O coordenador de departamento pessoal Ailton Alves de Sousa, de 41 anos, foi levado à delegacia quatro vezes em um intervalo de sete meses após ser confundido com um foragido da Justiça. As abordagens ocorreram em São Paulo e foram motivadas por um alerta do Smart Sampa, sistema de monitoramento da Prefeitura que usa reconhecimento facial para identificar suspeitos e pessoas procuradas.
Nas quatro ocasiões, Ailton foi conduzido para a delegacia e liberado após averiguação. Mesmo assim, o caso evidenciou limitações no sistema e na abordagem das autoridades.
O Olhar Digital mergulhou no funcionamento do Smart Sampa e na efetividade do programa. Nossa reportagem também elencou os desafios e riscos da tecnologia, explicando quem deve se responsabilizar em casos como o de Ailton.
O que aconteceu
O caso foi divulgado inicialmente pelo g1. Segundo as autoridades, Ailton aparecia como procurado por um homicídio cometido em Mato Grosso.
A primeira abordagem aconteceu em setembro de 2025, quando ele estava em casa. A segunda em outubro, quando estava na rua. A terceira em março, quando fazia um trabalho freelancer no Parque Ibirapuera. A quarta foi em 23 de março, quando acompanhava a mãe em uma Unidade de Pronto Atendimento.
Morador de Heliópolis, na Zona Sul da capital, Ailton afirmou ao g1 nunca ter estado na região Centro-Oeste. Ele relatou constrangimento e medo diante da repetição das abordagens.
A confusão teria sido causada pela presença da foto dele em bases de dados ligadas ao sistema judicial, consultadas pelo Smart Sampa. O verdadeiro suspeito possui nome semelhante, mas há diferenças relevantes que não teriam sido consideradas, como grafia do sobrenome, dados familiares e idade. Por exemplo, há uma diferença de mais de 10 anos entre os dois.
A defesa dele afirmou ter solicitado a remoção dos dados incorretos junto aos órgãos responsáveis. Em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública de São Paulo informou que o nome e dados pessoais de Ailton, incluindo fotografia, foram removidos da base estadual e do Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP).
Já a Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) defende que “não houve qualquer falha no funcionamento do programa Smart Sampa no caso” e que Ailton foi levado à delegacia para averiguação.
A Secretaria esclarece que o programa municipal utiliza bases de dados oficiais da Justiça e de órgãos de segurança pública para o reconhecimento facial e confirmação de mandados de prisão expedidos e, portanto, não é responsável por eventuais inconsistências cadastrais.
Secretaria Municipal de Segurança Urbana
Mesmo assim, o caso levantou questionamentos sobre a responsabilidade no uso de sistemas que usam inteligência artificial e reconhecimento facial.
Como funciona o Smart Sampa
O Smart Sampa é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo voltada para a segurança. Segundo o órgão, trata-se do “maior sistema de monitoramento de segurança da América Latina, que usa o reconhecimento facial de câmeras inteligentes para identificar casos de violência urbana e foragidos da polícia, além de ajudar a encontrar pessoas desaparecidas”.
O edital foi assinado em agosto de 2023 e as atividades começaram em fevereiro de 2024. Em julho, a Prefeitura inaugurou a central de monitoramento, localizada no Centro Histórico de São Paulo.
De acordo com o segundo relatório de transparência do programa, que analisou dados de maio a novembro de 2025, até novembro do ano passado eram 40 mil câmeras espalhadas pela capital – 20 mil delas instaladas pelo próprio Smart Sampa e outras 20 mil pela rede privada, também conectadas ao sistema.
O número de equipamentos aumentou desde então. Na última atualização do site da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), em 6 de abril, constam 50 mil câmeras (20 mil do Smart Sampa e 30 mil da rede privada).
Desse número, cerca de 12 mil estão na região central, 14 mil na Zona Oeste, 9 mil na Zona Leste, 10 mil na Zona Sul e 5 mil na Zona Norte.
Em nota ao Olhar Digital, a SMSU explicou que a distribuição das câmeras segue critérios técnicos com base em dados georreferenciados, considerando índices de criminalidade, fluxo de pessoas e localização de equipamentos públicos, com prioridade para áreas de maior incidência.
