O luto costuma ser associado apenas à dor emocional, mas seus efeitos vão além. Em muitos casos, a pessoa percebe mudanças no próprio funcionamento, como dificuldade de lembrar tarefas simples, alterações no sono ou queda de energia. Essas reações não são sinal de fragilidade, mas fazem parte de um processo de adaptação do cérebro diante de uma perda significativa.
O que acontece no cérebro durante o luto
A morte de alguém próximo provoca alterações em áreas cerebrais ligadas às emoções e à memória. Regiões como a amígdala e o hipocampo são diretamente afetadas, além de haver desregulação no lobo frontal. “Há também impacto nos neurotransmissores responsáveis pelo humor e pela energia, o que ajuda a explicar os sentimentos de tristeza profunda, perda de prazer e queda de energia”, afirma Marcelo Heyde, psiquiatra dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru. Outro fator envolvido é o aumento do cortisol, hormônio relacionado ao estresse, que pode interferir no sono e no apetite.
Por que a realidade parece diferente?
Além das alterações biológicas, o luto também impacta a forma como o cérebro organiza a realidade.
“A perda rompe um padrão de previsibilidade. O cérebro, que estava organizado em torno daquele vínculo, precisa se reorganizar”, explica Pedro Rujano, psicólogo dos mesmos hospitais.
Por isso, o luto não segue uma linha contínua. É comum alternar momentos de maior estabilidade com períodos de sofrimento mais intenso.
Sintomas mais comuns
Durante esse processo, algumas reações são esperadas:
Tristeza intensa e sensação de vazio;
Alterações no sono e no apetite;
Dificuldade de concentração;
Sensação de irrealidade;
Oscilações emocionais, como culpa ou raiva;
Redução temporária da capacidade de manter a rotina.
Quando é preciso buscar ajuda
Não existe um prazo fixo para o luto. Em geral, espera-se uma adaptação gradual ao longo de meses, mas o principal ponto de atenção é o impacto na vida diária. “Mesmo com tristeza, a pessoa tende a conseguir manter minimamente suas atividades. Quando há prejuízo importante, isso acende um sinal de alerta”, destaca Heyde.
Sinais como sofrimento intenso e persistente, isolamento, dificuldade de retomar atividades ou pensamentos frequentes sobre a morte indicam a necessidade de avaliação profissional.
Luto prejudica algumas funções cerebrais. Foto: FreePik
O que pode ajudar nesse processo
Algumas atitudes podem contribuir para atravessar esse período:
Manter algum nível de atividade física ou social;
Contar com uma rede de apoio;
Respeitar o próprio tempo;
Compartilhar sentimentos com pessoas de confiança.
“O luto é normal e, na maior parte das vezes, não precisa de intervenção profissional, mas o suporte social faz diferença na forma como a pessoa atravessa esse período”, afirma Heyde.
A forma como amigos e familiares se posicionam também faz diferença. Oferecer presença, escuta e respeito ao tempo da pessoa tende a ser mais eficaz do que tentar dar respostas ou acelerar o processo.
Resumo:
O luto provoca mudanças no cérebro que afetam memória, sono e emoções. Embora seja um processo natural, pode impactar o dia a dia e, em alguns casos, exigir acompanhamento profissional. O suporte social e o respeito ao tempo são fundamentais.
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