Artemis 1: o caótico lançamento inaugural da volta à Lua

A Artemis 1 foi a missão de estreia do programa lunar da NASA. Na prática, funcionou como um ensaio geral para o retorno de humanos ao entorno da Lua. Seu objetivo principal era testar, sem astronautas a bordo, o novo foguete SLS, a cápsula Orion e toda a infraestrutura de solo. O voo se tornou um marco em novembro de 2022.

Mas a trajetória até a decolagem foi longa e cheia de mudanças. O cronograma original previa o lançamento anos antes.

Atrasos no lançamento

O projeto acumulou atrasos sucessivos. Entre os motivos estão desafios técnicos, mudanças de requisitos, problemas de desempenho industrial e crescimento de custos.

Um relatório do inspetor-geral da NASA mostrou que, após uma reprogramação em 2017, a missão já havia escorregado de novembro de 2018 para junho de 2020. Depois, a previsão passou para o final de 2021.

Os maiores entraves estavam no desenvolvimento do estágio central do SLS e em outros elementos críticos do sistema. Mesmo assim, a missão não ficou pronta para voar. Um relatório oficial de 2021 indicou um novo atraso: em vez de novembro de 2021, a expectativa realista passou a ser o verão de 2022 no hemisfério norte.

O megafoguete Space Launch System (SLS) posicionado na plataforma de lançamento LC-39B, do Centro Espacial Kennedy, antes do anúncio do adiamento da missão Artemis 1. Imagem: NASA TV

O documento apontou dificuldades técnicas, os efeitos da pandemia de COVID-19 e eventos climáticos como causas do deslize. Esses fatores afetaram a preparação do veículo e a campanha de lançamento.

Antes mesmo de chegar à plataforma, a Artemis 1 já se tornava um exemplo de como programas espaciais de grande escala dependem de uma cadeia inteira de hardware, testes e integração. Qualquer falha em um elo repercute em todo o cronograma.

Mesmo problema da Artemis 2

Na fase final de preparação, a NASA precisou rever procedimentos e enfrentar uma sequência de contratempos operacionais. Em 2022, o foguete passou pelo chamado ensaio geral molhado – testes de abastecimento que simulam a contagem regressiva completa.

Esses ensaios eram essenciais porque a Artemis 1 seria o primeiro teste integrado real de todos os sistemas do SLS e da cápsula Orion.

A primeira tentativa de decolagem ocorreu em 29 de agosto de 2022. Foi cancelada porque as equipes não conseguiram colocar os motores RS-25 na faixa térmica necessária para o lançamento.

Durante a contagem, ainda surgiram outros problemas: tempestades na região e vazamentos de hidrogênio. A complexidade da operação já ficava evidente.

A segunda tentativa, em 3 de setembro de 2022, também fracassou. Desta vez, o problema central foi um vazamento de hidrogênio líquido durante o carregamento de propelente no estágio principal do foguete. Um problema semelhante ao enfrentado pela Artemis 2 poucas semanas antes do lançamento.

A NASA tentou corrigir a falha ainda durante a operação, reassentando uma vedação na conexão de abastecimento. Mas o vazamento persistiu, e a direção do lançamento interrompeu a contagem novamente.

Pouco depois, a campanha foi impactada pela passagem de um furacão. O conjunto precisou retornar ao edifício de montagem para proteção e nova inspeção.

Adiamento durou meses

A Artemis 1 passou de uma missão aguardada para uma missão cercada por incerteza pública. Cada adiamento reforçava a sensação de que a NASA ainda precisava provar a confiabilidade de seu novo sistema lunar.

O lançamento finalmente aconteceu na madrugada de 16 de novembro de 2022. A decolagem representou mais do que o início de uma missão: foi a primeira demonstração em voo do SLS e da Orion juntos.

Segundo a NASA, a Artemis 1 foi concebida para demonstrar o desempenho do foguete e da cápsula em uma viagem até a vizinhança lunar e de volta. O objetivo era abrir caminho para missões progressivamente mais complexas.

