Trabalho com joias há anos, e essa profissão me ensinou algo que nenhum guia de viagem descreve. Existem lugares que funcionam como pedras preciosas: brutos por fora, exigem atenção e paciência. Quando a luz bate certo, revelam algo que você não consegue mais tirar da cabeça. A Escócia é exatamente um desses lugares.
Fui com o foco de quem presta atenção nos acabamentos e nas histórias por trás dos objetos. Depois de oito dias vendo castelos habitados, destilarias centenárias e paisagens cinematográficas, tive uma certeza: a Escócia recompensa quem souber olhar.
Edimburgo, a cidade que vive em dois tempos
Me hospedei no The Balmoral, no ponto exato onde a Cidade Velha e a Cidade Nova se encontram. A torre de relógio do hotel está propositalmente adiantada em dois minutos para que os viajantes não percam o trem da estação que fica ao lado – um detalhe pequeno que diz muito sobre o caráter escocês. Sean Connery reinaugurou o endereço em 1991 e a Rainha Mãe já se hospedou ali – o hotel carrega esse peso histórico sem parecer museu.
O Castelo de Edimburgo, construído sobre um vulcão extinto com mais de 900 anos de história, guarda as joias da coroa escocesa e a Pedra do Destino, antigo símbolo da monarquia escocesa. A visita after-hours ao Royal Yacht Britannia fecha o dia de um jeito que nenhum roteiro convencional oferece. O iate serviu à família real britânica por 44 anos e percorreu mais de um milhão de milhas náuticas. Era o lugar onde a Rainha Elizabeth II finalmente se desligava do protocolo, recebia chefes de Estado em jantares de gala e passava as férias de verão com a família nas ilhas escocesas. Não à toa, o Britannia inspirou cenas da série The Crown (2016). A atmosfera faz sentido assim que você pisa a bordo.
Para jantar, o Noto surpreendeu. Restaurante Bib Gourmand no Guia Michelin combina ingredientes escoceses com influências asiáticas sem forçar nenhuma das duas. Nas proximidades, a Hopetoun House, palácio do século 18 incrustado em uma área de 2600 hectares ainda habitado pela família original, foi cenário de mais de 20 locações da série Outlander (2014), incluindo cenas que representavam Paris.
Hopetoun House foi cenário para várias locações da série OutlanderAna Paula Carneiro/Arquivo pessoal
Highlands, onde a paisagem se torna personagem
Loch Lomond prepara o olho para o que vem depois. O maior lago de água doce da Grã-Bretanha muda de cor ao longo do dia. O Cameron House, resort em uma mansão baronial do século 17 às suas margens, é o tipo de base que transforma uma noite em dois dias.
Cameron House Resort: uma mansão às margens de LomondAna Paula Carneiro/Arquivo pessoal
Em Oban, cidade portuária que os escoceses chamam de capital dos frutos do mar, o restaurante Ee-Usk serve peixes locais com aquela simplicidade que só funciona quando a matéria-prima é impecável. A destilaria do lugar, fundada em 1794, produz um whisky que equilibra a doçura das Highlands com um toque salino e defumado. Faz todo o sentido quando você olha pela janela e vê o mar.
O Inveraray Castle, sede do clã Campbell desde 1746, é grandioso, preservado e ainda habitado pelo Duque de Argyll. Fãs de Downton Abbey (2010) o reconhecerão do especial de Natal de 2012, mas a experiência não precisa de legenda para impressionar.
Glencoe é onde a Escócia deixa de ser bela e passa a ser visceral. O vale glacial com seus picos íngremes tem aquela qualidade de paisagem filtrada, como se a luz tivesse saturação diferente. As Three Sisters, a montanha Buachaille Etive Mòr e a vastidão de Rannoch Moor foram cenários de 007 e de Highlander (1986) por uma razão muito simples: é impossível fazer um enquadramento ruim. É também impossível não parar o carro a todo momento para contemplar.
Glencoe: um vale composto por gigantes de pedra com mais de mil metros de alturaShawn/Unsplash
Perthshire, o ritmo certo para encerrar
A viagem termina em Gleneagles, inaugurado em 1924 e chamado desde então de Palácio nas Highlands. Mesmo para quem não joga golfe como eu, o hotel justifica a estadia. Antes de chegar, a Glenturret Distillery, a mais antiga da Escócia em operação, oferece uma degustação privativa que é, de longe, a forma mais elegante de entender por que os escoceses levam esse artesanato tão a sério.
O ateliê de Araminta Campbell, em uma casa de fazenda baronial de 1822, funciona como oficina de tecelagem e showroom de tartan. Para quem trabalha com artesanato de luxo como eu, entrar ali foi como visitar uma joalheria que usa fio em vez de metal. O House of Bruar fecha o círculo com cashmere, salmão defumado e whiskies raros, sem tentar ser o que não é.
A Escócia não é uma viagem para quem quer conforto previsível. É para quem tolera chuva fina, estradas de uma via, longos silêncios, e entende que essas são exatamente as condições para que algo raro apareça. Os castelos habitados, as destilarias com séculos de método e os vales de luz impossível funcionam como aquelas pedras que precisam da luz certa para revelar o que têm dentro.
Ana Paula Carneiro é curadora de joias e especialista em marcas de luxo; na foto, ela está em frente ao Castelo Inveraray//Arquivo pessoal
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