Esse é um trecho da newsletter Primeiro Olhar, disponível para assinantes do Clube Olhar Digital
A SpaceX se prepara para realizar sua oferta pública inicial (IPO) nesta sexta-feira (12) – o primeiro passo para abrir capital e vender ações nas bolsas de valores. A empresa fundada por Elon Musk deve estrear com uma avaliação de mercado próxima de US$ 1,77 trilhão, patamar que a colocaria entre as mais valiosas do mundo. Para me ajudar e te explicar tudo, tenho comigo a reportagem da Vitória Gomez.
A operação também tem potencial para entrar para a história pelo tamanho. A SpaceX precificou a ação em US$ 135, arrecadando US$ 75 bilhões – o maior volume já captado em uma oferta inicial. O recorde de IPO anterior pertencia à Saudi Aramco, em dezembro de 2019, com captação de US$ 25,6 bilhões e uma avaliação de US$ 1,71 trilhão.
O interesse dos investidores tem sido intenso: segundo a agência Reuters, a demanda pelas ações teria superado os US$ 250 bilhões. O volume supera com folga o valor que a companhia pretendia levantar, entre três e quatro vezes o tamanho planejado.
O entusiasmo do mercado reflete não apenas a posição dominante da SpaceX no setor espacial, mas também a percepção de que a empresa está se tornando muito mais do que uma fabricante de foguetes. Nos documentos apresentados aos investidores, a companhia destaca oportunidades ligadas à inteligência artificial, conectividade global e infraestrutura computacional baseada no espaço.
Os recursos captados devem financiar a expansão dessas iniciativas. Entre elas está o desenvolvimento de data centers orbitais, uma aposta para atender ao crescimento acelerado da demanda por capacidade computacional impulsionada pela inteligência artificial.
Tudo saindo conforme o planejado, a SpaceX estreará na Nasdaq e se tornará a sétima mais valiosa entre as companhias listadas nos EUA.
Para Marcelo Boragini, especialista em renda variável, o movimento mostra que o mercado continua disposto a investir muito dinheiro em empresas que combinam “infraestrutura estratégica, tecnologia e potencial de crescimento exponencial”. Isso porque a SpaceX tem a Starlink, de conectividade via satélite, e a xAI, de inteligência artificial, em seu portfólio.
Por outro lado, há um temor em relação à supervalorização das ações, principalmente em um cenário em que as promessas de Musk – como os data centers orbitais – ainda estão longe de virar realidade.
Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes e professor da FGV, defende que não é bem assim. Ele concorda que há um certo “efeito Elon Musk” no mercado, já que o sucesso da empresa depende da crença em promessas que ainda precisam se provar.
No entanto, há outro fator importante em jogo: inteligência artificial. A ideia é unir as expertises da SpaceX no setor aeroespacial, da Starlink em satélites e conectividade, e da xAI em IA para operar infraestrutura fora da Terra.
“Enquanto gigantes como AWS, Azure e Google Cloud rodam seus supercomputadores presos ao chão, a SpaceX aposta em ser a infraestrutura definitiva da era cognitiva, operando do espaço. É uma aposta de altíssimo risco e execução complexa, mas o mercado de tecnologia atual prefere pagar muito caro pelo domínio do futuro do que focar apenas no lucro do trimestre passado” – avalia Kenneth.
A questão é: as tecnologias prometidas sairão do papel?
Como disse o professor Kenneth Corrêa, é uma aposta de altíssimo risco.
Em fevereiro, nesta mesma newsletter, argumentei com um pé atrás. Naquele momento, a SpaceX anunciava a aquisição da xAI.
Vou relembrar o que escrevi na época, com base em análises da própria imprensa americana.
“Os centros de dados orbitais são para um futuro distante. Neste momento, a xAI precisaria de… dinheiro!
O cenário descrito é o seguinte:
Um dos principais fatores para o crescimento da SpaceX é a Starlink. Contudo, o número de lançamentos de foguetes para colocar seus satélites em órbita a cada ano é limitado.
A xAI precisa de muito financiamento para a construção de sua infraestrutura, enquanto tenta alcançar o Google, a OpenAI e Anthropic no crescente mercado de IA generativa.
De acordo com uma reportagem do The Information, a xAI informou aos investidores que consumiu cerca de US$ 9,5 bilhões nos primeiros nove meses de 2025.
Segundo Tim Farrar, presidente da TMF Associates, empresa de pesquisa do setor de satélites e telecomunicações, que conversou com a CNBC, a união das empresas permite que Musk capitalize sobre o “apetite insaciável” dos investidores por ações de IA, ao mesmo tempo que garante a posição financeira da companhia, apesar dos prejuízos.
Outros trunfos de Musk:
A nomeação de seu sócio e ex-investidor e cliente da SpaceX, Jared Isaacman, como chefe da NASA. Isaacman tem apoiado iniciativas que podem expandir os contratos da agência com a SpaceX.
Na FCC, o presidente Brendan Carr é um defensor da Starlink.
A Comissão Federal de Comércio (FTC) agora é dirigida por Andrew Ferguson, indicado por Trump, em vez de Lina Khan – que bloqueou grandes negócios de tecnologia durante o governo Biden.
Em dezembro, Donald Trump assinou uma ordem executiva que unifica a estrutura regulatória para IAs, limitando o poder dos estados para implementar suas próprias regras.“
Outros pontos de atenção:
A SpaceX ainda é uma empresa deficitária. Em 2025, faturou US$ 18,7 bilhões e teve um prejuízo de US$ 4,9 bilhões.
As ações da empresa podem ser mais voláteis, já que apenas cerca de 4% de seu capital foi disponibilizado no IPO.
A concentração de poder de Elon Musk na companhia limita a influência que acionistas minoritários terão nas decisões da SpaceX.
Ninguém pode cravar se, ou quando, os data centers orbitais sairão do papel. De toda forma, com o aparente sucesso do IPO de logo mais, a líder da corrida espacial ganha ainda mais força. E quem estava para trás na corrida das IAs pode reaparecer. E em ambos os casos, estamos falando da mesma empresa.
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Ah! E a gente contou a história da SpaceX neste vídeo:
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