G7: Como magnatas da IA passaram a ditar os rumos da geopolítica global

A imagem dos líderes das maiores economias do mundo reunidos em Évian-les-Bains, na França, dividindo a mesa com magnatas da inteligência artificial (IA) ilustrou uma nova dinâmica geopolítica: a tecnologia privada tornou-se infraestrutura de poder e soberania nacional. No almoço de trabalho da cúpula do G7, executivos como Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Demis Hassabis (Google DeepMind) não compareceram como convidados do setor comercial, mas despacharam e tiveram reuniões bilaterais nas quais foram tratados como pares de chefes de Estado. 

O encontro deixou claro que o controle sobre modelos de IA, chips e capacidade computacional é um campo de batalha importante na disputa global contemporânea. E o pano de fundo foi o choque de realidade provocado pelo governo dos Estados Unidos dias antes do evento, ao bloquear de forma inédita o acesso estrangeiro aos modelos Mythos 5 e Fable 5 – os mais avançados da Anthropic atualmente – por motivos de segurança nacional. 

A ativação desse “botão de desligamento” acabou com a ilusão de que o acesso às ferramentas americanas seria garantido, o que empurrou aliados ocidentais para uma busca urgente por autonomia.

Tecnologia virou geopolítica – e big techs viraram atores diplomáticos

A corrida pela IA deixou definitivamente o campo abstrato dos softwares e algoritmos para se consolidar como uma disputa material por infraestrutura física, envolvendo megadata centers, fornecimento de energia e cabos submarinos, segundo o portal Modern Diplomacy. O think tank alemão DGAP já apontava, em fevereiro de 2026, que o controle sobre a infraestrutura digital tinha voltado a ser o centro da geopolítica mundial. Quem domina essas estruturas físicas e os recursos naturais necessários para mantê-las em funcionamento detém as rédeas da economia digital.

Essa dependência estrutural cria vulnerabilidades profundas para governos que construíram seus Estados digitais sobre nuvens e softwares de corporações estrangeiras. O DGAP classifica isso como uma forma de submissão estratégica na atual competição entre grandes potências. Sem o controle físico dos data centers ou a capacidade de gerir as demandas de energia e água que sustentam a computação de alto desempenho, os países perdem a própria soberania operacional. A infraestrutura de IA tornou-se, portanto, o novo eixo físico do poder global.

Canetada do presidente dos EUA, Donald Trump, transformou discussão de mercado numa crise de segurança – Imagem: PFG7/Philémon Henry

Diante desse cenário, executivos do Vale do Silício passaram a atuar como atores diplomáticos e interlocutores em segurança e economia global. Durante a cúpula do G7, realizada entre 15 e 17 de junho, a agência Axios destacou a cena histórica de CEOs de tecnologia sentados à mesa de negociações e tratados quase como chefes de Estado soberanos, com ministros e membros de gabinetes disputando sua atenção. Essa relevância política reflete o peso de corporações privadas que controlam os modelos avançados de IA nos quais a infraestrutura crucial das nações opera hoje em dia.

Esses empresários compareceram a Évian-les-Bains como pares diplomáticos dos líderes das maiores economias do mundo. E exerceram influência sobre diretrizes de blocos internacionais. Essa fusão entre o poder corporativo tecnológico e a engrenagem estatal também se manifestou de forma clara no papel estratégico desempenhado por Elon Musk na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. O almoço a portas fechadas no G7 selou o fato de que, no cenário internacional de 2026, controlar a tecnologia de ponta confere a essas empresas uma influência política equivalente à de Estados nacionais.

IA: poder econômico e militar

O domínio sobre a IA tornou-se o principal divisor de águas da economia moderna. Países que controlam essa tecnologia têm a capacidade de automatizar setores, alavancar a produtividade e ditar as regras de novos nichos de mercado. A agência Reuters apontou o crescente temor das lideranças europeias de ficarem obsoletas e presas ao monopólio tecnológico dos Estados Unidos. Isso porque empresas e governos do Velho Continente continuam dependentes da infraestrutura de nuvem, chips e modelos fundacionais controlados por norte-americanos.

Essa ansiedade europeia ganhou contornos mais fortes nas palavras do CEO da empresa de IA Cohere, Aidan Gomez. Em artigo publicado na revista Fortune, Gomez alertou os líderes do G7 de que as nações enfrentam uma escolha drástica e inevitável: ou investem pesadamente no desenvolvimento de uma “IA soberana” para assegurar sua autonomia e proteção de dados, ou aceitam uma condição de “servidão digital”. Para o executivo, “alugar” a IA de provedores centralizados estrangeiros significa abrir mão do controle operacional. E colocar o futuro econômico de um país à mercê de decisões corporativas externas.