Atualmente, todas as 32 subprefeituras do município contam com câmeras do Programa Smart Sampa integradas à central de monitoramento, assegurando cobertura territorial completa e capilaridade tecnológica em todas as regiões da cidade de São Paulo.
Prefeitura de São Paulo
A SMSU não nos informou quais são os tipos de câmera utilizados no monitoramento.
Treinamento
O Smart Sampa é alimentado exclusivamente com bases oficiais da Justiça e de órgãos da segurança pública. Os dados permitem buscar procurados e foragidos, além de ler placas e identificar veículos roubados ou furtados em circulação pela cidade.
A gestão também tem parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) para ajudar na busca por pessoas desaparecidas, além de integração com serviços como SPTrans, Defesa Civil, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.
Na prática, funciona assim:
Quando uma câmera detecta uma pessoa procurada pela Justiça ou desaparecida, usa uma combinação de reconhecimento facial e inteligência artificial para cruzar as informações com os dados no banco;
Se a imagem e os dados da pessoa forem no mínimo 90% compatíveis com as informações catalogadas no sistema, o Smart Sampa dispara um alerta;
Com o alerta, o caso vai para a análise de um comitê formado por agentes treinados a partir de protocolos internacionais. Eles são responsáveis por apurar as informações antes de seguir em frente com o alerta;
Se o caso for confirmado, o agente repassa o alerta para as autoridades responsáveis, como Polícia Civil e Militar, ou Guarda Civil Metropolitana;
Cabe, então, às autoridades competentes seguirem com o caso. Entre as possibilidades estão a prisão em flagrante ou a condução para uma delegacia para averiguação.
Por exemplo, no caso de um mandado de prisão em aberto, ao identificar a pessoa foragida na rua, o sistema dispara o alerta. Após averiguação, encaminha a situação para a polícia.
O site do Smart Sampa também mantém um “prisômetro”, que contabiliza o número de foragidos capturados, desaparecidos localizados, total de presos em flagrante e ocorrências com veículos, além de presos no ano e no mês atual.
A Prefeitura de São Paulo considera o Smart Sampa um diferencial em relação a outros programas.
Diferentemente de outras iniciativas ao redor do mundo, que são criticadas por possuírem apenas um processo de disparo automático de notificações sem procedimento de análise prévia, o Smart Sampa terá um avançado protocolo de validação dos alertas e verificação de eficácia do analítico, que vai considerar somente detecções com no mínimo 90% de paridade. As que estiverem abaixo desse parâmetro serão automaticamente descartadas, não gerando nenhum alerta. Nesse sentido, além de mitigar injustiças, o novo modelo evitará ações equivocadas em abordagens de suspeitos, além de reduzir o número de abordagens, uma vez que os agentes de segurança terão um arcabouço de dados e informações para realizar uma apuração mais rigorosa antes de encaminhar qualquer ocorrência.
Prefeitura de São Paulo
Em entrevista à Veja em 2025, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, também destacou esse diferencial. Segundo ele, a régua de 90% de paridade torna o sistema mais seguro e evita abordagens injustas. “É um sistema muito seguro. Inclusive com relação à questão do direito das pessoas de não fazer com que esse sistema possa gerar algum desconforto para alguém”, afirmou na época.
Smart Sampa não cumpriu o que prometeu, segundo estudo
Na prática, não é bem assim. Pelo menos, é o que indica o estudo “Smart Sampa vigia, mas não protege“, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), organização integrante da Coalizão Direitos na Rede – uma articulação de mais de 40 organizações da sociedade civil que atua na defesa dos direitos digitais.
A pesquisa foi publicada em agosto de 2025 e analisou índices criminais na cidade de São Paulo antes e depois da instalação do Smart Sampa, além da comparação com outras cidades do estado.
O estudo concluiu que não houve queda significativa nas taxas de furtos, roubos ou homicídios após a instalação do sistema. Também não houve aumento na produtividade policial (medida norteada pelo número de prisões em flagrante ou cumprimento de mandados judiciais).
