Terras raras: a corrida global pelo recurso que pode mudar o lugar do Brasil na indústria do futuro

Elas estão nos motores de carros elétricos, nas turbinas eólicas, em celulares, computadores, satélites, equipamentos médicos, sistemas de defesa, drones, sensores industriais e em parte da infraestrutura que sustenta a economia digital. As terras raras deixaram de ser um assunto restrito a geólogos, mineradoras e laboratórios para se tornarem uma das disputas estratégicas mais importantes do século XXI. O nome, no entanto, pode enganar: esses elementos não são necessariamente raros na natureza. O que é raro — e caro — é encontrá-los em concentrações economicamente viáveis, separá-los com alto grau de pureza e transformá-los em produtos industriais de alto desempenho. As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Entre os mais estratégicos estão neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, usados na fabricação de ímãs permanentes de alta performance.

Para Sidney Ribeiro, professor do Instituto de Química de Araraquara da Unesp, a presença desses elementos na vida cotidiana é tão ampla que muitas vezes passa despercebida. “Hoje, tudo relacionado à tecnologia envolve terras raras na sua fabricação, desde o celular até turbinas eólicas ou carros elétricos. Então, a gente tem uma grande dependência tecnológica das terras raras”, afirma. Essa dependência explica por que um tema antes técnico passou a ser tratado por governos, empresas e centros de pesquisa como assunto de segurança econômica, industrial e até militar.

Terras raras – Imagem: Joaquin Corbalan/Shutterstock

O recurso por trás dos ímãs que movem carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares

A principal aplicação estratégica das terras raras está nos ímãs permanentes de alto desempenho, especialmente os de neodímio-ferro-boro. Eles são pequenos, leves, resistentes e capazes de gerar campos magnéticos muito fortes. Por isso, aparecem em motores elétricos, aerogeradores, equipamentos de automação, aparelhos médicos, sistemas aeroespaciais, data centers, robótica e aplicações de defesa. Segundo a Agência Internacional de Energia, os ímãs permanentes representam a aplicação mais importante e de crescimento mais acelerado das terras raras, respondendo por cerca de 95% do consumo total desses elementos em valor. A demanda por neodímio, praseodímio, disprósio e térbio dobrou desde 2015 e deve crescer mais de um terço até 2030, impulsionada pela eletrificação, pelas energias renováveis e pela digitalização da economia.

Esse crescimento transformou as terras raras em uma espécie de elo invisível da indústria contemporânea. Sem elas, motores elétricos ficam menos eficientes, turbinas eólicas perdem desempenho, equipamentos eletrônicos encarecem e setores estratégicos passam a depender de substitutos menos eficazes. Por isso, o debate não é apenas sobre mineração. É sobre quem controla as etapas industriais que ligam o minério ao produto final.

O Brasil tem potencial, mas ainda precisa transformar reserva em cadeia produtiva

É nesse contexto que o Brasil aparece como uma promessa global. O Serviço Geológico do Brasil aponta que o país tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas ou recursos de terras raras, algo em torno de 23% do total mundial, o que colocaria o Brasil entre os maiores detentores desse tipo de recurso no planeta. O potencial, porém, ainda não se traduz em presença industrial equivalente. O SGB informou que o país produziu apenas 20 toneladas em 2024, menos de 1% da produção mundial daquele ano. Já o Serviço Geológico dos Estados Unidos, em sua síntese de 2026, estimou para 2025 uma produção brasileira de 2 mil toneladas, diante de 270 mil toneladas da China e de um total mundial de 390 mil toneladas. Mesmo com metodologias e anos diferentes, os números mostram o mesmo contraste: o Brasil tem recurso, mas ainda não tem escala comparável aos grandes produtores.