Dias antes da cúpula do G7, o governo dos EUA impôs restrições de exportação sobre os modelos Fable 5 e Mythos 5, da Anthropic – Imagem: gguy/Shutterstock

No entanto, o fator que transformou essa discussão de mercado numa crise de segurança foi uma canetada de Washington. Dias antes da cúpula do G7, o governo dos Estados Unidos impôs restrições de exportação sobre os modelos Fable 5 e Mythos 5, da Anthropic, o que bloqueou o acesso de cidadãos estrangeiros. O governo americano justificou o bloqueio com base na segurança nacional, alegando que os modelos apresentavam capacidades sem precedentes de identificar e explorar vulnerabilidades cibernéticas – e, portanto, poderiam funcionar como ferramentas de ataque digital.

A aplicação de controles de exportação (medidas historicamente reservadas para armas pesadas e hardware militar) a um software comercial mostrou ao mundo que a IA de ponta é tratada por Washington como um ativo estratégico de defesa e soberania. E não apenas como um produto de mercado. A decisão serviu como um choque de realidade definitivo para aliados ocidentais, segundo o Euronews. O episódio demonstrou que o acesso a essas tecnologias não é garantido. E que governos sem infraestrutura própria correm o risco real de ter seus sistemas paralisados por interesses políticos de potências estrangeiras.

Regulação ou disputa de influência?

A regulação da IA já foi uma busca por diretrizes éticas. Mas, com o tempo, se transformou numa ferramenta de demarcação de território comercial e político. O plano de ação para IA da administração norte-americana deixa essa intenção explícita ao estabelecer como meta consolidar a tecnologia dos Estados Unidos como o “padrão de ouro global”. A estratégia de Washington visa garantir que os países aliados construam seus ecossistemas digitais obrigatoriamente sobre a infraestrutura e as ferramentas desenvolvidas em solo americano. A ideia é perpetuar a liderança geopolítica do país no setor.

A União Europeia, por sua vez, tenta usar seu peso regulatório, por meio de legislações como o AI Act, como um escudo para contrabalancear o monopólio e tentar proteger o seu mercado interno. No entanto, análises como a do think tank DGAP apontam que a tentativa de impor regras sem possuir infraestrutura própria de data centers e processamento gera um cenário de “influência sem agência”. Na prática, as exigências de conformidade sufocam iniciativas e startups locais, enquanto grandes corporações americanas absorvem os custos regulatórios – que, por sua vez, viram barreiras para a entrada de novos concorrentes.

Debate regulatório na cúpula do G7 transformou-se em negociações para definir quem terá acesso às tecnologias de ponta – Imagem: PFG7/Philémon Henry

Diante desse impasse, o debate regulatório na cúpula do G7 transformou-se numa mesa de negociações para definir quem terá acesso preferencial às tecnologias restritas. Como resposta direta ao bloqueio imposto aos modelos da Anthropic, líderes mundiais debateram a criação de um mecanismo de “Parceiros Confiáveis”. Esse sistema funcionaria como uma credencial diplomática, por meio da qual se permitiria que nações alinhadas contornassem as restrições de exportação de Washington para acessar os melhores modelos de IA. 

O arranjo consolida a nova ordem tech: o acesso à inovação, antes ditado pelas forças de mercado, passa a ser viabilizado conforme o nível de alinhamento político com a potência que controla o código.

E o Brasil nisso tudo?

O Brasil participou da cúpula de Évian como convidado e adotou uma postura de distanciamento da agenda das potências ocidentais. Para você ter ideia, o país aderiu a três dos oito documentos temáticos divulgados no encontro. Na avaliação do governo brasileiro, a maior parte dos textos finais foi deliberadamente desidratada e moldada para evitar o veto de Trump, com omissão de debates sobre transição climática e o papel de organismos multilaterais, por exemplo. 

No plano da soberania digital, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou o fórum para criticar a concentração de mercado das big techs. Lula alertou que os países em desenvolvimento estão participando da economia digital majoritariamente como exportadores de insumos e meros fornecedores de dados para alimentar modelos estrangeiros.

O Brasil aderiu a três dos oito documentos temáticos da cúpula do G7 – Imagem: Ricardo Stuckert/PR

A única assinatura brasileira diretamente ligada ao ecossistema tecnológico foi a declaração sobre a proteção de menores de idade no ambiente digital. O documento exige que os provedores de internet adotem verificação de idade e configurações seguras por padrão, com atenção específica aos riscos de ferramentas de IA conversacional e à criação de deepfakes de abuso infantil. O aval de Brasília já era esperado, visto que o país possui regras próprias no setor (o ECA Digital) e buscou o G7 para tentar projetar sua experiência regulatória internacionalmente.

Por outro lado, o ponto de ruptura mais estratégico do Brasil foi a recusa em assinar a declaração sobre minerais críticos. O documento do G7 propõe a criação de uma aliança ocidental para reduzir a dependência da China a menos de 60% no fornecimento de terras raras e componentes essenciais para o hardware tecnológico até 2030. O Brasil, que possui uma das maiores reservas desses minerais no planeta, rejeitou o texto por considerá-lo extrativista. A posição brasileira reforçou que o país não aceitará o papel de fornecedor de matéria-prima barata para data centers do hemisfério norte. A exigência é o direito de industrializar e agregar valor às próprias cadeias produtivas.

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