A possibilidade de formação de um El Niño em 2026 já mobiliza centros meteorológicos internacionais e chama atenção para os impactos que o fenômeno pode provocar sobre o clima, a produção de alimentos, os recursos hídricos e a saúde pública. Embora a intensidade final do evento ainda dependa da evolução das condições no Pacífico nos próximos meses, órgãos oficiais já apontam aumento importante na probabilidade de desenvolvimento do fenômeno ao longo do segundo semestre.
De acordo com o novo boletim do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF), as chances de uma versão intensificada do fenômeno climático aumentaram, dobrando as apostas feitas no mês anterior.
No Brasil, o tema preocupa porque os efeitos do El Niño costumam atingir diferentes regiões de forma desigual, alterando o regime de chuvas e ampliando o risco de extremos climáticos. Em entrevista ao Olhar Digital, Oswaldo dos Santos Lucon, com mais de 30 anos de experiência em políticas climáticas, afirmou que um evento dessa natureza pode ter consequências relevantes não apenas para o país, mas para diferentes partes do mundo.
O que o “super” El Niño pode causa no Brasil?
Segundo os padrões historicamente associados ao El Niño, o Brasil tende a enfrentar um rearranjo importante no comportamento das chuvas. Em geral, o fenômeno favorece precipitações acima da média no Sul e aumenta o risco de estiagem em outras áreas do país, especialmente quando combinado com temperaturas mais elevadas.
Para Lucon, esse é um dos primeiros sinais de preocupação no cenário brasileiro. Como resumiu ao Olhar Digital, “deve aumentar as chuvas no Sul e, aqui no Sudeste, nós devemos ter muito calor e possivelmente secas”. A avaliação está em linha com o que órgãos oficiais vêm apontando sobre os possíveis reflexos do fenômeno no território nacional.
Esses efeitos, porém, não se limitam ao desconforto térmico ou à irregularidade das chuvas. Em um contexto de vegetação mais ressecada, temperaturas elevadas e menor disponibilidade hídrica, cresce também o risco de incêndios e de degradação ambiental. Ao tratar desse impacto, Lucon lembrou que “São Paulo perdeu um sexto do seu território para incêndios florestais”, usando o caso paulista como exemplo da dimensão que eventos extremos podem alcançar quando o clima se desorganiza.
O campo também entra na linha de frente da preocupação. Alterações no ciclo de chuvas e no padrão de temperatura podem afetar desde o plantio até a colheita, comprometendo produtividade e abastecimento. Para o especialista, esse é um ponto especialmente sensível em um país cuja economia mantém forte dependência da agropecuária. Por isso, ele alertou que “nós temos possibilidade de quebra de safra” e ressaltou que “a nossa economia é tão dependente do agropecuário e de toda a cadeia econômica ligada a essa produção”.
Na avaliação de Lucon, os impactos também se espalham para além da economia e alcançam diretamente a população, sobretudo os grupos mais expostos. Ele observa que “esses efeitos são muito fortes, além de efeitos sobre a saúde, principalmente de populações mais vulneráveis”. Em situações de calor extremo, seca, fumaça e piora da qualidade do ar, idosos, crianças e moradores de áreas periféricas tendem a sentir os efeitos de forma mais intensa.
Relação com aquecimento global
A possível formação de um El Niño forte em 2026 também reacende o debate sobre a relação entre a variabilidade natural do clima e o aquecimento global. Embora cientificamente essa conexão exija cautela, o pano de fundo de um planeta mais quente amplia a preocupação sobre a capacidade de o fenômeno produzir efeitos mais severos.
Lucon adota esse tom de prudência ao abordar o tema. Segundo ele, “ele pode ter uma relação com o aquecimento global. Muito provavelmente tenha, mas não é uma questão de afirmar categoricamente se tem ou se não tem”. Ainda assim, destaca que há um ponto inequívoco no cenário atual: “o fato é que o fenômeno vem mais forte, assim como o aquecimento global se intensifica”.
A observação reforça uma leitura cada vez mais presente no debate climático: mesmo quando não se pode atribuir de forma automática a origem de um evento ao aquecimento global, os impactos dele tendem a ocorrer sobre um sistema já aquecido, com oceanos mais quentes, atmosfera mais carregada de energia e maior propensão a extremos.
Como se preparar?
Diante desse quadro, a preparação passa a ser tratada como elemento central da resposta. Para Lucon, o primeiro erro seria subestimar o fenômeno ou esperar a confirmação de todos os cenários para agir. Em vez disso, ele defende que o poder público reconheça desde já a gravidade do risco e comece a estruturar respostas práticas.
Ao falar sobre o que deveria ser feito, o especialista foi direto: “a primeira coisa é reconhecer o fenômeno. Segundo, é estabelecer protocolos emergenciais, porque eles virão”. Na avaliação dele, a preparação precisa incluir medidas concretas, como “brigadas de incêndio, planos de contingência, segurança hídrica”.
Essa resposta imediata, no entanto, não basta. Para o especialista, eventos como esse revelam um problema mais profundo: a falta de investimento contínuo em adaptação climática. Por isso, ele defende que o enfrentamento da crise precisa ser pensado também no médio e no longo prazo. Como afirmou ao Olhar Digital, “no médio e longo prazo, é financiar a adaptação climática”, porque “não há como se adaptar se não se falar, antes de tudo, em financiamento”.
É o tipo de coisa para a qual a gente já podia ter se preparado há muito tempo “é uma conta que a geração atual está deixando para a futura e que a geração passada deixou para a atual. É a conta do restaurante: alguém vai ter que lavar os pratos
Oswaldo dos Santos Lucon
Com a possibilidade de um El Niño ganhando força nas projeções para 2026, o alerta, portanto, não se resume ao comportamento do Pacífico. Ele diz respeito à capacidade de governos, setores produtivos e da sociedade de responder a um evento climático que pode pressionar agricultura, água, meio ambiente e saúde pública em escala ampla.
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