Construir um escudo contra tempestades solares parece coisa de cinema. Afinal, estamos falando de fenômenos que acontecem no Sol, uma estrela gigantesca localizada a cerca de 150 milhões de quilômetros da Terra. Ainda assim, pesquisadores acreditam que, no futuro, talvez seja possível reduzir os efeitos dessas explosões antes que elas causem prejuízos ao planeta.
Esses eventos, também chamados de erupções solares, são capazes de lançar enormes quantidades de energia e partículas carregadas para o espaço. “Uma explosão solar é uma liberação súbita e intensa de energia magnética na atmosfera do Sol, frequentemente acompanhada por ejeções de massa coronal (CME): nuvens de partículas carregadas, entrelaçadas por campos magnéticos, que são lançadas para o espaço”, explicou a física com PhD em astronomia Adriana Valio, professora titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisadora do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (CRAAM), em entrevista ao Olhar Digital.
Representação visual de uma superexplosão solar em direção à Terra. – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
Quando esse material atinge a Terra, pode provocar diversos problemas tecnológicos, desde falhas em comunicações por rádio até danos em satélites e sistemas de navegação. “Se for direcionada para a Terra, as partículas e campos magnéticos da CME podem causar tempestades geomagnéticas e induzir correntes elétricas capazes de sobrecarregar cabos submarinos, satélites e roteadores de longa distância”, disse Adriana.
Alertas antecipados ajudam a reduzir danos na Terra
Atualmente, grande parte da infraestrutura moderna depende de satélites para funcionar corretamente. Sistemas bancários, redes de telecomunicações, transporte aéreo e atividades agrícolas são alguns dos segmentos que utilizam informações transmitidas do espaço diariamente.
Em maio de 2024, por exemplo, uma forte tempestade solar interferiu nos sistemas de posicionamento usados por tratores agrícolas nos Estados Unidos. Como muitos equipamentos dependem do GPS para plantar e colher com precisão, a interrupção causou prejuízos ao setor estimados em cerca de US$500 milhões.
Hoje, as principais formas de defesa envolvem medidas preventivas. Conforme explica Adriana, agências como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), nos Estados Unidos, a Agência Espacial Europeia (ESA), na Europa, e o Centro de Previsão de Clima Espacial (EMBRACE), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no Brasil, acompanham continuamente a atividade solar e emitem alertas com horas de antecedência. “Como as ejeções de massa coronal levam entre um e quatro dias para alcançar a Terra, há tempo suficiente para acionar protocolos de emergência.”
Erupções solares disparam jatos de partículas e campos magnéticos do Sol que podem atingir a Terra. – Créditos: JHelioviewer/SDO/NASA
Além do monitoramento, a prevenção envolve também a proteção técnica. Satélites podem receber blindagens mais resistentes e operadores podem alterar temporariamente suas atividades quando há risco de tempestades espaciais. No entanto, essas estratégias apenas diminuem os danos e não impedem que o fenômeno aconteça.
Tecnologia poderia diminuir em até 50% a intensidade dos eventos
Foi justamente pensando nessa limitação que o pesquisador Brian Walsh, da Universidade de Boston, nos EUA, desenvolveu uma proposta ousada. Em vez de apenas prever as tempestades solares, ele quer criar um sistema capaz de enfraquecer seus efeitos antes que atinjam a Terra.
A ideia foi apresentada em um estudo publicado este mês na revista científica Space Weather. Segundo os testes realizados por meio de simulações computacionais, a tecnologia poderia reduzir em até 50% a intensidade de grandes tempestades geomagnéticas, fenômenos associados às interações entre o vento solar e o campo magnético terrestre.
Walsh compara a situação a uma cidade construída próxima de um rio sujeito a enchentes. “É como as pessoas em uma vila que veem um rio transbordando. Talvez elas consigam prever quando isso vai acontecer, mas provavelmente seria ainda melhor se pudessem construir um muro de contenção. É isso que estamos propondo aqui”, disse o pesquisador em um comunicado.
O sistema recebeu o nome de StormWall – algo como “Muralha contra Tempestades”. A proposta prevê o lançamento de seis espaçonaves posicionadas em órbita geossíncrona, acompanhando a rotação da Terra. Cada uma delas transportaria um material especial destinado a reforçar temporariamente as defesas naturais do planeta.
Se for direcionada para a Terra, as partículas e campos magnéticos da CME podem provocar consequências leves a graves no planeta. – Crédito: Muratart/Shutterstock
Segundo Walsh, a inspiração veio da própria natureza. Em determinadas situações, partículas da atmosfera terrestre escapam para regiões mais externas da magnetosfera – a bolha magnética que protege a Terra da radiação espacial. Esse processo ajuda a fortalecer temporariamente essa barreira protetora.
A equipe liderada por Walsh imaginou que seria possível ampliar artificialmente esse mecanismo. Para isso, as espaçonaves liberariam elementos químicos como lítio ou bário. Ao serem expostos à luz solar, esses materiais passariam por um processo chamado fotoionização, adquirindo carga elétrica e formando uma nuvem de plasma.
Nas simulações realizadas pela equipe, esse plasma atuaria como uma espécie de escudo adicional. A nuvem dificultaria a transferência de energia das tempestades solares para a magnetosfera, desviando parte dos efeitos do fenômeno antes que eles alcançassem o planeta.
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Proposta requer investimento bilionário
Embora a proposta pareça uma ideia fantasiosa, Walsh afirma que ela se baseia em princípios físicos já conhecidos pela ciência. Segundo ele, tanto a quantidade de material necessária quanto a capacidade de lançamento exigida estão dentro das possibilidades tecnológicas atuais.
O principal desafio, no entanto, continua sendo financeiro. Colocar seis espaçonaves em órbita carregando grandes quantidades de material custaria bilhões de dólares. Além disso, o sistema seria descartável: após a liberação da carga, não haveria como reutilizá-lo ou reabastecê-lo.
Mesmo assim, os pesquisadores argumentam que o investimento pode valer a pena. Uma tempestade geomagnética extrema, semelhante à registrada em 1859 durante o famoso Evento Carrington, poderia causar danos trilionários à infraestrutura moderna, especialmente às redes elétricas e aos sistemas espaciais.
A equipe já trabalha em formas de tornar o projeto mais eficiente. Entre as alternativas estudadas estão reduzir a quantidade de material utilizada, prolongar a vida útil do sistema por meio de liberações graduais e encontrar órbitas mais adequadas para a operação.
Outro aspecto analisado é o impacto ambiental. Segundo Walsh, os materiais liberados não permaneceriam indefinidamente ao redor da Terra. A própria dinâmica da magnetosfera expulsaria essas partículas em poucas horas, reduzindo o risco de acúmulo de resíduos espaciais.
O projeto também inaugura uma área pouco explorada chamada geoengenharia espacial. Diferentemente das pesquisas tradicionais, focadas em observar e prever o clima espacial, a proposta busca interferir diretamente no ambiente ao redor da Terra para aumentar sua proteção.
Por enquanto, o StormWall existe apenas na teoria e em simulações. Ainda serão necessários muitos testes e investimentos antes que algo semelhante possa ser colocado em prática. Mas a ideia mostra que a ciência começa a considerar uma possibilidade antes impensável: não apenas prever as tempestades solares, mas também encontrar formas de reduzir seus impactos sobre a sociedade moderna.
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