Treinar musculação diariamente por uma hora é excelente para a saúde, mas pode não ser suficiente para proteger o sistema circulatório se o resto do dia for passado na cadeira. Esse fenômeno é conhecido como sedentarismo invisível, um estado prolongado de baixo gasto energético que afeta a circulação do sangue.
Nesse sentido, a cirurgiã vascular Dra. Aline Lamaita, mestre em Ciências pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, explica o impacto desse hábito no organismo: “Esse conceito descreve o tempo prolongado em que o corpo permanece com baixo gasto energético, sentado, reclinado ou até em pé de forma estática, mesmo em indivíduos que cumprem as recomendações de atividade física. A questão central é que hoje muitas pessoas têm a rotina de fazer uma hora de atividade física e passar o dia sentado ou em repouso, por conta do trabalho; nesses casos, o organismo não interpreta apenas o ‘pico’ de movimento do dia, como uma sessão de treino, mas responde ao padrão contínuo de estímulos. E, quando esse padrão é dominado por longos períodos de imobilidade, o sistema vascular passa a operar em um ritmo mais lento, com repercussões progressivas que aumentam o risco de alterações visíveis, como as varizes.”
Por que a imobilidade afeta as veias das pernas?
Estudos indicam que permanecer sentado por mais de 4 horas diárias eleva significativamente as chances de desenvolver varizes e insuficiência venosa crônica. Isso ocorre porque o retorno do sangue para o coração depende diretamente da contração da panturrilha, considerada o “coração periférico” do corpo humano.
Como detalha a médica especialista: “Quando uma pessoa permanece sentada por muitas horas, essa bomba muscular praticamente entra em modo de espera. O sangue passa a se acumular nas veias dos membros inferiores, elevando a pressão dentro desses vasos. Com o tempo, essa sobrecarga favorece a dilatação venosa, a perda de eficiência das válvulas e o surgimento de sintomas como inchaço, sensação de peso e cansaço nas pernas.”
Além disso, as varizes ultrapassam o incômodo estético. “Elas são o início de um processo de insuficiência venosa crônica, que tende a se intensificar com o passar dos anos. A partir dos 30 ou 40 anos, especialmente em pessoas com predisposição genética, excesso de peso ou rotina profissional predominantemente sentada, esse cenário se torna ainda mais relevante, pois os mecanismos de compensação vascular já não respondem com a mesma eficiência”, acrescenta a Dra. Aline.
Estratégias de redução de danos na rotina de trabalho
Como parar de trabalhar sentado não é uma opção realista para a maioria, a solução está em adotar pequenas pausas de movimento ao longo do expediente para estimular a circulação:
Micro-pausas ativas: Levante-se a cada 30 ou 60 minutos para caminhar por alguns instantes ou fazer movimentos simples com os pés e tornozelos.
Exercícios sem sair da mesa: Faça contrações repetidas com a musculatura das pernas e panturrilhas enquanto digita ou atende chamadas.
Aproveite os intervalos: Caminhe durante o horário de almoço ou faça um treino aeróbico rápido no meio da tarde, quando possível.
Ajustes ergonômicos: Alterne entre trabalhar sentado e em pé, evitando a compressão prolongada da parte de trás das coxas.
Uso de meias de compressão: Para grupos de risco ou pessoas acima dos 40 anos, a avaliação médica pode indicar o uso do acessório como medida preventiva.
Em suma, o corpo humano precisa de estímulos contínuos. A Dra. Aline Lamaita conclui ressaltando a importância do alerta: “Muitas pessoas custam a acreditar que estão em risco, pois acreditam que uma hora de exercício por dia é suficiente. Por isso, é importante alertar sobre o sedentarismo invisível, que não é percebido como um problema, e acaba sendo um dos fatores mais negligenciados da saúde moderna. E, ao mesmo tempo, um dos mais modificáveis.”
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