Em meio à popularização dos chamados “chips da beleza” nas redes sociais, os implantes hormonais passaram a despertar interesse de pessoas que buscam emagrecimento, ganho de massa muscular, aumento da libido, mais disposição ou até estratégias relacionadas ao envelhecimento. No entanto, quando o assunto envolve hormônios, a busca por resultados estéticos não deve substituir a avaliação médica.
O médico Guthyerres Carvalho alerta que a indicação de qualquer terapia hormonal precisa considerar o histórico clínico, os sintomas, o exame físico e os exames laboratoriais do paciente. Para ele, transformar o hormônio em uma solução para diferentes objetivos estéticos pode levar à banalização de um tratamento que exige acompanhamento.
Implante hormonal é sempre proibido?
De acordo com Guthyerres Carvalho, os implantes hormonais são uma forma de administração de medicamentos e podem envolver diferentes substâncias, como testosterona e estradiol. A questão central, segundo o médico, está na indicação e na finalidade do tratamento.
No Brasil, o uso de implantes hormonais com finalidade exclusivamente estética é proibido. Isso não significa, porém, que toda utilização de implantes hormonais seja proibida ou que essa forma de administração não possa fazer parte de determinados tratamentos quando houver indicação médica.
“Quando falamos de hormônio, estamos falando de uma substância capaz de interferir em diferentes sistemas do organismo. Não é porque o paciente percebe mais disposição, aumento da libido ou mudança na composição corporal que aquele uso está sendo benéfico para a saúde. Resultado estético e segurança médica são coisas completamente diferentes”, explica Guthyerres.
O diagnóstico deve vir antes da prescrição
Para o especialista, a decisão de iniciar uma terapia hormonal não deve partir apenas do desejo do paciente de utilizar determinada substância. Antes disso, é necessário investigar o que está provocando os sintomas apresentados e verificar se existe, de fato, uma condição clínica que justifique o tratamento.
“Reposição hormonal não deveria começar pela vontade de usar um hormônio. Ela começa pela investigação do paciente. Sintomas, histórico clínico, exame físico e exames laboratoriais precisam ser analisados em conjunto. Um número isolado em um exame não é suficiente para decidir um tratamento”, afirma.
Cansaço, alterações de humor, redução da libido e dificuldade para emagrecer, por exemplo, podem estar relacionados a diversos fatores. Sono inadequado, alimentação desequilibrada, estresse, sedentarismo e outras condições de saúde também podem produzir sintomas semelhantes.
“É muito fácil alguém chegar ao consultório dizendo que está cansado e acreditar que precisa de testosterona. Mas cansaço pode estar relacionado ao sono, alimentação, estresse, sedentarismo e diversas condições de saúde. O diagnóstico precisa vir antes da prescrição”, reforça o médico.
Por que o implante exige acompanhamento?
Uma das características do implante é a liberação da substância ao longo de determinado período. Essa característica pode trazer praticidade, mas também reforça a necessidade de uma indicação individualizada e de acompanhamento profissional.
Segundo Guthyerres Carvalho, existe o risco de o paciente interpretar a praticidade do método como uma espécie de tratamento automático.
“Existe uma falsa sensação de praticidade. A pessoa pensa: ‘coloquei e agora não preciso me preocupar’. Só que o organismo continua sendo exposto àquela substância. Qualquer terapia hormonal precisa ter indicação, dose adequada e acompanhamento”, explica.
A resposta do organismo pode variar de acordo com a substância utilizada, a dose, o tempo de exposição e as características individuais de cada paciente. Por isso, o acompanhamento não deve terminar após a colocação do implante.
O que está por trás do chamado “chip da beleza”?
A expressão “chip da beleza” ganhou popularidade especialmente nas redes sociais, associada a promessas de emagrecimento, definição corporal, aumento de massa muscular, libido e disposição. Para Guthyerres, porém, o nome pode transmitir uma ideia equivocada de simplicidade.
“Quando chamamos de ‘chip da beleza’, parece que estamos falando de um procedimento estético como qualquer outro. Não estamos. Estamos falando da administração de substâncias que podem modificar o funcionamento do organismo. Hormônio é medicamento e precisa ser tratado como medicamento”, alerta.
O médico recomenda que pacientes desconfiem de propostas que apresentem o implante como uma solução capaz de atender simultaneamente a diferentes objetivos, especialmente quando a indicação não está baseada em diagnóstico.
Informação e acompanhamento fazem parte do cuidado
Antes de iniciar qualquer tratamento hormonal, Guthyerres Carvalho orienta o paciente a compreender qual é o diagnóstico, por que determinada substância foi escolhida, quais benefícios são esperados, quais riscos podem existir e quais alternativas estão disponíveis.
“Se existe deficiência ou uma condição clínica que justifique tratamento, o médico deve explicar diagnóstico, benefícios, riscos e alternativas. Se a justificativa é apenas ficar mais definido, emagrecer ou melhorar performance, o paciente precisa entender que está entrando em outro território. Hormônio não deve ser atalho estético”, conclui.
Para a saúde e o bem-estar, a principal recomendação é não transformar uma tendência das redes sociais em decisão de tratamento. Quando o assunto envolve hormônios, informação, diagnóstico e acompanhamento médico devem estar no centro da escolha.




