A ideia de que a creatina ajuda a combater inflamações ganhou força nos últimos anos. Mas uma revisão conduzida por pesquisadores da Unesp sugere que essa fama pode estar à frente das evidências científicas disponíveis.
Após analisar ensaios clínicos realizados com humanos, os pesquisadores concluíram que ainda faltam evidências consistentes para afirmar que a creatina reduz a inflamação de forma significativa, explica a Agência Fapesp.
O que os pesquisadores descobriram
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), com apoio da FAPESP, e reuniu dados de oito ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo. O objetivo foi verificar se a suplementação de creatina realmente influencia biomarcadores ligados à inflamação.
O principal achado da análise foi justamente contrariar uma percepção que ganhou força nos últimos anos. Embora algumas pesquisas com animais e experimentos de laboratório tenham sugerido efeitos positivos, os dados obtidos em seres humanos não mostraram resultados relevantes nos principais indicadores inflamatórios.
Um dos resultados que mais chamaram atenção envolveu a proteína C reativa (PCR), um dos biomarcadores mais analisados pelos cientistas. A redução média observada foi de apenas 0,41 mg/dL, diferença considerada sem relevância clínica.
Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados da pesquisa básica nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos.
Vitor Engracia Valenti, coordenador do grupo e orientador do estudo, à Agência Fapesp.
O pesquisador também alerta que é preciso cautela ao transportar conclusões da pesquisa básica para a prática clínica.
Os poucos casos em que surgiram resultados positivos
Isso não significa que todas as pesquisas tenham apontado na mesma direção. Em situações específicas, principalmente envolvendo atletas submetidos a exercícios intensos e prolongados, alguns trabalhos registraram resultados que sugerem um possível efeito protetor contra o desgaste físico.
Entre os principais pontos observados nos estudos estão:
alguns estudos registraram redução de marcadores inflamatórios após exercícios extremos;
houve indícios de proteção contra danos musculares agudos;
idosos não apresentaram benefícios consistentes;
pacientes com osteoartrite também não mostraram melhora relevante;
os biomarcadores mais analisados tiveram alterações mínimas.
Como as pesquisas avaliaram públicos e situações bastante diferentes, os resultados variaram consideravelmente. Por isso, os autores destacam que ainda não é possível generalizar um efeito anti-inflamatório para todas as pessoas que utilizam creatina.
Segurança continua sendo ponto forte
A conclusão não significa que a creatina perdeu sua utilidade. O que o estudo questiona é uma característica específica que se popularizou nos últimos anos.
A revisão derruba uma crença bastante difundida sobre o suplemento, mas não altera o que já se sabe sobre sua segurança. Nos trabalhos analisados, a creatina continuou apresentando boa tolerabilidade, inclusive em protocolos com doses elevadas e em diferentes grupos de participantes.
Valenti ressalta que os achados também não colocam em dúvida os benefícios já conhecidos da suplementação para desempenho físico e força muscular. “A creatina pode favorecer a força e o desempenho muscular durante o exercício e, em alguns contextos, pode contribuir indiretamente para a funcionalidade.”
Para Valenti, a revisão ajuda a mostrar o quanto esse tema ainda precisa ser estudado e pode incentivar novas pesquisas nos próximos anos. Enquanto isso, a recomendação permanece a mesma: antes de iniciar a suplementação, vale buscar orientação de profissionais de saúde para avaliar as necessidades de cada pessoa.
O post A creatina é mesmo anti-inflamatória? Cientistas foram atrás da resposta apareceu primeiro em Olhar Digital.





