Presenteísmo: quando o corpo está no trabalho, mas a mente já chegou ao limite

Existe um tipo de adoecimento profissional particularmente difícil de perceber porque ele não deixa uma cadeira vazia. O funcionário chega no horário, participa das reuniões, responde aos e-mails, toma decisões e continua entregando. Para quem olha de fora, ele está trabalhando normalmente. Por dentro, porém, pode estar exausto, ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e usando uma quantidade cada vez maior de energia para realizar tarefas que antes pareciam simples.

Esse fenômeno tem nome: presenteísmo.

Diferentemente do absenteísmo, em que o trabalhador falta ou precisa se afastar, no presenteísmo ele continua fisicamente presente, mas sua capacidade cognitiva, emocional ou física já está comprometida.

É o profissional que entrega, mas precisa de muito mais esforço para entregar. Que participa da reunião, mas tem dificuldade de acompanhar o raciocínio. Que demora duas horas para realizar uma tarefa que anteriormente resolvia em 40 minutos. Que começa a esquecer informações, perde criatividade, comete erros incomuns ou percebe que sua tolerância aos problemas cotidianos diminuiu.

E justamente porque essa pessoa continua funcionando, o problema pode permanecer invisível por muito tempo.

O prejuízo que não aparece no atestado

As empresas estão acostumadas a medir ausências. Sabemos quantos funcionários estão afastados, quantos dias de trabalho foram perdidos e quantos atestados foram apresentados. É muito mais difícil calcular o que acontece quando a pessoa está presente, mas já não consegue trabalhar com a mesma capacidade.

Estimativas divulgadas pelo IBEF-SP (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo) apontam que o presenteísmo pode representar mais de R$ 200 bilhões por ano em perdas para a economia brasileira, com índice médio estimado em 31% nas empresas.

Estudos internacionais também vêm tentando dimensionar o impacto do problema associado à saúde mental. Pesquisa publicada no Journal of Affective Disorders colocou o Brasil entre os países com elevadas perdas econômicas relacionadas ao presenteísmo associado à depressão.

Mas existe algo que os números dificilmente conseguem mostrar: quanto tempo um profissional pode permanecer adoecendo enquanto ainda parece produtivo?

Muitas vezes, meses.

O afastamento pode ser apenas o capítulo mais visível de uma história que começou muito antes.

Antes do afastamento existe o trabalhador que tenta compensar

Em 2024, o Brasil registrou mais de 470 mil afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão aparecem entre as causas importantes desses afastamentos.

Quando olhamos apenas para esse número, porém, estamos enxergando aqueles que chegaram ao ponto de precisar interromper suas atividades.

Antes disso, pode existir um longo período em que o profissional percebe que alguma coisa mudou, mas tenta compensar.

Ele começa a trabalhar mais horas. Leva tarefas para casa. Responde mensagens à noite. Abre o computador no fim de semana. Reduz os intervalos e começa a acreditar que precisa se esforçar ainda mais porque não está conseguindo produzir como antes.

É aqui que surge um paradoxo importante do presenteísmo: trabalhar mais pode esconder que se está produzindo menos.

A exaustão reduz concentração, memória, flexibilidade cognitiva e capacidade de tomada de decisão. Como o rendimento cai, o profissional aumenta a jornada para compensar. Ao aumentar a jornada, reduz ainda mais o tempo disponível para descanso e recuperação.

Forma-se um ciclo: quanto mais cansado, menor o rendimento; quanto menor o rendimento, mais horas trabalha; quanto mais trabalha, mais cansado fica.

Os sinais parecem pequenos até deixarem de ser

O presenteísmo não costuma começar com um grande colapso. Ele pode aparecer em mudanças aparentemente banais.

O profissional começa a esquecer compromissos. Precisa reler o mesmo e-mail várias vezes. Perde o fio da conversa durante reuniões. Adia tarefas que antes executava facilmente. Fica irritado com situações pequenas. Tem dificuldade para organizar prioridades. Perde criatividade. Dorme pensando no trabalho e acorda cansado.

Individualmente, cada um desses comportamentos pode acontecer com qualquer pessoa em um dia ruim. O alerta aparece quando eles se tornam persistentes e começam a representar uma mudança em relação ao funcionamento habitual daquele profissional.

É importante também não transformar presenteísmo em sinônimo automático de burnout, depressão ou ansiedade. Existem diferentes condições físicas e emocionais capazes de reduzir a capacidade funcional. O ponto central é perceber quando estar presente deixou de significar estar em condições adequadas para trabalhar.

Nos líderes, o presenteísmo pode contaminar uma equipe inteira

Existe uma preocupação adicional quando esse processo acontece com profissionais em cargos de liderança.

Um gestor cognitivamente e emocionalmente esgotado não compromete apenas sua própria produtividade. Suas decisões atingem outras pessoas.

Ele pode ficar menos tolerante aos erros, comunicar-se de maneira mais agressiva, tomar decisões impulsivas, centralizar excessivamente, aumentar cobranças ou perder a capacidade de perceber o sofrimento da própria equipe.

Um líder esgotado pode, inclusive, ajudar a criar um ambiente que produz mais esgotamento.

Por isso, quanto maior a responsabilidade e a exigência cognitiva de uma função, mais importante é compreender que saúde mental não é um assunto separado da produtividade. A condição emocional de quem decide interfere na qualidade da decisão.

Não podemos esperar o atestado para reconhecer o adoecimento

Um dos erros que ainda cometemos nas organizações é considerar que existe um problema de saúde apenas quando o funcionário se afasta.

Precisamos inverter essa lógica.

Se um profissional que sempre teve determinado padrão de desempenho passa a apresentar queda persistente de produtividade, irritabilidade, dificuldade de concentração, aumento de erros ou necessidade constante de prolongar a jornada, a resposta não deveria ser simplesmente aumentar a cobrança.

É necessário entender o que mudou.

Isso significa avaliar não apenas o indivíduo, mas também o trabalho: carga excessiva, metas incompatíveis, jornadas prolongadas, conflitos, falta de autonomia, insegurança, assédio, comunicação inadequada e ausência de períodos reais de recuperação podem participar desse processo.

A saúde mental no trabalho não pode ser tratada exclusivamente como uma responsabilidade individual.

Ensinar técnicas de respiração, oferecer uma palestra sobre bem-estar ou incentivar atividade física pode ter seu valor, mas nenhuma estratégia individual é capaz de compensar indefinidamente um ambiente estruturalmente adoecedor.

O trabalhador não precisa parar para mostrar que chegou ao limite

Talvez essa seja a principal mensagem sobre presenteísmo: não precisamos esperar uma pessoa deixar de trabalhar para reconhecer que ela já não está bem.

As empresas precisam aprender a enxergar aquilo que acontece antes do atestado.

Isso envolve preparar lideranças, acompanhar mudanças persistentes de comportamento e desempenho, avaliar cargas e processos de trabalho e, principalmente, construir um ambiente em que admitir uma dificuldade não seja interpretado como fraqueza ou falta de comprometimento.

Porque existe uma diferença enorme entre estar no trabalho e estar em condições de trabalhar.

Durante muito tempo, valorizamos o profissional que “aguenta tudo”, que nunca falta, nunca desliga e continua entregando independentemente de como esteja se sentindo.

Talvez seja justamente essa ideia que precisemos rever.

O presenteísmo nos mostra que não basta ter gente trabalhando. Precisamos ter pessoas com condições físicas, cognitivas e emocionais para realizar seu trabalho de maneira saudável e sustentável.

Dr. Daniel Sócrates https://www.instagram.com/drdanielsocrates/

Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.