Essa distância entre potencial geológico e produção real é um dos pontos centrais para André Pimenta, coordenador do CIT SENAI ITR. Segundo ele, a existência de reservas não significa, automaticamente, uma mina pronta para operar. “Esse número primeiro é um número de mapeamento, ou seja, o pessoal vai descobrindo os novos depósitos e vai comunicando isso para as nossas agências reguladoras, a ANM, Serviço Geológico do Brasil. Mas isso ainda, até que vire uma mina, até que a gente consiga realmente explotar, tem um caminho muito longo. Então tem uma questão de licenciamento, licenciamento ambiental, tem uma questão de investimento. Desde o momento em que você descobre um depósito, você precisa perfurar, caracterizar, fazer as solicitações de licenciamento. Algumas vezes você precisa de infraestrutura, energia elétrica, rodovia, etc. Então isso demanda tempo.”

Da descoberta à mina: o caminho longo entre potencial geológico e produção real

A fala de Pimenta ajuda a explicar por que o Brasil pode ser visto como uma potência futura em terras raras e, ao mesmo tempo, ainda ter participação reduzida na oferta global. Identificar um depósito é apenas o começo. Depois vêm sondagens, estudos geológicos detalhados, avaliação econômica, licenciamento ambiental, definição de rota tecnológica, infraestrutura, logística, energia, água, segurança operacional e financiamento. Em muitos casos, os elementos terras raras aparecem associados a outros bens minerais, como nióbio, fosfato, bauxita ou monazita, o que aumenta a complexidade de extração e aproveitamento industrial. Segundo o SGB, os principais recursos brasileiros estão em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe, com destaque para Araxá, Minaçu, Seis Lagos, Pitinga, Jequié e áreas do litoral sergipano.

Em Minas Gerais, Araxá abriga a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras do Brasil, segundo o SGB. Em Goiás, Minaçu ganhou projeção por ter uma mina ativa de elementos terras raras e por abrigar um depósito de argila iônica, tipo de mineralização importante para terras raras pesadas. No Amazonas, Seis Lagos tem grande potencial, mas está em área com restrições legais. Na Bahia, projetos no Complexo de Jequié chamam atenção pelos teores de terras raras associados a outros minerais estratégicos. O mapa brasileiro, portanto, é amplo, mas desigual: há regiões com pesquisa, regiões com potencial, regiões com restrições e poucas áreas em produção efetiva.

Terras raras são essenciais para baterias de carros elétricos, turbinas (Imagem: Fellipe Abreu/iStock)

Por que terras raras são mais química do que mineração tradicional

O grande gargalo não está apenas na lavra. Depois de retirar o minério do solo, é preciso separar os elementos, transformá-los em óxidos, purificá-los, converter óxidos em metais, produzir ligas e chegar aos ímãs ou componentes finais. A Agência Internacional de Energia descreve essa cadeia como uma sequência tecnicamente exigente que inclui extração, beneficiamento, separação química, produção de óxidos, refino metálico, formação de ligas e manufatura de ímãs. Cada etapa agrega valor, mas também exige conhecimento técnico, equipamentos especializados e escala industrial.

Para Pimenta, esse é o ponto que diferencia as terras raras de outras atividades minerais mais conhecidas no Brasil. “Trabalhar com tecnologias de terras raras é um pouco diferente da mineração que a gente conhece. É quase um processo mais químico do que mineral. Então essas tecnologias também acabam impactando nesse tempo. Precisa desenvolver, conhecer, etc. Basicamente, o que a gente precisa é desenvolver um processo que seja viável economicamente. Então a gente precisa desenvolver métodos que sejam mais baratos, rápidos e eficientes. Às vezes até procurar novos reagentes ou novos extratores. A China domina isso muito bem, mas a gente ainda precisa fazer esses estudos para desenvolver de uma forma que seja viável economicamente.”

Sidney Ribeiro aponta o mesmo gargalo por outro ângulo. Para ele, o Brasil tem experiência mineral, mas ainda precisa avançar justamente na etapa de separação dos elementos de maior valor. “Exatamente. O processamento do minério o Brasil faz. Agora, a extração das terras raras do minério ainda é o gargalo”, afirma. Em outras palavras: não basta retirar material do subsolo. O valor estratégico aparece quando o país consegue dominar a rota química que transforma minério em óxidos purificados, metais, ligas e, finalmente, ímãs.

