Quando falamos sobre violência contra a mulher, é comum pensarmos primeiro na agressão física. Mas a violência pode começar muito antes de um empurrão, um tapa ou uma ameaça. Ela também pode aparecer como controle, coerção e invasão da autonomia sobre o próprio corpo.
Neste Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, é importante falar sobre uma dimensão que ainda é pouco discutida: a violência sexual e reprodutiva dentro dos relacionamentos.
Uma mulher tem o direito de decidir se quer ou não ter relações sexuais. Também deve poder escolher se deseja engravidar, quando pretende ter filhos e qual método contraceptivo deseja utilizar. Essas decisões não precisam da autorização do parceiro.
Quando um companheiro impede o uso de anticoncepcionais, pressiona por uma gravidez, sabota um método contraceptivo, retira o preservativo sem consentimento ou insiste em uma relação sexual depois de ouvir um “não”, não estamos diante de uma simples divergência entre o casal. Existe uma violação da autonomia da mulher.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que a violência por parceiro íntimo inclui agressões físicas, violência sexual, abuso psicológico e comportamentos de controle. Globalmente, cerca de uma em cada três mulheres já sofreu violência física e/ou sexual ao longo da vida.
Como ginecologista, acredito que esse assunto também precisa entrar no consultório. Uma consulta de rotina pode ser uma oportunidade para perguntar à paciente, de maneira acolhedora e sem julgamentos, se ela consegue tomar decisões sobre sua saúde sexual e reprodutiva livremente.
Isso porque as consequências da violência ultrapassam o sofrimento emocional. Ela pode estar relacionada a gravidez não planejada, infecções sexualmente transmissíveis, problemas ginecológicos e outros impactos sobre a saúde sexual e reprodutiva.
Também precisamos desconstruir algumas frases que parecem banais, mas escondem relações de controle: “ele não gosta que eu tome anticoncepcional”, “ele diz que preservativo é desnecessário”, “sou casada, então tenho que aceitar” ou “eu não queria, mas acabei cedendo”.
Relacionamento não significa posse. Casamento não elimina o consentimento. Amor não dá ao outro o direito de decidir sobre o nosso corpo.
Consentimento precisa existir em cada relação sexual e pode ser retirado a qualquer momento. Da mesma forma, a decisão sobre contracepção e reprodução deve ser construída com informação, liberdade e autonomia.
O Agosto Lilás nos lembra que combater a violência também significa reconhecer seus sinais mais silenciosos. E a saúde da mulher começa, entre outras coisas, pelo direito de ser ouvida, respeitada e dona das próprias escolhas.
Nenhuma relação deve exigir que uma mulher abra mão da autonomia sobre o próprio corpo para provar que ama alguém.
*Karoline Prado é médica ginecologista e obstetra, com atuação voltada à saúde íntima feminina em todas as fases da vida. Pós-graduada em procedimentos íntimos, incluindo laser e cirurgia íntima, trabalha com foco em bem-estar, funcionalidade e qualidade de vida da mulher.






