O uso de inteligência artificial (IA) voltou a gerar tensão em um dos maiores jornais do mundo. Funcionários sindicalizados da área de tecnologia do The New York Times afirmam que a empresa estaria utilizando ferramentas internas de IA para acompanhar produtividade e desempenho individual dos trabalhadores. Segundo o grupo, a prática viola cláusulas do acordo coletivo firmado com a companhia.
A disputa envolve integrantes do Tech Guild, unidade ligada ao NewsGuild of New York que reúne cerca de 700 profissionais, entre engenheiros de software, designers, gerentes de produto e analistas de dados. O sindicato também acusa o jornal de se recusar a fornecer informações sobre o uso atual e futuro de IA na empresa e os impactos dessas tecnologias sobre o trabalho dos funcionários.
Ferramentas de IA são alvo de críticas
Uma das plataformas citadas pelo sindicato é a DX, descrita internamente como uma ferramenta para medir produtividade de engenharia. Segundo Ben Harnett, engenheiro de software do Times e presidente do comitê de IA generativa da unidade sindical, o sistema inicialmente teria sido apresentado como um recurso para avaliar o desempenho geral da empresa. Nos últimos meses, porém, os dados passaram a ser associados a funcionários específicos.
Harnett afirmou que métricas da plataforma começaram a aparecer em conversas disciplinares. Entre os dados analisados estariam quantidade de solicitações de código enviadas, uso de IA generativa e indicadores de eficiência. O sindicato argumenta que esses números não refletem necessariamente a qualidade do trabalho realizado.
“Agora pessoas em situações disciplinares estão ouvindo coisas como: ‘você fez apenas um pull request por semana’”, afirmou Harnett ao The Verge. Segundo ele, as métricas acabam reduzindo atividades complexas a indicadores considerados superficiais pelos trabalhadores.
Sindicato também questiona software Glean
Outra ferramenta mencionada é a Glean, utilizada para pesquisar conteúdos em bases internas como wikis, documentos do Google, arquivos do GitHub e e-mails corporativos. O Tech Guild afirma que o sistema pode ser usado para monitorar funcionários ao reunir grandes volumes de documentação produzida pelos trabalhadores.
Harnett disse que gestores poderiam usar o software para consultar informações sobre desempenho individual e contribuições específicas de cada funcionário. O sindicato também afirmou suspeitar que notificações disciplinares recentes tenham sido geradas com apoio da ferramenta.
De acordo com o Tech Guild, o uso de DX e Glean violaria regras do contrato coletivo relacionadas a privacidade, monitoramento de funcionários e obrigações de negociação com os trabalhadores antes da adoção dessas tecnologias.
Empresa rebate acusações
O The New York Times afirmou discordar das caracterizações feitas pelo sindicato. Em e-mail enviado ao The Verge, a porta-voz Danielle Rhoades Ha declarou que a empresa responderá às reclamações “como parte do processo contratual normal”.
Ela também afirmou que a companhia responderá às solicitações de informações relacionadas ao uso de IA “no devido tempo”, da mesma forma que fez com dezenas de outros pedidos feitos pelo sindicato nos últimos anos.
Enquanto isso, o Times Guild, sindicato que representa cerca de 1.500 profissionais editoriais, de publicidade e de suporte do jornal, negocia um novo contrato com propostas de proteção contra IA. Entre as demandas estão exigências de supervisão humana em ferramentas automatizadas, identificação transparente de conteúdos produzidos com IA e compensação financeira em possíveis acordos de treinamento de modelos.
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