Maven: missão da NASA fez história em Marte; relembre

A NASA anunciou o encerramento da missão da sonda orbital MAVEN, que passou pouco mais de uma década estudando a atmosfera de Marte. A decisão foi tomada após a agência espacial perder de vez o contato com o veículo robótico, que entrou num estado considerado irrecuperável pelos engenheiros.

O anúncio da agência espacial encerra meses de tentativas de resgatar a espaçonave, cujo último sinal foi registrado em dezembro de 2025. Dedicada a entender a evolução climática do Planeta Vermelho, a MAVEN superou sua estimativa inicial de operação em uma década, deixando um legado científico que ajudou a desvendar o passado marciano e que servirá de base para futuras missões humanas.

Falha técnica esgotou energia e cortou comunicação da MAVEN

Os problemas da sonda espacial começaram de forma abrupta em 6 de dezembro de 2025, quando a sonda passou por trás de Marte. É um movimento de rotina que gera um blecaute temporário de comunicação de 20 a 30 minutos. O problema foi que a MAVEN não voltou a responder. 

Segundo Mike Moreau, gerente do projeto no Goddard Space Flight Center da NASA, dados parciais recuperados revelaram que a espaçonave emergiu dessa passagem girando a uma taxa de 2,7 rotações por minuto. Esse comportamento foi considerado altamente incomum e fatal. Isso porque a sonda foi projetada para operar de forma estável.

Essa rotação imprevista impediu que a sonda direcionasse corretamente seus painéis e sistemas, fazendo com que suas baterias fossem completamente drenadas. Sem energia elétrica, o sistema de transmissão da MAVEN foi desligado de forma definitiva. Um comitê de revisão técnica da NASA, convocado em fevereiro de 2026, concluiu que o veículo ficou permanentemente inoperante. Mas um relatório final detalhando a causa exata do mau funcionamento deve ser lançado nos próximos meses.

Representação artística da sonda MAVEN, da NASA, que orbita Marte desde 2014 e foi declarada perdida pela NASA – Imagem: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA.

Antes de decretar o fim da missão, os engenheiros tentaram salvar a sonda espacial de várias formas, como enviar comandos para uma reinicialização forçada do computador de bordo e fazer varreduras com o radiotelescópio do Green Bank Observatory

O trabalho de recuperação foi dificultado pela conjunção solar de Marte, fenômeno ocorrido entre 29 de dezembro de 2025 e 16 de janeiro de 2026, no qual o Sol se posiciona exatamente entre a Terra e Marte. Isso bloqueia a troca de sinais de rádio. Em paralelo, o rover Curiosity, posicionado no solo marciano, olhou para o céu em meados de dezembro na tentativa de avistar a MAVEN, mas não conseguiu detectá-la.

Mesmo desligada, a sonda continuará viajando em sua órbita oval (altamente elíptica), que a aproxima a até 180 km da superfície e a afasta a cerca de 4.000 km. De acordo com as estimativas da NASA, a estrutura remanescente deve flutuar ao redor de Marte por um período de 50 a 100 anos antes que sua órbita decaia completamente e ela queime na atmosfera. 

A agência assegurou que os destroços não oferecem riscos de colisão com outros veículos espaciais ativos. No entanto, o fim prematuro da sonda significa que ela não poderá mais cumprir o plano de complementar os dados da missão ESCAPADE, lançada em novembro de 2025, para estudar a atmosfera de Marte.

MAVEN desvendou passado habitável de Marte

Lançada de Cabo Canaveral em novembro de 2013 e inserida na órbita marciana em 2014, a MAVEN (sigla em inglês para Mars Atmosphere and Volatile Evolution) foi a primeira missão focada estritamente em estudar os gases que envolvem o Planeta Vermelho. Seus dados provaram que, há mais de três bilhões de anos, Marte possuía uma atmosfera espessa e grandes volumes de água líquida em rios e deltas, reunindo condições que podem ter sido propícias para o surgimento de vida microbiana. 

A pesquisadora principal da missão, Shannon Curry, da Universidade de Colorado Boulder, explicou que a sonda desvendou como os ventos solares (fluxos contínuos de partículas carregadas e plasma que saem do Sol) arrancaram gradualmente as moléculas de ar do planeta, transformando-o no deserto atual.

Ao longo de sua jornada, a sonda registrou descobertas marcantes: mapeou a circulação de ventos de alta altitude, documentou a tempestade global de poeira de 2018 e descobriu auroras boreais marcianas provocadas por tempestades espaciais, incluindo uma inédita emissão de luz verde visível capturada em parceria com o rover Perseverance.

Auroras de prótons irregulares em diferentes momentos ao longo de agosto de 2021 – Crédito: EMM/EMUS

A espaçonave também monitorou a passagem dos cometas Siding Spring e do interestelar 3I/ATLAS. Para Louise Prockter, diretora da Divisão de Ciência Planetária da NASA, o catálogo de informações acumulado pela sonda é fundamental para desenhar as medidas de segurança e proteção contra radiação necessárias antes de enviar os primeiros astronautas humanos ao solo marciano.

Além do papel científico, a sonda exercia uma função logística vital como o segundo nó mais ativo da Rede de Transmissão de Marte, cooperação entre a NASA e a Agência Espacial Europeia (ESA) para retransmitir as descobertas dos robôs Curiosity e Perseverance de volta para a Terra. 

Tiffany Morgan, diretora do programa de exploração de Marte da NASA, esclareceu que a infraestrutura orbital restante conta com outras quatro sondas operacionais e possui resiliência para absorver o impacto da perda. No entanto, ela e o gerente adjunto Greg Heckler confirmaram que pequenas mudanças operacionais já foram aplicadas nos rovers. E que haverá, ocasionalmente, um leve atraso no recebimento dos dados científicos.

(Essa matéria também usou informações de New York Times, Reuters e Scientific American.)

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