Maior controle busca “salvaguardar a segurança nacional” e impedir o uso dos minerais por setores de defesa (Imagem: William Potter/Shutterstock) – Imagem: William Potter/Shutterstock

A China domina a cadeia porque controla mais do que a mina

A liderança chinesa não se resume ao volume extraído. O poder está principalmente no controle das etapas intermediárias e finais da cadeia. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 a China respondeu por cerca de 60% da produção minerada global das terras raras usadas em ímãs, 91% da produção refinada e 94% da fabricação de ímãs permanentes. Isso significa que, mesmo quando outros países extraem terras raras, muitos ainda dependem da China para separar, refinar e transformar esses materiais em insumos industriais de alto valor agregado.

Para Ribeiro, é aí que aparece o ponto mais sensível da cadeia. “Aí aparece o problema do século, porque toda a produção, extração e produção, que é uma atividade muito poluidora, se concentra hoje na China.” A avaliação combina dois fatores que explicam a dependência global: a concentração produtiva e o custo ambiental. Durante décadas, muitos países aceitaram que as etapas mais complexas, caras e ambientalmente sensíveis ficassem concentradas fora de seus territórios. A conta agora aparece na forma de vulnerabilidade industrial.

Pimenta também vê essa concentração como o principal risco do mercado. “Esse é o risco do mercado. Esse é o temor de quem quer entrar nesse mercado pela dominância da China em relação ao fornecimento de todas as matérias-primas e produtos finais relativos a isso. Toda vez que tem uma tensão geopolítica, o pessoal da China tende a fazer restrições de comércio. Eles usam isso como forma de retaliação, de controle ou de pressão política. Então essa questão de gerar um player alternativo é importante para o mundo e para a questão da globalização.”

O fim da confiança ingênua nas cadeias globais

Durante décadas, a lógica dominante era simples: se o comércio global funcionasse sem interrupções, não seria necessário reproduzir toda a cadeia produtiva em outros países. Essa visão começou a mudar com a pandemia, com a guerra comercial entre China e Estados Unidos, com conflitos militares e com sucessivos controles de exportação sobre materiais críticos. Em 2025, a China introduziu controles sobre sete terras raras pesadas e produtos relacionados; depois, ampliou o escopo para outros elementos, equipamentos e tecnologias. A IEA afirma que essas restrições causaram dificuldades de fornecimento para fabricantes fora da China e, em alguns casos, obrigaram empresas a reduzir produção ou até interromper temporariamente operações.

Ribeiro resume esse histórico como uma sequência de choques que desembocou na disputa atual. “Houve um caos mundial. A China parou de vender, alguns países retomaram a produção e a extração, inclusive o Brasil, mas isso também não andou, e isso culminou com a situação de hoje, esse problema geopolítico imenso.” A fala traduz o sentimento de urgência que tomou conta de governos e indústrias: a dependência deixou de ser apenas um problema de preço e passou a ser tratada como risco de soberania tecnológica.

Pimenta define essa aposta anterior como uma “crença ingênua” na globalização. “Os países optaram por deixar isso com a China também pela questão ambiental. Mas outra coisa importante foi uma crença muito forte, quase ingênua, na globalização, no livre comércio, nas supply chains. Se acreditava demais que seriam honrados os contratos e as parcerias comerciais. Hoje a gente vê que não é bem assim. E não é só uma questão da China. O Ocidente e o Oriente, quando existe tensão geopolítica, tendem a usar principalmente o comércio como ferramenta de retaliação.”

A dependência brasileira atravessa setores críticos

No caso brasileiro, a vulnerabilidade não está apenas na mineração ou na indústria de ímãs. Ela aparece em cadeias inteiras que dependem de componentes importados: telecomunicações, eletrônicos, automóveis, equipamentos médicos, geração de energia, defesa, automação e infraestrutura digital. Parte importante das terras raras consumidas no país não chega como minério ou óxido, mas embutida em produtos prontos, componentes, motores, sensores e equipamentos industriais. Essa dependência é difícil de medir, justamente porque os elementos estão escondidos dentro de bens manufaturados.