Apesar de [Ricardo Nunes] comemorar o número de mais de mil foragidos presos com o auxílio do sistema, a análise demonstrou que esses números não representam uma mudança significativa no padrão que já vinha sendo observado na cidade de São Paulo, nem tampouco há diferenças quando comparamos os dados da cidade de São Paulo com outras cidades do estado. Em suma, não há evidências de que as câmeras adicionais e o reconhecimento facial tenham contribuído para uma melhoria nos indicadores de prisão em flagrante ou cumprimento de mandado em nenhum mês posterior à adoção do programa.
Trecho do estudo “Smart Sampa vigia, mas não protege”
Pablo Nunes, diretor do CESeC e coordenador do estudo, afirmou que o Smart Sampa veio com uma “promessa de redução da criminalidade”, mas as evidências não comprovam melhorias concretas para a cidade. Ele explicou que os números presentes no relatório de transparência da Prefeitura são absolutos – ou seja, não significa que houve necessariamente um aumento. Trata-se da continuidade do trabalho policial.
Além disso, para Pablo Nunes, o Smart Sampa está sendo vendido para a população como uma política pública de segurança, mas não está sendo entregue como deveria. A pesquisa coordenada por ele argumenta que o sistema “tem sido mais eficaz como instrumento de propaganda política do que como política pública baseada em evidências”.
O coordenador destacou o custo milionário do sistema para a Prefeitura, mesmo sem a efetividade esperada, e defendeu a elaboração de outras formas de manter a cidade segura:
É fundamental que a gente pense em outras políticas públicas que estão subfinanciadas e que poderiam encontrar nos recursos milionários do Smart Sampa uma fonte segura de produzir um efeito real para a população em termos de segurança pública.
Pablo Nunes
O CESeC ainda defendeu a “necessidade urgente de suspensão da expansão de sistemas de reconhecimento facial na segurança pública brasileira”.
Outras informações sobre o contrato da Prefeitura:
Quem venceu o edital foi a Consórcio Smart City SP, liderado pela CLD Construtora, Laços Detetores e Eletrônica Ltda (50% de participação), junto da Flama Serviços Ltda. (34%), Camerite Sistemas S.A. (15%) e PK9 Tecnologia e Serviços (1%). O contrato prevê pagamento de R$ 9,8 milhões por mês durante 60 meses;
Em nota ao Olhar Digital, a SMSU fala em um investimento mensal de “até R$ 10 milhões”;
O contrato vai de agosto de 2023 a agosto de 2028.
Contatada pelo Olhar Digital, a Prefeitura de São Paulo lamentou o que chamou de “comparações inadequadas e falhas de metodologia” no estudo. A nota também diz que a aprovação do programa por parte da população é de 91%.
A Prefeitura ainda destacou que a comparação da capital com outras cidades do interior ignora que tratam-se de realidades sociais, econômicas e distintas; e voltou a negar erros do sistema no caso de Ailton.
Do outro lado, o CESeC reiterou que “analisar o efeito de uma política pública de segurança não pode se resumir à tarefa de listar números absolutos de prisões e ocorrências, uma vez que tais números não mensuram de maneira confiável o fenômeno”. A entidade defende a metodologia utilizada, que leva em conta o contexto e o comportamento dos indicadores.
As notas de Prefeitura de São Paulo e do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) estão disponíveis na íntegra no final da reportagem.
Contraponto
Apesar das conclusões, o estudo “Smart Sampa vigia, mas não protege” menciona que o programa gera efeitos como aumento da sensação de segurança para o cidadão e apoio a investigações. Os dois fatores não foram o foco da pesquisa.
Já para Rafael Alcadipani da Silveira, Professor Titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV) e associado pleno ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a vantagem do sistema está na capacidade de processar e analisar grandes quantidades de imagens de forma instantânea.
Ele reconhece os riscos, como os casos em que pessoas homônimas ou parecidas com aquelas cadastradas na base de dados são abordadas erroneamente, e defende padrões rigorosos de uso.
