40 anos após a explosão que devastou o reator 4 da usina de Chernobyl, na Ucrânia, uma complexa rede de túneis e salas subterrâneas segue ativa – e exige monitoramento constante. A cerca de 10 metros abaixo das ruínas, equipes especializadas ainda trabalham em um ambiente altamente contaminado para evitar novos riscos.
Entre esses profissionais está o pesquisador Anatolii Doroshenko, do Instituto de Problemas de Segurança das Centrais Nucleares, que falou à BBC. Ele desce regularmente ao local para inspecionar equipamentos, coletar dados e acompanhar o estado do combustível nuclear remanescente. “É como um grande labirinto embaixo do reator”, descreveu.
A rotina envolve riscos elevados. Em algumas áreas, os níveis de radiação são tão intensos que o tempo de permanência não pode ultrapassar poucos minutos. Em outros pontos, a exposição é considerada inviável, o que impede qualquer atividade humana. Ainda assim, o trabalho é essencial para manter a estabilidade da estrutura e monitorar possíveis mudanças no material radioativo.
O ambiente subterrâneo, formado pelas antigas instalações de controle da usina, é escuro e repleto de obstáculos. Corredores estreitos exigem que os pesquisadores avancem agachados, muitas vezes guiados apenas por lanternas. Mapas de contaminação ajudam a identificar zonas seguras e áreas críticas.
Entre os elementos mais perigosos está o cório, uma substância formada durante o acidente, quando o combustível nuclear se fundiu com estruturas do reator sob temperaturas extremas. Esse material se espalhou como lava pelas ruínas e deu origem a formações conhecidas, como a chamada “pata de elefante”.
Estima-se que ainda existam cerca de 200 toneladas de combustível nuclear no local, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica. Parte significativa desse material permanece inacessível, soterrada sob concreto utilizado após o acidente para conter a radiação. A remoção total deve levar décadas.
Como está o reator de Chernobyl hoje
Hoje, o reator está protegido por uma estrutura de contenção que inclui um sarcófago original e um grande domo metálico, projetado para isolar o local por até um século. Mesmo assim, a vigilância contínua é considerada indispensável.
Para enfrentar as condições extremas, Doroshenko utiliza múltiplas camadas de proteção, incluindo respiradores, roupas especiais e equipamentos adicionais em áreas mais críticas. Ao sair, passa por rigorosos processos de descontaminação, que incluem descarte ou limpeza de roupas, além de exames para verificar possíveis exposições.
Apesar dos riscos, o pesquisador diz encontrar motivação no próprio desafio. Ele descreve a experiência de entrar na unidade como um estado de “quase euforia”, comparável a escalar o Everest. Ainda assim, reforça a importância do autocontrole: “O principal é não entrar em pânico. O pânico leva você a cometer erros”.
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Para Doroshenko, o maior perigo está na familiaridade com o ambiente. “O medo ajuda a manter o controle e seguir as orientações para garantir baixas doses de radiação. Aqui, o maior risco é se acostumar às condições do lugar”, afirmou.
Com exames médicos regulares e uma rotina que inclui pausas longe da zona contaminada, ele segue ativo na missão de monitorar o local. E deixa um alerta sobre o legado do desastre: “É um trabalho duro. Chernobyl não deve ser esquecida”.
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