Cientistas criam célula artificial com funções de vida

Cientistas da Universidade de Minnesota anunciaram um avanço curioso — e, em certo ponto, difícil de classificar. Eles criaram células sintéticas capazes de se alimentar, crescer e até se reproduzir.

Não é vida como conhecemos. Mas também não é apenas química simples.

Batizadas de SpudCell, essas estruturas representam um passo inicial na tentativa de reproduzir processos básicos da vida em laboratório, explica matéria no The New York Times. E isso já levanta discussões importantes sobre o que, afinal, pode ser considerado “vivo”.

Assim como as células vivas (foto), as SpudCells também executam funções biológicas complexas. – Imagem: Komsan Loonprom/Shutterstock

Uma célula feita em laboratório — mas não exatamente viva

As SpudCells são sistemas sintéticos projetados para imitar funções essenciais de uma célula real. Elas não são organismos completos, mas conseguem fazer coisas que chamam a atenção até de pesquisadores experientes: crescem, se dividem e competem por recursos.

O sistema é bem mais simples do que o das células naturais. Enquanto o genoma humano tem cerca de 20 mil genes e a bactéria Escherichia coli passa de 4 mil, as SpudCells operam com apenas 36 genes.

Entre os componentes usados no experimento estão:

36 genes responsáveis por funções básicas como copiar DNA

proteínas e moléculas que permitem reações químicas essenciais

vesículas lipídicas que funcionam como membranas artificiais

ribossomos fornecidos de fora para produzir proteínas

Como tudo isso foi montado na prática

O projeto foi liderado por Kate Adamala, bióloga sintética da Universidade de Minnesota. A equipe misturou dezenas de componentes químicos até formar estruturas capazes de executar reações típicas de células vivas.

Essas estruturas receberam genes de vírus e da bactéria Escherichia coli. A partir daí, o sistema começou a se organizar sozinho em condições controladas de laboratório.

O ponto interessante aqui é justamente esse: não é uma simulação digital. É matéria reagindo com matéria.

As células surgem quando os ingredientes são misturados. Depois disso, conseguem até se dividir graças a proteínas que dobram suas membranas até a separação.

Parte dos componentes das SpudCells vem da Escherichia coli (imagem), essencial para simular funções básicas da vida. – Imagem: Kateryna Kon/Shutterstock

Ainda não é vida — e isso importa

Apesar do avanço, ninguém está dizendo que as SpudCells são organismos vivos completos. A própria criadora do sistema, Kate Adamala, resume essa cautela ao afirmar: “a vida não é binária”, destacando que não existe uma linha clara entre vivo e não vivo.

Outros pesquisadores também reagiram ao resultado. John Glass, do J. Craig Venter Institute, disse que é impressionante ver tantos elementos funcionando juntos em um único sistema. Já Drew Endy, da Universidade Stanford, descreveu o experimento como algo construído, mas que ainda se comporta como uma célula.

O que pode vir depois disso

As possibilidades são amplas. O estudo pode ajudar a entender os limites mínimos da vida e, no futuro, abrir caminho para aplicações como produção de medicamentos ou captura de carbono.

Em teoria, versões futuras poderiam fabricar substâncias complexas que hoje são difíceis de produzir em laboratório.

Para organizar esse avanço, os pesquisadores criaram uma iniciativa chamada Biotic, que pretende reunir cientistas e facilitar o acesso aos materiais necessários para criar novas SpudCells.

Mas há um ponto sensível. Sistemas mais avançados podem levantar preocupações de uso indevido. Por isso, a ideia é manter o desenvolvimento aberto e colaborativo.

Drew Endy comparou o momento atual ao primeiro voo dos irmãos Wright. Algo simples, curto, mas que mudou tudo depois.

Por enquanto, as SpudCells ainda dependem de insumos externos e sobrevivem por poucas gerações. Mesmo assim, o avanço já é visto como um marco importante da biologia sintética.

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