É preciso que você tenha uma análise bem detalhada, rigorosa e melhoria contínua do sistema. Por um lado, esses casos são muito ruins. Por outro, é importante que a gente tenha esse mecanismo dada à problemática da criminalidade em uma cidade como São Paulo – como outras cidades do mundo já tem isso, como Londres e Paris. Eu acredito que é um sistema que vale a pena, mas tem que ter todas as salvaguardas para preservar os direitos individuais
Rafael Alcadipani da Silveira
Questionamentos ao Smart Sampa surgiram antes mesmo da assinatura do contrato
Em 2022, a Prefeitura chegou a suspender o edital de licitação do programa após críticas de que o sistema tinha potencial para discriminar pessoas pela cor de pele. Na época, o prefeito Ricardo Nunes declarou que a suspensão foi para corrigir “eventuais pontos” no programa.
Já no início de 2023, o Ministério Público de São Paulo divulgou a abertura de um inquérito para investigar possíveis violações de direitos humanos do Smart Sampa. O inquérito exigia que a Prefeitura informasse, por exemplo, questões sobre o banco de dados que seria utilizado no reconhecimento facial dos cidadãos.
Na época, especialistas já criticavam o potencial discriminatório do sistema. Um dos projetos contra o programa foi aberto pela deputada federal Erika Hilton (PSOL), citando riscos de discriminação no reconhecimento facial.
O primeiro edital do Smart Sampa ainda citava que o monitoramento por parte das câmeras deveria apontar situações de “vadiagem” e permitia o rastreio de “uma pessoa suspeita, monitorando todos os movimentos e atividades”. A vadiagem está prevista na Lei de Contravenções Penais, e enquadra indivíduos que não têm trabalho formal e se “entregam habitualmente à ociosidade”. A pena é de até três meses de prisão.
O assunto já entrou no debate político, com parlamentares considerando que o delito de “vadiagem” é um sinal de racismo. Para o senador Fabiano Contarato (PT-ES), o verdadeiro intuito da punição é “estimular o racismo e o ódio aos pobres”.
Contarato é autor de um projeto de lei que extingue o delito de vadiagem (PL 1.212/2021) e está em tramitação (mas travado desde 2023).
A Coalização dos Direitos na Rede também argumenta que o delito é um “expediente jurídico utilizado historicamente para perseguir pessoas negras no pós-abolição”.
A lei foi assinada pelo presidente Getúlio Vargas em 1941, na ditadura do Estado Novo.
Mesmo assim, o projeto do Smart Sampa seguiu em frente e foi assinado em agosto de 2023. Uma semana depois, uma reportagem do The Intercept revelou que a CLD Construtora, que venceu o edital, já esteve envolvida em denúncias de corrupção.
Outro ponto que chama atenção são as próprias limitações da inteligência artificial e do reconhecimento facial, que reacenderam o debate sobre racismo algorítmico.
O termo foi popularizado pelo pesquisador e doutor Tarcízio Silva, em seu livro “Racismo Algorítmico: Inteligência Artificial e Discriminação nas Redes Digitais”, de 2022. Ele descreve como a tecnologia (incluindo a IA e reconhecimento facial) podem reproduzir preconceitos, incluindo discriminação racial.
O mestre e doutorando em Mídia e Tecnologia Alan Tomaz de Andrade explicou que o problema está nos próprios dados que treinam as ferramentas, que são enviesados e discriminatórios por si só.
Podemos comparar esse processo de aprendizagem da máquina com o próprio processo de aprendizagem humano: se você é submetido a um processo educativo que reforça em todas as disciplinas de humanidades que pessoas negras são criminosas, preguiçosas e que apresentam um risco para sociedade, logo, todos os seus comportamentos e ações quando em contato com uma pessoa negra, serão extremamente racistas.
Alan Tomaz de Andrade
Ele ainda reforçou que as máquinas não são as principais responsáveis pelos vieses racistas: a responsabilidade também recai sobre os agentes de segurança pública, que precisam estar preparados para fazer a gestão e operação das tecnologias.
