Celulares, tablets, computadores, videogames e redes sociais já fazem parte da rotina de crianças e adolescentes. A tecnologia pode contribuir para a aprendizagem, a comunicação e o entretenimento, mas é preciso atenção quando o tempo diante das telas começa a interferir no sono, nas brincadeiras, na atividade física e até mesmo na convivência familiar.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) chama a atenção para a importância de equilibrar as experiências digitais com hábitos fundamentais para o desenvolvimento físico e emocional. Mais do que simplesmente contar quantas horas uma criança permanece conectada, especialistas e organismos de saúde recomendam observar quando, como e para que as telas estão sendo utilizadas.
Quando a tela começa a ocupar o lugar do sono
Um dos principais pontos de atenção está no período noturno. Quando vídeos, jogos, mensagens ou redes sociais avançam pela noite, o tempo disponível para dormir pode diminuir.
Nas diretrizes sobre atividade física e comportamento sedentário, a OMS recomenda que crianças e adolescentes de 5 a 17 anos reduzam períodos prolongados de sedentarismo e limitem especialmente o tempo recreativo diante das telas. A entidade destaca ainda que maiores níveis de comportamento sedentário estão associados, entre outros resultados negativos, à menor duração do sono.
Isso não significa que todo contato com aparelhos eletrônicos seja necessariamente prejudicial. A questão está principalmente no equilíbrio. Uma videochamada com familiares, uma pesquisa escolar ou uma atividade educacional acompanhada por um adulto têm características diferentes de permanecer horas seguidas navegando sem pausas ou prolongando o uso até a madrugada.
Na primeira infância, os limites são mais claros
Para crianças pequenas, as recomendações da Organização Mundial da Saúde são mais específicas.
Segundo a OMS, para crianças de 1 ano, o tempo sedentário diante de telas não é recomendado. Aos 2 anos, esse período deve ser de, no máximo, uma hora por dia e menos é considerado melhor. Para crianças de 3 e 4 anos, a orientação também estabelece o limite de uma hora diária de tempo sedentário diante das telas.
O sono também ocupa posição central nessas recomendações. Crianças entre 1 e 2 anos devem dormir de 11 a 14 horas por dia, incluindo os cochilos. Dos 3 aos 4 anos, a recomendação é de 10 a 13 horas de sono de boa qualidade, mantendo horários regulares para dormir e acordar.
Para a OMS, reduzir o tempo sedentário não significa simplesmente retirar um aparelho das mãos da criança. O ideal é que esse período seja substituído por experiências que favoreçam o desenvolvimento, como brincadeiras, leitura, contação de histórias, atividades físicas e momentos de interação com pais e cuidadores.
Redes sociais também entram no radar
Na adolescência, outro fenômeno preocupa pesquisadores: o chamado uso problemático das redes sociais.
Um levantamento divulgado pelo Escritório Regional da OMS para a Europa em 2024 mostrou que a proporção de adolescentes com sinais desse padrão de comportamento passou de 7% em 2018 para 11% em 2022. O estudo envolveu quase 280 mil jovens de 11, 13 e 15 anos de 44 países e regiões da Europa, Ásia Central e Canadá.
De acordo com a entidade, o uso problemático pode envolver dificuldade para controlar o tempo nas redes, abandono de outras atividades e consequências negativas na vida cotidiana. Esse comportamento também foi associado a menos horas de sono e horários mais tardios para dormir.
Tecnologia não precisa ser a vilã
Apesar dos alertas, transformar celulares e computadores em inimigos da infância não é a solução. A própria OMS reconhece que os ambientes digitais oferecem oportunidades importantes, contribuindo para educação, comunicação, acesso à informação e até serviços de saúde.
Em julho de 2026, a Organização Mundial da Saúde voltou a abordar o tema ao destacar que redes sociais, jogos digitais e sistemas de inteligência artificial podem trazer benefícios, mas também riscos quando o uso excessivo compromete o sono, estimula o comportamento sedentário ou substitui relações e experiências presenciais.
Por isso, o debate atual está muito mais relacionado ao equilíbrio digital do que à proibição completa.
Família também pode ajudar a construir o equilíbrio
Dentro de casa, pequenas mudanças podem contribuir para uma relação mais saudável com a tecnologia. Estabelecer horários regulares para dormir, evitar que a tela seja a única forma de entretenimento, criar momentos de convivência sem celular e incentivar brincadeiras e atividades físicas são algumas possibilidades.
Também vale observar os sinais dados pela própria rotina. Se o uso do dispositivo está reduzindo o tempo de sono, prejudicando os estudos, afastando a criança de atividades que antes davam prazer ou substituindo constantemente a convivência com outras pessoas, pode ser o momento de rever os hábitos digitais da família.
A reflexão também chegou às produções culturais. O portal Brazil Em Evidência, por exemplo, destacou o espetáculo infantil “ALGORIKI”, que utiliza uma interrupção da internet como ponto de partida para falar sobre tecnologia, redes sociais, convivência, criatividade e experiências que existem para além das telas.
No fim das contas, o desafio não está simplesmente em decidir se a tecnologia deve ou não fazer parte da infância porque ela já faz. A questão é qual espaço ela deve ocupar.
Dormir bem, movimentar o corpo, brincar, conversar, estudar, imaginar e criar vínculos continuam sendo experiências essenciais para crianças e adolescentes. As telas podem conviver com tudo isso, desde que não assumam o lugar dessas necessidades básicas.





