Após quase uma década trabalhando para desenvolver e aprimorar um sistema de lançamento de foguetes que possa ser totalmente reutilizado, a SpaceX já investiu mais de US$15 bilhões no projeto Starship, o complexo veicular mais avançado da empresa.
A informação consta em documentos do processo de oferta pública inicial (IPO) da companhia, analisados pela agência Reuters.
Em resumo:
SpaceX investiu mais de US$15 bilhões no projeto Starship;
Valor supera muito os custos do Falcon 9;
Sistema visa missões lunares, Marte e expansão da rede Starlink;
Testes indicam avanços, mas desafios técnicos e logísticos persistem;
Sucesso da versão V3 será crucial para o futuro financeiro da empresa.
A SpaceX realizou um teste estático de ignição de longa duração com o estágio superior do veículo Starship V3, que realizará o teste do Voo 12 – Crédito: SpaceX
O valor supera com folga os cerca de US$400 milhões gastos no desenvolvimento do Falcon 9, atualmente o foguete mais utilizado do mundo. A diferença evidencia o tamanho da aposta da empresa e o salto tecnológico envolvido na criação da Starship.
O sistema é composto por dois estágios e foi projetado para missões mais ambiciosas, como o lançamento de grandes lotes de satélites Starlink, o envio de astronautas à Lua e, no futuro, missões tripuladas a Marte. Há também planos de usar a nave para colocar em órbita satélites voltados à computação de inteligência artificial.
Starship define futuro econômico da SpaceX
Segundo os documentos, o desempenho da Starship será decisivo para o futuro financeiro da SpaceX. A expectativa é que o foguete permita lançamentos maiores, mais frequentes e com menor custo por carga, ampliando a capacidade da rede Starlink, hoje uma das principais fontes de receita da empresa.
A SpaceX pretende iniciar, no segundo semestre de 2026, o lançamento da nova geração de satélites Starlink, chamada V3, equipamentos projetados para serem transportados pela Starship, que pode levar até 60 unidades por voo.
Esse número representa um salto significativo em relação aos lançamentos atuais com o Falcon 9, que normalmente leva cerca de duas dezenas de satélites por missão. A mudança pode tornar cada lançamento mais eficiente e reforça a ligação direta entre o sucesso da Starship e a expansão da megaconstelação.
A Starship V3 poderá levar até 60 satélites Starlink à órbita em um único voo – Crédito: xnk/Shutterstock
Apesar do potencial, o projeto ainda enfrenta desafios relevantes. Desde 2023, a SpaceX realizou 11 voos de teste da Starship, com resultados variados. Alguns terminaram em explosões, enquanto outros trouxeram avanços importantes, como a captura do propulsor Super Heavy durante o retorno.
Mesmo com esses progressos, a empresa reconhece que ainda há obstáculos técnicos importantes. Um dos principais objetivos é alcançar uma taxa de milhares de lançamentos por ano – algo inédito na indústria espacial e essencial para sustentar projetos em larga escala.
Outro ponto crítico é a infraestrutura necessária em solo. Cada lançamento exige grande volume de recursos, incluindo combustível e água para reduzir o impacto das ondas sonoras durante a decolagem. Esse nível de demanda levanta dúvidas sobre a viabilidade de operações tão frequentes.
Propulsor Super Heavy retornando para a base de lançamento em pouso histórico que finalizou o quinto voo de teste do Starship em outubro de 2024 – Crédito: SpaceX.
O analista Chris Quilty, presidente da empresa de pesquisa Quilty Space, afirma que a infraestrutura atual pode não dar conta dessa demanda. “Não há água suficiente no sistema hídrico para suportar o lançamento da Starship” nessa escala, disse.
No espaço, um dos desafios mais complexos é o reabastecimento em órbita. O processo envolve a transferência de combustível entre naves, algo que ainda não foi testado na prática pela SpaceX e será essencial para missões mais longas.
A dificuldade aumenta porque o combustível precisa ser mantido em temperaturas extremamente baixas. Qualquer falha nesse controle pode comprometer a missão, tornando essa etapa uma das mais delicadas do projeto.
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Empresa admite dificuldade em atender aos prazos previstos
A própria SpaceX admite incertezas. No documento de registro do IPO, a empresa afirma que pode não conseguir desenvolver ou implementar todas as soluções dentro dos prazos previstos, o que evidencia os riscos envolvidos.
Enquanto isso, a companhia segue ampliando sua base no sul do Texas, a Starbase. O local foi estruturado para produzir foguetes em ritmo acelerado, mais próximo da indústria aeronáutica do que do modelo tradicional do setor espacial.
Esse modelo de produção, porém, também traz desafios. Mudanças frequentes no projeto da Starship, motivadas por falhas nos testes, exigem ajustes constantes nas fábricas, o que aumenta a complexidade do processo.
A próxima etapa será o teste da versão Starship V3, que reúne diversas melhorias e foi projetada para voos orbitais mais longos, além de futuras missões tripuladas. Essa versão também será fundamental para o programa Artemis, da NASA, que já destinou bilhões de dólares à SpaceX para o desenvolvimento de um sistema de pouso lunar baseado na Starship.
O desempenho do primeiro voo da versão V3 é considerado decisivo por técnicos envolvidos no projeto. “A versão 3 é basicamente um projeto totalmente novo da nave”, afirmou Charlie Cox, diretor de engenharia da Starship. Para Kent Chojnacki, gerente adjunto do programa de Sistema de Pouso Humano da NASA, “muita coisa dependerá desse primeiro voo”.
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