Como resposta, Andrade defende a transparência na composição dos dados que alimentam os sistemas e em como eles realmente são utilizados para abastecer o banco de reconhecimento facial. O doutorando também destaca a importância de qualificar esse banco, para que associações de pessoas negras – como aconteceu no caso de Ailton – parem de acontecer.
Se já entendemos que o problema está nas bases de dados e no próprio comportamento dos agentes da segurança pública por conta de um histórico centenário de racismo em nosso país, chegamos à conclusão de que essas violações são ações humanas e que precisam ser combatidas antes mesmo de pensar no “sucesso” dessas tecnologias pelo seu teor quantitativo de prisões.
Alan Tomaz de Andrade
Vale lembrar de outros casos relevantes de erros de identificação cometidos pelo Smart Sampa – não só com pessoas negras: um policial militar fardado identificado erroneamente pelas câmeras, um jardineiro voluntário de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e uma mulher grávida, que teve um parto prematuro causado pelo rompimento da bolsa durante a abordagem agressiva de policiais.
Mas, para o prefeito de São Paulo, a população não deveria ter motivo para se preocupar. “Quem tem que estar preocupado é quem fez alguma coisa contra a lei, mas quem não tem nada contra a lei, fique despreocupado”, afirmou Ricardo Nunes em declaração no ano passado.
O que pode e o que não pode
Segundo o conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil e professor do Supremo Artur Vartuli, uma abordagem pontual para averiguação – como sustentado pela SMSU – é admitida em situações excepcionais. No entanto, o advogado vê a situação como algo “claramente desproporcional”.
Quatro conduções indevidas evidenciam falha grave do Estado. Há violação direta da liberdade de locomoção, da dignidade da pessoa humana, da honra e da presunção de inocência. Trata-se, na prática, de restrições ilegais à liberdade, ainda que por curto período, o que não é tolerado pelo ordenamento jurídico.
Artur Vartuli
Ele classifica a situação como “um caso clássico de responsabilidade civil do Estado” e que cabe indenização por dano moral à vítima.
Já em relação a quem responde por casos como esse, Vartuli defende que a responsabilidade é do Estado como um todo. Município, Estado e até União devem decidir internamente quem responderá pela ação. “Para o cidadão, não importa quem errou internamente. (…) O risco da atividade é do poder público, e ele não pode transferir esse ônus ao cidadão”, afirmou.
O advogado ainda defende que o reconhecimento facial pode ser usado pelo poder público, mas não de forma irrestrita.
O uso precisa respeitar direitos fundamentais, ter base legal, transparência e, principalmente, controle humano efetivo. O reconhecimento facial não pode ser tratado como prova absoluta nem justificar restrições automáticas à liberdade. Sem validação adequada, ele se torna um instrumento perigoso e inconstitucional.
Artur Vartuli
Nesse sentido, Alan Tomaz de Andrade propôs um questionamento. A tecnologia deveria ser nossa aliada, capaz de agilizar tarefas, qualificar ações práticas e contribuir na transparência dos portais de acesso de dados. Mas será que realmente estão sendo usadas para essa finalidade? Para ele, não.
No final do dia, uma tecnologia que em tese deveria nos proteger, acaba se tornando um verdadeiro pesadelo, já que nunca sabemos em que momento vamos passar perto dessas câmeras e acabar sendo presos por crimes que nem cometemos.
Alan Tomaz de Andrade
Nota da Prefeitura de São Paulo
A Prefeitura de São Paulo lamenta que o estudo “Smart Sampa vigia, mas não protege” adote comparações inadequadas e falhas de metodologia. Portanto, é incorreto afirmar que o Smart Sampa tem “efeito zero”. Trata-se do maior sistema de monitoramento da América Latina, com mais de 50 mil câmeras, e seus resultados provam sua eficácia. Ao contrário do que o estudo citado sugere, temos os seguintes resultados obtidos com auxílio do Smart Sampa: 4.290 criminosos presos em flagrante graças ao uso do sistema, 2.982 foragidos da Justiça capturados e 199 pessoas desaparecidas foram localizadas e devolvidas às suas famílias. Aprovado por 91% da população, o programa também tem contribuído para investigações da Polícia Civil, com o compartilhamento de imagens de 760 ocorrências entre novembro de 2024 e fevereiro de 2026.