Centenas de pessoas estiveram presentes no Centro Espacial Kennedy, da NASA, em Cabo Canaveral, na Flórida, para assistir pessoalmente ao lançamento da missão Artemis 1. Imagem: NASA/Bill Ingalls

Finalmente nos céus

Após subir ao espaço a partir do Centro Espacial Kennedy, a Orion seguiu para a Lua impulsionada pelo estágio superior do foguete. Já em trajetória translunar, separou-se para continuar a viagem com o módulo de serviço europeu, responsável por propulsão, energia e suporte ao voo.

O estágio superior ainda liberou pequenos satélites secundários ao longo do caminho, ampliando o escopo científico da missão.

Ao longo do voo, a Artemis 1 cumpriu uma missão técnica muito mais sofisticada do que um simples “dar a volta na Lua”. A Orion entrou na esfera de influência gravitacional lunar em 20 de novembro de 2022.

No dia 21, fez sua maior aproximação da superfície da Lua, passando a cerca de 129 quilômetros. Depois, seguiu para a chamada órbita retrógrada distante – uma trajetória ampla e estável que permitiu testar o comportamento da nave em espaço profundo por vários dias.

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Durante a missão, as equipes em solo avaliaram sensores, navegação óptica, propulsores, rastreadores estelares, comunicações e outros subsistemas fundamentais para futuras viagens com astronautas.

A cápsula também bateu o recorde de distância para uma nave projetada para levar humanos ao espaço profundo, chegando a mais de 432 mil quilômetros da Terra. A missão foi planejada para durar 25 dias e meio.

Imagem: NASA

Esse longo período serviu para submeter a Orion a um perfil extenso de operação sem acoplamento a uma estação espacial – algo importante para validar sua autonomia.

A volta também era parte decisiva do teste. Após deixar a órbita retrógrada distante e realizar novo sobrevoo lunar para ganhar impulso de retorno, a Orion iniciou a viagem de volta à Terra.

O objetivo era testar um dos pontos mais críticos de qualquer missão além da órbita terrestre: a reentrada atmosférica em altíssima velocidade. A NASA tratava esse momento como essencial.

O escudo térmico da cápsula precisaria suportar condições extremas, mais severas do que as de um veículo que volta apenas da órbita baixa da Terra.

Pouso com sucesso

Em 11 de dezembro de 2022, a Orion reentrou na atmosfera e amerissou com sucesso no Oceano Pacífico, próximo à Baixa Califórnia. Equipes da Marinha e da NASA recuperaram o módulo.

Elas ainda aproveitaram o período após o pouso na água para coletar imagens, dados e indícios do comportamento da cápsula durante a reentrada.

Imagem: Chegada da sonda Orion ao porto de San Diego, na Califórnia. Créditos: NASA

No balanço final, a Artemis 1 foi considerada bem-sucedida. Ela concluiu a viagem até a Lua e de volta, validou em voo o SLS e demonstrou a capacidade da Orion de operar em espaço profundo.

A missão também entregou uma enorme quantidade de dados para as etapas seguintes do programa.

Ao mesmo tempo, mostrou que o caminho de volta à Lua não seria simples. Depois do voo, a NASA precisou estudar com atenção o comportamento do escudo térmico e outros aspectos do desempenho da cápsula.

Isso aconteceu justamente porque a Artemis 1 não era uma missão de rotina, e sim um teste de risco calculado para descobrir problemas antes de colocar astronautas a bordo.

Em outras palavras, ela foi ao mesmo tempo uma vitória e um alerta. Provou que o sistema funcionava, mas também deixou claro que a transição para missões tripuladas exigiria ajustes finos, revisões de segurança e uma engenharia muito mais amadurecida.

Isso foi cumprido com louvor na Artemis 2 que, tripulada, conseguiu ser lançada dentro do cronograma anunciado no começo do ano. Faltando apenas um dia para o pouco, ficamos agora na expectativa das Artemis 3 e 4 (o tão esperado pouso lunar), dessa vez com muito mais confiança na dupla SLS e Orion.

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