Para Sidney Ribeiro, a consequência é direta: “Se o Brasil parar de comprar terra rara, o país para, simplesmente. São vários setores críticos. Telecomunicações, veículos elétricos, energia eólica, tudo isso depende desses elementos terras raras.” A frase é forte porque desloca o tema do campo mineral para o cotidiano da economia. Terras raras não são apenas um insumo para mineradoras ou laboratórios; elas sustentam parte da infraestrutura que permite ao país se comunicar, produzir energia, mover veículos, operar equipamentos e participar da economia digital.

Chegada de modelos chineses acessíveis pressiona montadoras tradicionais a buscarem rápida adaptação – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Near shore e friendly shore: a nova geografia das terras raras

A disputa por terras raras também mudou o vocabulário da indústria. Dois termos passaram a aparecer com frequência: near shore e friendly shore. O primeiro se refere à tentativa de produzir mais perto dos centros consumidores. O segundo indica a busca por fornecedores considerados aliados ou politicamente alinhados. A lógica é reduzir a dependência de cadeias longas, concentradas e vulneráveis a disputas comerciais. Nesse cenário, países com reservas relevantes, estabilidade institucional e capacidade tecnológica passam a ser observados com atenção por Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul.

Pimenta vê essa movimentação como uma nova corrida global. “Agora existe uma corrida pelas terras raras. Hoje são dois termos muito usados. O primeiro é o near shore, ou seja, você produzir próximo de onde existe consumo. E no caso dos Estados Unidos existe também o friendly shore, que são fornecedores amigáveis, estrategicamente alinhados. Então a gente acredita que sim, haverá um fomento a outros players para diminuir essa dependência e também regular melhor os preços de mercado. Porque quando existe um único fornecedor, ele controla o valor.”

A própria IEA afirma que a diversificação não depende apenas de abrir novas minas. Segundo a agência, os projetos existentes e anunciados fora da China ainda são insuficientes para atender à demanda futura, especialmente nas etapas de refino e fabricação de ímãs. Pelas projeções da agência, em 2035 a capacidade fora do fornecedor dominante cobriria apenas cerca de metade das necessidades de mineração, um quarto das necessidades de refino e menos de um quinto da demanda por ímãs. O gargalo, portanto, está no conjunto da cadeia produtiva.

Para Pimenta, o objetivo não deve ser apenas exportar recurso mineral, mas ocupar um lugar mais alto na cadeia tecnológica. “Posicionar o Brasil nessa cadeia significa posicionar o país como desenvolvedor de tecnologia, fornecedor de tecnologia. Isso traz um potencial diferente de ser só fornecedor de matéria-prima ou fornecedor de materiais de base. É uma mudança de posicionamento estratégico do país.”

Sidney Ribeiro também avalia que o país tem condições científicas de participar dessa cadeia de forma mais ambiciosa. “O Brasil tem tecnologia, tem possibilidade, tem massa crítica de pesquisadores e gente para trabalhar nessa área e contribuir. Eu acho que dá para fazer, sim.” A fala aponta para um ativo que vai além das reservas minerais: a existência de universidades, centros de pesquisa, pesquisadores e infraestrutura técnica capazes de desenvolver rotas próprias de processamento e aplicação industrial.

Um mercado bilionário em expansão

A oportunidade econômica é grande porque a demanda já existe e tende a crescer. Os ímãs permanentes de terras raras são usados em setores que estão no centro da economia do futuro: mobilidade elétrica, energia renovável, automação, defesa, eletrônica, saúde, robótica, aeroespacial e data centers. A Agência Internacional de Energia afirma que as terras raras se tornaram indispensáveis para tecnologias ligadas à eletrificação, à digitalização e à segurança econômica, mas também destaca que suas cadeias permanecem entre as mais concentradas de todos os minerais críticos.