O estudo erra ao comparar a capital com cidades do interior, ignorando as realidades sociais, econômicas e criminais distintas. Ele também falha ao desconsiderar em sua análise os indicadores oficiais de segurança, que mostram que São Paulo registrou, nos dois primeiros meses de 2026, o menor número de roubos em geral dos últimos 25 anos.
O algoritmo do Smart Sampa possui 92% de similaridade para alertas positivos, alcançando uma assertividade de 99,5%; não utiliza cor da pele como critério, operando com pontos biométricos faciais; e todos os alertas passam por validação humana. O resultado é que nenhuma pessoa foi presa incorretamente ou injustamente a partir de abordagens iniciadas pelo sistema. No caso mencionado pela reportagem, não houve falha no funcionamento do Smart Sampa. O sistema utiliza bases oficiais da Justiça e de órgãos de segurança pública para reconhecimento facial e verificação de mandados de prisão, não sendo responsável por eventuais inconsistências cadastrais.
O caso foi comunicado à Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo para conhecimento e adoção das providências cabíveis. A SMSU reitera que a atuação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) ocorreu de forma regular, a partir de alerta do sistema, com posterior confirmação de mandado de prisão ativo no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP).
*O balanço com os números apresentados pela prefeitura foram atualizados posteriormente com o “prisômetro”.
Nota do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)
Analisar o efeito de uma política pública de segurança não pode se resumir a tarefa de listar números absolutos de prisões e ocorrências, uma vez que tais números não mensuram de maneira confiável o fenômeno. É por isso que optamos por usar metodologia que leva em conta o contexto, o comportamento dos indicadores antes do início do programa e as diferenças populacionais dos locais comparados.
O estudo realizado pela pesquisa “Smart Sampa vigia, mas não protege”, realizada pelo projeto O Panóptico, do Centro de Segurança e Cidadania (CESeC), faz uma análise dos registros de roubos, furtos e homicídios antes e depois do início do programa Smart Sampa, adotando metodologia robusta e amplamente validada.
Especificamente, a metodologia utilizada na pesquisa foi a Diferença em Diferenças (ou Difference-in-Differences, em inglês) baseada no manual metodológico de evidências em segurança e justiça do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), uma técnica estatística bastante usada para avaliar o impacto de políticas públicas e programas sociais. A validade do resultado é contingente ao que chamamos de tendência paralela, ou seja, não há diferença dos resultados significantes entre roubos, furtos e homicídios nos períodos anteriores na análise. Os testes realizados demonstraram que não havia diferença estatística significativa entre os distritos analisados, mesmo os pertencentes a outros municípios do estado, sendo a comparação realizada no estudo estatisticamente válida.
Vale reforçar que não são considerados os municípios em si, mas os distritos policiais do Estado de São Paulo, e as análises são feitas comparando-se as taxas, levando em conta o peso populacional e controlando pelo nível de criminalidade antes do programa Smart Sampa. Ou seja, não se trata de mera comparação entre cidades de diferentes portes, mas sim de controlar essas diferenças e validá-las estatisticamente. Todas as análises estão presentes no estudo, bem como os testes de robustez que certificam que o estudo apresenta resultados válidos e robustos.
Por fim, cabe ressaltar que todos dos dados utilizados, bem como a metodologia adotada está amplamente descrita no estudo e que os questionamentos levantados sugerem que o material não foi devidamente analisado. Reforçamos que políticas públicas devem ser avaliadas com metodologias sérias e não em números absolutos que pouco dizem sobre o efeito das ações da prefeitura frente aos problemas de segurança pública enfrentados na cidade de São Paulo. Esperamos que nosso estudo sirva para avançar em um debate sério sobre segurança pública, que caminhe no sentido de garantir maior segurança para a população e não maior vigilância e políticas midiáticas.
O post Smart Sampa: tecnologia de reconhecimento facial ainda falha e gera debate apareceu primeiro em Olhar Digital.






