Meteoritos guardam segredos sobre o passado da Terra e a origem do Sistema Solar

A história da Terra começou a ser escrita muito antes do nascimento do próprio planeta. Para investigar esse período remoto, cientistas recorrem a uma fonte improvável de informações: os meteoritos. Essas rochas espaciais preservam registros químicos de uma época em que os planetas ainda estavam se formando, funcionando como verdadeiros arquivos naturais do espaço.

No início, o Sistema Solar era um ambiente caótico, repleto de colisões, fragmentos e corpos em formação. Parte desse material sobreviveu ao longo de bilhões de anos e ainda hoje chega ao planeta, permitindo que pesquisadores acessem pistas diretas sobre a origem e a evolução dos elementos químicos fundamentais. Ao analisá-los, a ciência consegue entender como elementos essenciais para a vida, como o fósforo e o nitrogênio, estavam distribuídos nas fases iniciais do nosso sistema.

Pedaço de 63 gramas do meteorito Aguas Zarcas. – Crédito: Mike Farmer/Centro Buseck de Estudos de Meteoritos/Universidade Estadual do Arizona / Instituto SETI.

O astrobiólogo e professor de Geobiologia do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), Douglas Galante, explica que diferentes tipos de meteoritos registram momentos distintos dessa história. Segundo ele, a comparação entre essas amostras ajuda a reconstruir a evolução química do Sistema Solar.

Galante destaca que os meteoritos do tipo metálico são particularmente antigos e se originam dos núcleos de corpos que se formaram logo nos primeiros estágios do Sistema Solar. Já os condritos rochosos representam uma fase posterior, ligada a corpos que surgiram alguns milhões de anos depois.

Estudos baseados em cronologias de isótopos confirmam que a diferenciação desses primeiros asteroides em corpos com núcleo e crosta distintos ocorreu incrivelmente rápido, nos primeiros dois milhões de anos após o nascimento do Sistema Solar.

Douglas Galante, astrobiólogo, professor de Geobiologia do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), falou ao Olhar Digital sobre a importância dos meteoritos. – Créditos: Divulgação/USP

“Os meteoritos metálicos vêm dos núcleos dos primeiros corpos que se formaram, há mais de 4,5 bilhões de anos, menos de um milhão de anos depois dos primeiros sólidos. Os condritos rochosos vieram de corpos que se formaram alguns milhões de anos depois. Comparando os dois grupos, conseguimos reconstruir como o fósforo e o nitrogênio estavam distribuídos pelo Sistema Solar e como essa distribuição mudou com o tempo”, explicou o professor em entrevista ao Olhar Digital.

Galante ressalta ainda que, em muitos casos, especialmente nos meteoritos metálicos, é necessário recorrer a modelos e experimentos laboratoriais para reconstituir a composição original, já que essas rochas passaram por transformações ao longo de bilhões de anos. 

Além de ajudarem a reconstruir o passado, os meteoritos têm uma grande vantagem prática: chegam até a Terra sem a necessidade de missões espaciais complexas, o que amplia significativamente o volume de material disponível para a ciência.

Segundo o engenheiro químico Gabriel Gonçalves Silva, pós-doutorando em astrobiologia e geoquímica de microfósseis na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), a Terra é constantemente bombardeada por fragmentos de diferentes origens, o que permite uma coleta natural e contínua de amostras espaciais. Muitas vêm de corpos que já não existem mais, fragmentados por colisões e processos dinâmicos que preservaram informações impossíveis de serem observadas diretamente hoje.

Gabriel Gonçalves, doutor em Química e pós-doutorando em geoquímica de microfósseis, reforça as vantagens dos meteoritos. – Crédito: Arquivo pessoal

Em sua análise, “os meteoritos são valiosos para o estudo do Sistema Solar porque chegam naturalmente à Terra e representam amostras diretas de corpos que se fragmentaram ao longo da história”.

Silva destaca que, enquanto missões espaciais de ponta trazem pequenas quantidades de material a um custo elevado, os meteoritos oferecem um fluxo contínuo e mais amplo de amostras. Um exemplo recente do valor dessas missões de retorno é a OSIRIS-REx, da NASA, que coletou amostras do asteroide Bennu. A análise desse material revelou uma surpreendente presença de fosfato puro e componentes ricos em carbono e nitrogênio,  sugerindo que o asteroide pode ter se fragmentado de um antigo mundo oceânico primitivo e reforçando o papel dessas rochas como blocos de construção da vida no Sistema Solar. 

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Quanto vale um meteorito?

Conforme noticiado pelo Olhar Digital, há cerca de um ano, um fragmento de 24,5 quilos de rocha marciana, catalogado como NWA 16788, foi arrematado por US$5,3 milhões em um leilão promovido pela Sotheby’s.

O valor – astronômico em mais de um sentido – ilustra a transformação de um objeto de estudo geológico em uma das classes de ativos mais exclusivas e voláteis do mercado global. À medida que o interesse pela exploração espacial se intensifica, o mercado de meteoritos deixou de ser um nicho para se tornar um setor altamente capitalizado.

Essa valorização trouxe um desafio crescente: a disputa entre o valor comercial e o potencial científico. Amanda Tosi, química, mestre e doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do grupo As Meteoríticas, explica que a raridade é o principal fator de precificação.

Amanda Tosi e suas companheiras do grupo “As Meteoríticas”, Elizabeth Zucolotto e Diana Andrade, pesquisadoras UFRJ que analisaram o meteorito Santa Filomena. – Crédito: Diogo Vasconcellos

Segundo ela, se um meteorito é comum, como os condritos ordinários ou metálicos, seu valor é menor. “Agora, se você fala de um meteorito lunar, marciano, ou um meteorito raro, como um angrito, esse valor começa a aumentar. Se só tem um dele, é mais caro ainda”.

A precificação, no entanto, é regida por uma lógica de mercado sem regras fixas. Amanda destaca que o valor de um meteorito depende de fatores como a raridade da amostra, o momento da queda e a disponibilidade no mercado. “Não existe um valor amarrado. São vários fatores. Se foi uma chuva de meteoritos, como em Santa Filomena, o valor começa alto e vai diminuindo conforme mais fragmentos são encontrados”, explica a geóloga.

Ela se refere ao episódio ocorrido em agosto de 2020, quando uma chuva de meteoritos atingiu a zona rural de Santa Filomena, em Pernambuco. O evento, que espalhou centenas de fragmentos pelo campo, rapidamente atraiu caçadores, colecionadores e pesquisadores de todo o mundo para o pequeno município. A súbita abundância de material disponível alterou drasticamente a dinâmica de valorização local, exemplificando como o mercado reage ao volume de oferta de uma queda recente.

A especialista diz que o primeiro passo para quem encontrar uma rocha suspeita é consultar especialistas. “A primeira coisa, desconfiou de uma pedra, faça o teste do diagrama que tem na internet, disponível em meteoritos.com.br. Se o resultado indicar que possivelmente é um meteorito, entre em contato com um pesquisador de alguma universidade”, orienta a química.

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