Pimenta afirma que o mercado já não é uma promessa distante. “O mercado é crescente. São dois pontos específicos. Ele já é um mercado bem estabelecido. Já existe demanda real, neste momento, para os ímãs permanentes de terras raras, para diversas aplicações. E a tendência desse mercado é crescer. A gente está falando hoje de um mercado que tem potencial para chegar até 2030 com 50 bilhões de dólares. Hoje é um mercado na casa dos 13,5 bilhões, alguns autores falam 25 bilhões. Então estabelecer uma cadeia de valor aqui no Brasil traz uma alternativa ao player principal que é a China.”

Ambientalistas e indústria travam batalha sobre o que é melhor para o meio ambiente (Imagem: PARALAXIS/Shutterstock)

A questão ambiental será decisiva para o Brasil

A expansão das terras raras no Brasil também terá de enfrentar um ponto sensível: o impacto ambiental. A extração e o processamento podem envolver uso de reagentes químicos, geração de rejeitos, consumo de água, abertura de cavas, movimentação de solo e riscos associados a elementos radioativos presentes em alguns minerais, como a monazita. Por isso, licenciamento, fiscalização, rastreabilidade e tecnologia de baixo impacto serão decisivos para diferenciar o Brasil de modelos de exploração marcados por passivos ambientais. O SGB observa que as terras raras são consideradas críticas não por serem necessariamente escassas na natureza, mas pela complexidade dos processos envolvidos em sua extração e beneficiamento.

Esse ponto é importante porque a nova corrida global não deve repetir, sem ajustes, a lógica de antigas cadeias minerais. Se o Brasil quiser ocupar espaço em um mercado que se apresenta como base da transição energética, precisará demonstrar que é capaz de produzir com controle ambiental, eficiência tecnológica, segurança jurídica e agregação de valor. Não basta substituir a China no fornecimento de matéria-prima; será necessário construir uma cadeia competitiva, rastreável e ambientalmente defensável.

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A escolha estratégica: exportar minério ou vender tecnologia

O ponto central da corrida pelas terras raras é que a riqueza não está apenas no subsolo. Está na capacidade de transformar recurso mineral em tecnologia. Países que dominam separação, refino, metalurgia e fabricação de componentes capturam mais valor, geram empregos mais qualificados e ganham influência sobre cadeias industriais estratégicas. O Brasil tem reservas relevantes, projetos em desenvolvimento, uma mina em produção, centros de pesquisa e uma janela geopolítica favorável. Mas ainda precisa resolver gargalos de escala, licenciamento, infraestrutura, financiamento, tecnologia e coordenação entre governo, empresas, universidades e indústria.

Para Sidney Ribeiro, esse é um dos grandes paradoxos da vida contemporânea. “É o paradigma da sociedade atual. A gente tem essa dependência incrível desses elementos e essa limitação na obtenção deles.” A frase sintetiza a contradição: quanto mais a sociedade avança em eletrificação, digitalização e automação, mais depende de uma cadeia mineral concentrada, complexa e vulnerável.

Imagem: hyotographics/Shutterstock

O que está em jogo para o país

As terras raras colocam o Brasil diante de uma escolha conhecida, mas agora em um setor muito mais estratégico. O país pode repetir o papel histórico de exportador de matérias-primas ou tentar construir uma posição mais sofisticada, entrando na produção de óxidos purificados, metais, ligas, ímãs e componentes industriais. A diferença é que, desta vez, o recurso está ligado diretamente à transição energética, à mobilidade elétrica, à defesa, à indústria digital e à soberania tecnológica.

Como resume André Pimenta, entrar nessa cadeia significa mais do que abrir minas: significa decidir se o Brasil será apenas origem do minério ou também fornecedor da tecnologia que move parte da economia do futuro. E, como reforça Sidney Ribeiro, o país não parte do zero: tem pesquisadores, centros tecnológicos e conhecimento acumulado. O desafio é transformar essa capacidade em escala industrial antes que a nova corrida global pelas terras raras defina, mais uma vez, quem fornece matéria-prima e quem controla a tecnologia.

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