Enquanto o mundo chega ao México pelo futebol, a Cidade do México aproveita a contagem regressiva para a Copa do Mundo de 2026 para reafirmar sua identidade artística com exposições dedicadas a nomes icônicos do país, como Frida Kahlo e Diego Rivera.
Ao caminhar pela cidade, já é possível ver avenidas ganhando nova sinalização, o lendário estádio Azteca passando pelos retoques finais para a cerimônia de abertura e turistas do mundo inteiro começando a incluir a capital mexicana nos roteiros do próximo Mundial.
Os museus da cidade vivem um momento particularmente simbólico – e um deles merece destaque especial: o Museo de Arte Moderno (MAM) com a exposição Relatos Modernos. Obras emblemáticas da Colección Gelman Santander.
Mais do que uma grande mostra de arte mexicana, Relatos Modernos virou um acontecimento cultural na cidade. O sucesso de público – a exposição teve início em 17 de fevereiro e no dia 2 de abril já havia registrado mais de 137 mil visitantes – e a forte repercussão em torno da coleção ajudam a explicar por que a capital mexicana continua sendo um dos destinos culturais mais interessantes das Américas.
Exposição no Museo de Arte Moderno traz de volta ao México obras emblemáticas da Colección Gelman SantanderDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Um reencontro esperado há quase 20 anos
A exposição reúne 68 obras fundamentais da arte moderna mexicana, incluindo trabalhos de Frida Kahlo, Diego Rivera, Rufino Tamayo, María Izquierdo e David Alfaro Siqueiros. Mas o que realmente transformou a mostra em um fenômeno foi o contexto.
A Colección Gelman Santander, considerada uma das mais importantes coleções privadas de arte mexicana do século 20, passou anos longe dos museus mexicanos, cercada por disputas, mudanças de posse e debates sobre patrimônio artístico. O retorno das obras ao país acabou ganhando dimensão emocional. Para muitos visitantes, trata-se de um reencontro.
Entre as obras mais disputadas da exposição estão justamente as de Frida Kahlo. Ao todo, a mostra reúne dez trabalhos da artista, entre eles Diego en mi pensamiento, Autorretrato con monos, La novia que se espanta de ver la vida abierta e Autorretrato con vestido rojo y dorado. As filas diante das pinturas ajudam a mostrar como Frida continua despertando fascínio em visitantes de diferentes partes do mundo.
Obras como “Diego en mi pensamiento” e “Autorretrato con monos” ajudam a traçar o papel central de Frida Kahlo na narrativa da exposiçãoDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Recentemente, a Netflix anunciou a produção de uma série dramática inspirada na vida da artista e em sua intensa relação com Diego Rivera, reforçando novamente o interesse internacional em torno de sua trajetória.
Outro destaque da exposição são os diversos retratos de Natasha Gelman realizados por alguns dos maiores nomes da arte mexicana. Diego Rivera, Rufino Tamayo, David Alfaro Siqueiros e a própria Frida Kahlo retrataram a colecionadora e mecenas em diferentes momentos, transformando Natasha em uma espécie de musa da arte moderna mexicana.
Nos retratos assinados por Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros, a colecionadora e mecenas Natasha Gelman foi alçada à musaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Nascida na antiga Tchecoslováquia e radicada no México, foi uma das mais importantes mecenas do país ao lado do marido, Jacques Gelman. O casal construiu uma coleção histórica ao longo de décadas, convivendo de perto com artistas que hoje fazem parte da identidade visual e artística mexicana.
Ángel Zárraga retrata Natasha e Jacques Gelman, casal que ajudou a construir uma coleção históricaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Um museu no coração de uma cidade que respira cultura
Parte do sucesso da exposição também passa pelo próprio entorno. O Museo de Arte Moderno fica no Bosque de Chapultepec, uma das regiões mais agradáveis da Cidade do México para explorar sem pressa.
Em caminhadas de cerca de 10 e 15 minutos, o visitante encontra o Museo Nacional de Antropología e o Castillo de Chapultepec, respectivamente, além de cafés, livrarias e uma das avenidas mais bonitas da capital, a Paseo de la Reforma.
É o tipo de programa que ajuda a entender por que a Cidade do México se tornou um dos destinos culturais mais vibrantes da América Latina.
O Museo de Arte Moderno está cercado pela efervescência cultural da capital mexicanaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
A Copa como vitrine cultural
A proximidade da Copa do Mundo de 2026 ajuda a ampliar ainda mais esse movimento. A capital mexicana lançou um amplo corredor de arte e entretenimento ligado ao Mundial, com programações especiais, exposições temáticas e atividades espalhadas pela cidade. A proposta é que o evento esportivo também funcione como plataforma turística, artística e social.
Na prática, a Cidade do México tenta aproveitar a visibilidade internacional do torneio para reapresentar ao mundo sua identidade e sua produção artística. E a prorrogação da exposição Relatos Modernos parece simbolizar exatamente isso.
Inicialmente prevista para terminar em 17 de maio, a mostra foi estendida até 19 de julho. Enquanto milhões de turistas chegam ao país por causa do futebol, os museus mexicanos ocupam um papel central na experiência da cidade. Não apenas como atrações turísticas, mas como espaços capazes de ajudar o visitante a entender o México – suas memórias, disputas e símbolos.
Muito além dos estádios
Relatos Modernos reforça que a Cidade do México vai muito além dos estádios: é uma cidade para ser descoberta entre museus, cafés, parques, livrarias e caminhadas por bairros cheios de história. Um destino onde arte e memória fazem parte da paisagem cotidiana – inclusive para quem desembarcou ali inicialmente apenas por causa do futebol.
E há outro detalhe que torna a visita ao Museo de Arte Moderno ainda mais especial: além da exposição temporária, o museu abriga permanentemente Las dos Fridas (1939), considerada a pintura mais famosa de Frida Kahlo. O impactante autorretrato duplo, criado após a separação de Diego Rivera, expressa a dor emocional da artista e sua dualidade cultural entre as raízes mexicanas e europeias.
No acervo do museu, “Las dos Fridas” traduz em imagem a dualidade e a força que atravessam a obra de Frida KahloDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Na prática, isso significa que o visitante consegue ver, em um mesmo passeio, algumas das obras mais emblemáticas de Frida Kahlo reunidas em um dos museus mais importantes do país.
E se a Copa de 2026 promete transformar a capital mexicana em centro das atenções globais, exposições como essa mostram que a cidade parece preparada para aproveitar o momento da melhor maneira possível: apresentando ao mundo aquilo que ela tem de mais autêntico.
Serviço
Relatos modernos. Obras emblemáticas de la Colección Gelman Santander.
Onde? Museo de Arte Moderno – Paseo de la Reforma S/N, Bosque de Chapultepec, 11560, Cidade do México.
Quando? Até 19 de julho, de terça a domingo, das 10h15 às 17h45.
Quanto? 95 pesos mexicanos. Estudantes e professores têm entrada gratuita, assim como todos os visitantes aos domingos. Ingressos vendidos exclusivamente na bilheteria do museu.
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