Um artigo publicado este mês na revista Frontiers in Earth Science revela que assinaturas incomuns de hélio encontradas em fontes termais da Zâmbia podem ser evidências de uma rachadura tectônica em atividade sob o sudoeste da África, indicando que o continente possa estar começando a se dividir lentamente ao longo de milhões de anos.
O estudo analisou gases liberados por fontes geotérmicas localizadas na chamada Fenda de Kafue, uma extensa estrutura geológica situada na Zâmbia. Segundo os pesquisadores, as amostras coletadas apresentam características químicas típicas de materiais vindos das camadas profundas da Terra, especialmente do manto terrestre, localizado abaixo da crosta.
A descoberta reforça a hipótese de que há um processo de rifteamento em andamento na região. Esse fenômeno acontece quando a crosta terrestre começa a se esticar e se romper lentamente, formando grandes rachaduras. Com o passar de milhões de anos, essas fissuras podem crescer e dar origem a novos limites entre placas tectônicas, alterando a configuração dos continentes e até criando oceanos.
Mapa mostra uma zona de falhas geológicas na Zâmbia, ligada ao Sistema de Rift da África Oriental. Destacam-se fontes termais e poços geotérmicos analisados na bacia de Kafue (amostras do rift), além de nascentes distantes usadas para comparação (amostras do embasamento), ajudando a entender o calor subterrâneo da região. – Crédito: Karolytė et al. (2026) / Frontiers in Earth Science
Fenda pode gerar benefícios econômicos
Além das mudanças geológicas de longo prazo, os cientistas afirmam que sistemas de fenda também podem trazer benefícios econômicos importantes. Regiões desse tipo costumam concentrar potencial para energia geotérmica e reservas subterrâneas de gases valiosos, como hélio e hidrogênio, amplamente utilizados em setores tecnológicos e energéticos.
O professor Mike Daly, pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, um dos autores do estudo, explicou que as fontes termais da região apresentam uma ligação direta com o interior profundo da Terra. Segundo ele, os dados indicam que fluidos vindos do manto conseguem atravessar a crosta terrestre e alcançar a superfície por meio da falha geológica de Kafue.
De acordo com Daly, essa conexão subterrânea é um forte sinal de que a falha permanece ativa. Isso também sugere que o chamado Sistema de Rift do Sudoeste Africano pode estar em processo de desenvolvimento, representando um possível estágio inicial da fragmentação da África Subsaariana.
Rachadura atravessa três países da África
A Fenda de Kafue integra um sistema geológico com cerca de 2.500 km de extensão, que atravessa partes da Tanzânia, Zâmbia e Namíbia. Os pesquisadores decidiram investigar a área por causa de características incomuns da paisagem, da presença de fontes termais e de sinais de atividade geotérmica considerados compatíveis com regiões de rifteamento.
Para confirmar a hipótese, os cientistas precisavam encontrar evidências de que materiais originados nas profundezas do planeta estavam chegando à superfície. A principal pista veio dos isótopos de hélio, versões diferentes do mesmo elemento químico. Como esses isótopos aparecem em proporções distintas no manto e na crosta terrestre, eles funcionam como uma espécie de “impressão digital” capaz de indicar a origem dos gases.
Durante a pesquisa, os cientistas coletaram amostras em oito locais diferentes, incluindo poços e fontes geotérmicas. Seis deles estavam dentro da área suspeita da fenda tectônica, enquanto outros dois ficavam fora dela. Os gases liberados pela água quente foram analisados em laboratório para medir suas assinaturas isotópicas.
Vista aérea da falha no sul da Fenda de Kafue mostra fontes termais cercadas por vegetação densa, onde gases foram coletados. – Crédito: Mike Daly
Os resultados mostraram que os gases da Fenda de Kafue possuíam proporções de hélio muito semelhantes às encontradas no Sistema de Rift da África Oriental, uma das maiores zonas de separação tectônica do planeta. Já as fontes localizadas fora da região analisada não apresentaram o mesmo padrão químico.
Os pesquisadores também descartaram a possibilidade de os gases terem origem atmosférica, já que as assinaturas isotópicas não coincidiam com as encontradas no ar. A composição observada também não poderia ser explicada apenas pela crosta terrestre, pois havia excesso de hélio associado ao manto.
Outro detalhe importante foi a presença de dióxido de carbono em níveis compatíveis com fluidos profundos do interior do planeta. Segundo os cientistas, esse tipo de emissão pode aumentar gradualmente no futuro caso a atividade vulcânica se intensifique na região, algo comum em sistemas de rifteamento mais avançados.
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Hélio ajuda a compreender como continentes se rompem
Os autores do estudo destacam que os isótopos de hélio são considerados ferramentas valiosas para identificar os estágios iniciais da formação de fendas continentais. Isso ajuda pesquisadores a compreender como continentes se rompem e como novas placas tectônicas podem surgir ao longo do tempo geológico.
Apesar das evidências, os cientistas alertam que a pesquisa ainda está em fase inicial. O estudo analisou apenas uma parte específica do Sistema de Rift do Sudoeste Africano, que possui milhares de quilômetros de extensão. Novas investigações mais amplas já estão em andamento e devem trazer resultados adicionais ainda este ano.
Para os pesquisadores, entender o comportamento dessas estruturas geológicas pode ajudar não apenas a explicar o futuro da África, mas também a identificar recursos naturais importantes e aprimorar o conhecimento sobre os processos que moldam a superfície terrestre há milhões de anos.
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