Existe uma contradição cada vez mais presente na nossa relação com as substâncias: algumas pessoas recorrem a elas para fugir do sofrimento, enquanto outras as procuram justamente para conseguir produzir mais.
No consultório, tenho percebido como essa questão aparece de diferentes formas. Há quem busque o álcool ou outras substâncias para relaxar depois de um dia difícil, esquecer problemas ou conseguir dormir. Mas também existe quem recorra aos psicoestimulantes na tentativa de aumentar a concentração, a disposição e o desempenho no trabalho ou nos estudos.
Esse segundo movimento diz muito sobre a sociedade em que vivemos.
Estamos cercados pela ideia de que precisamos ser produtivos o tempo todo. É preciso entregar resultados, cumprir prazos, responder mensagens, cuidar da casa, manter relacionamentos, estudar, trabalhar e, de preferência, fazer tudo isso com disposição. Quando o cansaço aparece, muitas vezes interpretamos como uma falha pessoal, e não como um sinal de que talvez estejamos ultrapassando nossos próprios limites.
É nesse contexto que algumas pessoas passam a utilizar medicamentos psicoestimulantes, como a lisdexanfetamina, sem indicação ou acompanhamento médico, acreditando que eles podem ajudá-las a alcançar a performance esperada. O problema não está no uso desses medicamentos quando existe indicação clínica, mas na transformação deles em uma espécie de ferramenta para sustentar uma rotina de cobrança permanente.
A pergunta que deveríamos fazer é: por que precisamos estar sempre funcionando no máximo?
O álcool também merece atenção. Por ser legalizado e fazer parte de muitos momentos sociais, seu potencial de causar problemas acaba sendo frequentemente subestimado. Para algumas pessoas, o consumo pode ser o primeiro contato com substâncias e, quando se torna frequente e associado à necessidade de aliviar emoções, pode contribuir para padrões cada vez mais prejudiciais de uso.
Mas não existe uma única história por trás do abuso de substâncias. Duas pessoas podem consumir a mesma substância por motivos completamente diferentes. Por isso, acredito que o julgamento raramente ajuda.
Quando alguém precisa beber para relaxar, usar uma substância para conseguir socializar ou recorrer a um estimulante para dar conta do trabalho, talvez seja importante olhar para além do comportamento e perguntar: o que essa pessoa está tentando suportar?
Também precisamos falar sobre prevenção. Buscar ajuda não significa necessariamente esperar que exista uma dependência instalada. Mudanças no comportamento, prejuízos no trabalho ou nos relacionamentos, dificuldade de passar um período sem determinada substância ou a sensação de que não é possível funcionar sem ela já são motivos para procurar orientação profissional.
Cuidar da saúde mental também significa questionar uma cultura que nos convenceu de que descansar é improdutivo e que estar cansado é algo que precisamos simplesmente superar.
Nenhuma substância deveria ser necessária para conseguirmos ser quem somos ou fazer aquilo que precisamos fazer.
Talvez o verdadeiro desafio seja aprendermos a reconhecer nossos limites antes de procurar uma substância para ultrapassá-los.
*Thaís Barbisan é psicóloga e neuropsicóloga especialista em diagnósticos diferenciais.






