Keytruda: o remédio vital contra o câncer que custa R$ 20 mil a dose

A investigação internacional Cancer Calculus revelou como a farmacêutica Merck Sharp & Dohme (MSD) utiliza uma complexa malha de patentes e estratégias comerciais para manter o controle absoluto sobre o Keytruda

O medicamento, essencial no tratamento de 19 tipos de câncer, tornou-se um símbolo de desigualdade ao ser vendido no Brasil por mais de R$ 20 mil a dose de 100 miligramas, valor inacessível para a maior parte da população.

Para você ter ideia: só em 2025, o imunoterápico gerou uma receita de US$ 31,7 bilhões (aproximadamente R$ 158 bilhões), o que representa quase metade do faturamento total da companhia. 

Enquanto a tecnologia do pembrolizumabe prolonga milhões de vidas, o alto preço colocado pela fabricante sobrecarrega orçamentos públicos globalmente, com custos anuais por paciente que variam de US$ 80 mil (R$ 400 mil) na Alemanha a US$ 208 mil (pouco mais de R$ 1 bilhão) nos EUA.

Keytruda: ‘Fortaleza de patentes’ e influência comercial garantem lucros bilionários e barram genéricos

A MSD protege seu império financeiro por meio de 1.212 pedidos de patente (88 deles no Brasil) em 53 jurisdições. Embora as proteções principais expirem em 2028, a empresa utiliza as chamadas “patentes de continuação” para tentar estender seu monopólio até 2042

Na prática, essa tática retarda em mais de uma década a chegada de versões genéricas (biossimilares) mais baratas. Isso sufoca a concorrência e mantém os preços artificialmente elevados.

Há um abismo entre o que a empresa diz gastar e o que especialistas estimam. 

De um lado: o CEO da MSD, Robert M. Davis, cita um investimento de US$ 46 bilhões (R$ 230 bilhões) em pesquisa e produção entre 2011 e 2023;

De outro: a ONG Public Eye aponta que o custo real de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) teria sido US$ 1,9 bilhão (R$ 9,5 bilhões) – 1% da receita gerada pelo medicamento para a companhia desde 2014.

Custo de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) teria sido 1% da receita gerada pelo medicamento para a MSD desde 2014, segundo ONG – Imagem: PanuShot/Shutterstock

Além das barreiras legais, a farmacêutica investe pesado na ponta da prescrição médica. Entre 2018 e 2024, a MSD repassou US$ 52 milhões (R$ 260 milhões) a profissionais de saúde nos EUA em pagamentos ligados ao Keytruda. 

Esse tipo de incentivo financeiro tem impacto direto na prática clínica. Estudos indicam que a prescrição de remédios oncológicos tende a subir cerca de 4% nos meses seguintes ao recebimento de financiamentos da indústria pelos médicos.

Outro ponto de conflito envolve a dosagem recomendada pela fabricante. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e diversos pesquisadores defendem que o uso de doses baseadas no peso do paciente, em vez de doses fixas, geraria uma economia global de US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões) em 15 anos. 

Países como Canadá, Israel e Holanda já testam protocolos com quantidades menores do remédio. Com eficácia promissora, eles desafiam as diretrizes de lucro da MSD.

Brasil busca autonomia na produção para frear explosão de processos judiciais e altos custos

No cenário brasileiro, o impacto financeiro é tão crítico que o Keytruda se tornou o medicamento com o maior índice de judicialização do país. Atualmente, existem 6,7 mil ações judiciais movidas por pacientes para garantir o acesso ao tratamento via Justiça. 

Esse fenômeno acompanha um crescimento explosivo nas operações da MSD em solo nacional, onde o faturamento da empresa saltou 265% entre 2020 e 2024.

Para reduzir essa dependência e o impacto no Tesouro, o governo brasileiro firmou uma parceria de transferência de tecnologia com a MSD para que o Instituto Butantan produza o pembrolizumabe localmente. 

O Keytruda se tornou o medicamento com o maior índice de judicialização no Brasil – Imagem: Yulia YasPe/Shutterstock

A iniciativa visa fortalecer a soberania sanitária e permitir que o Sistema Único de Saúde (SUS) fabrique o remédio sem precisar importar doses a preços de mercado internacional, que hoje drenam recursos da saúde pública.

Atualmente, o acesso ao Keytruda no SUS é restrito, sendo indicado principalmente para casos de melanoma

Com a produção nacional e a consequente redução de custos, o Ministério da Saúde planeja ampliar a oferta para pacientes com tumores de pulmão, mama, esôfago e colo do útero

Essa expansão é urgente para evitar que brasileiros continuem dependendo de campanhas de arrecadação online para financiar o próprio tratamento.

