Ciclones tropicais estão emitindo menos carbono e podem se tornar esponjas de CO₂ até 2035

Os ciclones tropicais estão entre os fenômenos meteorológicos mais destrutivos do planeta, mas seu papel no ciclo global do carbono sempre foi controverso: eles ajudam a liberar ou a absorver dióxido de carbono (CO₂) dos oceanos? Agora, uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu quantificar essa contribuição pela primeira vez, usando dados diários de fluxo de carbono entre o ar e o mar. A conclusão, publicada na Nature Geoscience, é que os ciclones tropicais atualmente emitem mais carbono do que absorvem — mas essa emissão está caindo rapidamente. E, se as emissões humanas de CO₂ continuarem altas, o papel dos ciclones pode se inverter já por volta de 2035, transformando-os em sumidouros líquidos de carbono, com consequências graves para a acidificação dos oceanos.

O que os números mostram

Os oceanos absorvem atualmente de 20% a 30% do CO₂ emitido pela humanidade. Os ciclones tropicais, com seus ventos intensos, perturbam a camada superior do mar de forma drástica, mas entender seu efeito líquido era difícil devido à escassez de medições diretas durante as tempestades.

A nova pesquisa sintetizou observações de várias fontes para construir um conjunto de dados diários do fluxo global de CO₂ na interface ar-mar. Os resultados são claros:

Ciclones tropicais ainda causam emissão líquida de carbono (libera mais do que absorve). Os ventos fortes aumentam a transferência de CO₂ do mar para a atmosfera, embora o resfriamento da superfície da água deixado pelas tempestades contribua para alguma absorção, compensando parte da emissão.

Essa emissão líquida está diminuindo. Na segunda metade da década de 1990, os ciclones tropicais contribuíam com cerca de 16% do fluxo global anual de carbono. Entre 2016 e 2020, essa fração caiu para apenas 4,5%.

O motivo da queda é o aquecimento global. Com o aumento da temperatura, a superfície do oceano aquece mais rápido do que as camadas mais profundas, criando um gradiente vertical mais acentuado. Ciclones de mesma intensidade provocam agora um resfriamento mais intenso da superfície (as chamadas “esteiras frias”), que podem durar semanas. Esse resfriamento aumenta o desequilíbrio de carbono na interface ar-mar e faz com que o oceano absorva mais CO₂ após a passagem da tempestade, compensando parte da emissão.

Imagem: NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS Processamento de imagem por Brian Swift

O ponto de virada: 2035

Se as emissões antropogênicas de CO₂ permanecerem elevadas, os modelos indicam que os ciclones tropicais poderão inverter seu papel por volta de 2035. Em vez de liberar carbono, eles passarão a causar absorção líquida pelos oceanos. Isso soa como uma boa notícia (mais captura de carbono), mas na verdade é preocupante: a absorção extra de CO₂ aceleraria a acidificação dos oceanos, com impactos diretos sobre a química da água do mar e a redução de habitat para espécies marinhas.

O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA (NSF) e do Centro Helmholtz GEOMAR para Pesquisa Oceânica de Kiel, na Alemanha.

Os autores destacam que o futuro papel dos ciclones tropicais depende inteiramente das escolhas humanas. Se as emissões forem controladas imediatamente, a tendência de queda no fluxo de carbono impulsionado por ciclones dificilmente se reverterá antes da década de 2040. Mesmo assim, o nível de absorção de carbono só retornaria aos patamares atuais no final do século.

A mensagem central é clara: até os fenômenos naturais mais violentos estão tendo seu comportamento alterado pelo aquecimento global, e as consequências podem ser sentidas não apenas no clima, mas na própria química dos oceanos. O que antes era uma fonte de incerteza agora se torna mais um alerta sobre a urgência da mitigação.

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