Optimus, da Tesla. (Imagem: Divulgação/Tesla)

Falei demais, né? Vamos voltar para o começo.

Robôs humanoides ganham aplicações no mundo real

A matéria do China Daily repercute a Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia de 2026, realizada nesta semana.

A robótica humanoide está passando por uma mudança de paradigma. Assim, os dispositivos estão deixando de ser apenas peças de demonstração focadas em desempenho para se aproximar de aplicações industriais práticas e escaláveis, de acordo com líderes do setor que se reuniram na quarta-feira.

Executivos e cientistas disseram que ainda há obstáculos importantes, sobretudo em dados, segurança e funções cognitivas centrais. Mesmo assim, avaliaram que o ecossistema industrial da China lhe dá vantagem na próxima etapa do setor.

Xiong Youjun, do Centro de Inovação em Robôs Humanoides de Pequim, explicou essa evolução em três frentes: corpo físico, cerebelo, responsável pelo movimento, e cérebro, ligado à cognição e à decisão. Segundo ele, o hardware começa a seguir caminhos semelhantes, enquanto os maiores avanços aparecem na integração entre controle motor e cognição, impulsionada por modelos de linguagem complexos e multimodais. Ele destacou o exemplo de um robô que completou autonomamente uma meia maratona em Pequim no ano passado.

Xiong afirmou que a área está abandonando o foco em exibições de performance para priorizar aplicações úteis à economia, com adoção inicial em ambientes estruturados, como fábricas de automóveis e eletrodomésticos, logística e triagem.

Shao Hao, da Vivo (não a Vivo brasileira, a Vivo chinesa – aqui chamada de JOVI), apontou os dados como principal entrave para um salto mais amplo da robótica. Segundo ele, diferentemente dos modelos de linguagem, que foram treinados com dados textuais, os robôs dependem de dados multidimensionais – o que torna o treinamento em larga escala muito mais difícil. Para ele, a saída não está em coleta cara e personalizada, mas no uso de grandes bases já existentes, como vídeos de pessoas. Shao também ressaltou os desafios de segurança e regulação para levar robôs ao ambiente doméstico.

Ao tratar da forma humanoide, Shao disse que ela depende dos cenários de uso. Na visão dele, máquinas especializadas (como o seu aspirador robô) seguem mais eficientes em tarefas específicas, mas o formato humanoide é mais adequado a espaços feitos para humanos e, no longo prazo, tende a superar robôs especializados em versatilidade.

Shen Dou, da Baidu, afirmou que os principais gargalos seguem sendo o corpo físico, os dados e os modelos. Ainda assim, demonstrou confiança. Ele disse ainda que os custos dos robôs devem cair fortemente no futuro e que os modelos de cobrança podem até migrar para algo semelhante ao consumo por tokens, como em serviços de IA baseados em nuvem. Embora tenha reconhecido que ambientes industriais são mais fáceis de padronizar do que casas, avaliou que os preços, com o tempo, também poderão chegar ao nível do consumidor doméstico.

Em artigo escrito para o site The Conversation, Eduardo Sandoval, pesquisador de robótica da UNSW Sydney, trouxe uma visão otimista – mas com ressalvas.

“Os últimos anos testemunharam melhorias em componentes como baterias, motores e sensores. Ao mesmo tempo, os sistemas de IA para controlar esses componentes também se tornaram muito mais capazes.

Apesar dos enormes avanços tecnológicos, esses robôs ainda são desajeitados na execução de tarefas cotidianas em residências, hospitais ou outros ambientes não controlados.

Para melhorar o desempenho, os robôs precisarão de muitos dados do mundo real. 

As preocupações com a privacidade parecem ser um risco inerente à tecnologia. Um robô incrivelmente sofisticado em sua casa inevitavelmente coletará dados íntimos sobre sua vida, abrindo uma nova fronteira para a exploração de dados e potenciais violações.

Apesar desses problemas, os robôs humanoides continuarão a inspirar cientistas, engenheiros e designers. Sem dúvida, devemos deixá-los nos inspirar, mas devemos pensar duas vezes antes de permitir que eles organizem nossas máquinas de lavar louça”.

Conversei com o Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, que trouxe insights também muito valiosos.

Para ele, a projeção da Morgan Stanley pode ser até conservadora, visto que teremos um quarto de século de avanço monetário. “De toda sorte, acho que a questão não é o montante em si, mas a taxa de crescimento composto – o tamanho estimado do mercado total. A cifra é praticamente impossível de ser estimada com precisão. O grande ponto é que essa é uma das categorias de tecnologia com maior potencial de crescimento” – explicou.

Igreja entende que algumas respostas para esse mercado dependem puramente do avanço de viabilidade tecnológica – sensores, sistemas de imagem e, especialmente, a capacidade de comando e coordenação. “A IA tem feito um avanço gigante na geração de sistemas de simulação, sistemas físicos, dados sintéticos, sistemas de aprendizado. E aí a pergunta começa a se tornar: ‘onde eles não atuariam?’. E aí, eles poderiam atuar em qualquer tipo de trabalho presencial, com esforço físico, atendimento. Na medida em que a tecnologia tem avançado, viabiliza tecnicamente. E, depois, precisa viabilizar economicamente. Mas, especialmente em tarefas 24×7 ou com algum risco, teríamos uma aplicação mais rápida – para depois ir se expandindo” – completou Igreja.

Sobre a disputa entre China e EUA, Arthur Igreja acredita que, apesar de estarmos em uma fase muito inicial, neste momento, temos uma liderança bastante importante da China. Portanto, a premissa de que os chineses vão liderar parece razoável ao especialista. Até pela questão de produção de baterias e acesso a terras raras, como ele lembra.

Sobre os preços, Igreja diz que dá para esperar uma queda considerável. A Unitree, por exemplo, já tem robô sendo vendido para o consumidor final. “Comparar com o cenário de 5 anos atrás já é inimaginável. E projetar os próximos 5, 10, 15 anos adiante, dá para ter uma noção do que vai acontecer com o preço, especialmente dos modelos de entrada” – finalizou Arthur Igreja.

E você? Imagina um robô humanoide organizando sua louça ou dobrando sua roupa? Estaria disposto a pagar por isso?

O post Você quer ter um robô humanoide? Estaria disposto a pagar? apareceu primeiro em Olhar Digital.