A MSD alega que os preços refletem o “valor” da tecnologia para a sociedade (confira o posicionamento completo da empresa no final desta matéria). Mas a Cancer Calculus reforça que o poder de compra do país onde o paciente vive tem sido o fator decisivo para determinar as chances de sobrevivência.

Outro lado

Em nota enviada ao Olhar Digital, a farmacêutica MSD disse o seguinte:

Precificação

“A precificação dos medicamentos no Brasil é regulada pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e consta em lista pública oficial.

Temos uma longa e responsável trajetória de precificação de nossos medicamentos, refletindo seu valor para pacientes, pagadores e para a sociedade como um todo. Nossos medicamentos e vacinas têm preços diferenciados entre mercados e, em alguns casos, dentro do mesmo mercado, com base em diversos fatores. Esses fatores incluem o valor que a terapia oferece aos pacientes e ao sistema de saúde, os sistemas nacionais de preços e reembolsos, e a capacidade dos governos de financiar a assistência à saúde.  

Acreditamos que o preço do Pembrolizumabe reflete seu valor para pacientes e sistemas de saúde, especialmente considerando nosso programa de desenvolvimento clínico sem precedentes e o investimento que fizemos na avaliação do medicamento em uma ampla variedade de tipos de câncer.”

Ampliando o acesso aos pacientes

“A MSD Brasil tem uma longa história de trabalho próximo ao Governo para aumentar o acesso de seus medicamentos aos pacientes no Brasil, por meio de Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs) que existem há muitos anos. Em reconhecimento e apoio ao direito constitucional à saúde da população brasileira, a MSD Brasil continua mantendo uma relação aberta e sustentada com o Governo e mantém diálogo contínuo com o Ministério da Saúde para avaliar alternativas que ampliem o acesso da população aos seus medicamentos.

Um exemplo é a recente assinatura do Termo de Compromisso para uma nova PDP para transferência de tecnologia entre a MSD, o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan, que possibilita a produção local de Pembrolizumabe para cinco indicações (cervical, esôfago, melanoma, mama triplo negativo e pulmão). Essa PDP ampliará o acesso para pacientes com câncer que atualmente têm opções terapêuticas limitadas.

Ao chegar ao mercado público, terá a expectativa de atender mais de 13 mil pessoas por ano nas cinco indicações, o que terá um impacto significativo no cenário oncológico brasileiro. O projeto reforça o compromisso da MSD com o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, a internalização de capacidades produtivas estratégicas e a colaboração com instituições públicas de excelência.”

Imunoterapia

“Na última década, a imunoterapia tem sido amplamente reconhecida por mudar o cenário do tratamento para certos cânceres potencialmente fatais. Contribui significativamente para a evolução do tratamento de alguns dos cânceres mais desafiadores, trazendo novas possibilidades terapêuticas e ganhos importantes na sobrevivência de grupos específicos de pacientes.

Em câncer de pulmão avançado de células não pequenas, por exemplo, historicamente associado a baixas taxas de sobrevivência em cinco anos (aproximadamente 5%), estudos clínicos mostraram que pacientes selecionados podem apresentar melhora clínica significativa quando tratados com imunoterapia. Com o pembrolizumabe, foi alcançado um aumento de quatro vezes na sobrevivência nessa população de pacientes.  

Pembrolizumabe é uma imunoterapia que atua ativando as células T no corpo para ajudar o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células cancerígenas. Ao contrário da quimioterapia citotóxica convencional, que atinge diretamente as células cancerígenas, a imunoterapia não ataca diretamente as células tumorais. Ela pode ser usada em uma ampla gama de tumores sólidos, em vez de se limitar a um único tipo de câncer. Em pacientes que respondem ao tratamento, os benefícios clínicos podem ser sustentados a longo prazo.

Pembrolizumabe é capaz de fazer com que o próprio corpo reconheça células tumorais por meio do sistema imunológico e as combata, aumentando assim a eficácia, a qualidade de vida e reduzindo eventos adversos, em comparação com outras alternativas de tratamento.  Esse mecanismo de ação posicionou o produto como um dos medicamentos oncológicos mais amplamente utilizados globalmente.

No Brasil, como na maioria dos países, pembrolizumabe tornou-se um medicamento relevante para o sistema de saúde. Devido ao seu mecanismo de ação, é aprovado no país em 40 indicações e responde a sua característica de ser um produto multi-indicação.”

(Essa matéria usou informações de DW.)

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