Derretimento invisível: canais sob gelo da Antártida aceleram elevação do mar

O nível global do mar pode subir mais rápido do que as projeções atuais indicam. A razão está embaixo das plataformas de gelo da Antártida — mais precisamente, em longos sulcos que cortam sua parte inferior. Uma nova pesquisa conduzida na Noruega mostra que esses canais retêm água oceânica relativamente quente, aumentando drasticamente o derretimento e ameaçando a estabilidade de todo o sistema de gelo do continente.

As plataformas de gelo são gigantescas extensões de geleiras que flutuam na superfície da água. Elas funcionam como verdadeiros contrafortes: seguram o gelo terrestre atrás delas. Se essas barreiras se tornam mais finas e frágeis, o deslizamento do gelo para o oceano se acelera, elevando o nível do mar em todo o mundo.

O estudo, publicado por pesquisadores do Centro de Pesquisa Polar iC3, em Tromsø, usou a plataforma de gelo Fimbulisen, na Antártida Oriental, como laboratório natural. A região é considerada mais fria e, portanto, teoricamente menos ameaçada a curto prazo do que outras partes do continente. Mas os resultados foram alarmantes.

Neve da Antártida esconde diversos vulcões que podem acordar com o derretimento do gelo. Crédito: Mozgova – Shutterstock

O papel dos canais subglaciais

Os cientistas combinaram um mapa detalhado do relevo inferior da plataforma com um modelo computacional de alta resolução da circulação oceânica sob o gelo. A conclusão é clara: onde a base é canalizada, pequenas células de inversão retêm a água mais quente, impedindo que ela seja rapidamente levada para longe. Nesses pontos, a taxa de derretimento pode aumentar em até dez vezes localmente.

“Descobrimos que o formato da parte inferior da plataforma de gelo não é apenas uma característica passiva. Ele pode reter ativamente o calor do oceano exatamente nos locais onde o derretimento extra é mais importante”, explica o autor principal, Tore Hattermann.

O mais preocupante é que a Fimbulisen está na Antártida Oriental, uma área freqüentemente ignorada nos cenários mais pessimistas de mudança climática. Mesmo ali, influxos modestos de água profunda mais quente — algo que já foi observado e deve se intensificar no futuro — podem ter um efeito desproporcional quando a base do gelo é canalizada.

“Isso significa que algumas plataformas de gelo que os cientistas geralmente consideram frias podem ser mais frágeis do que se imaginava”, afirma Qin Zhou, co-líder do estudo.

(Imagem: Mozgova/Shutterstock)

Modelos climáticos desatualizados

Os pesquisadores alertam que os modelos climáticos e de calotas polares atuais não capturam esse fenômeno em pequena escala. “Eles correm o risco de subestimar a sensibilidade das plataformas de gelo ‘frias’ ao longo da costa da Antártida Oriental a pequenas mudanças ou ao aquecimento das águas costeiras”, diz Hattermann.

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O problema tem três frentes de impacto. Para a ciência, é um chamado para refinar os modelos. Para as políticas públicas, decisões sobre planejamento costeiro e adaptação dependem de projeções confiáveis do nível do mar. Para a ecologia, mudanças na água de degelo podem alterar a circulação oceânica e afetar ecossistemas marinhos ao redor da Antártida.

O derretimento acelerado dentro dos canais não apenas enfraquece a plataforma localmente, mas também pode criar um ciclo de retroalimentação: canais mais profundos e largos retêm ainda mais calor, tornando o gelo mais fino e reduzindo sua capacidade de conter as geleiras que o alimentam. Em um mundo que já se prepara para os efeitos da elevação do mar, a mensagem do estudo é clara: o gelo pode estar derretendo mais rápido do que os relógios do clima estão marcando.

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