Tontura e desequilíbrio podem estar relacionados à saúde auditiva; entenda os sinais

Tontura ao levantar, sensação de que o ambiente está girando, instabilidade para caminhar ou medo constante de cair são sintomas que muitas vezes acabam sendo associados apenas ao envelhecimento. No entanto, eles podem indicar alterações que merecem investigação. A saúde auditiva, por exemplo, possui uma relação importante com o equilíbrio corporal, já que estruturas responsáveis por essas duas funções estão localizadas no ouvido interno.

Segundo a Dra. Ariane Bonucci, fonoaudióloga, especialista em Audiologia Clínica, mestre em Ciências Médicas e sócia-fundadora do Espaço da Audição, compreender essa relação é fundamental para identificar sinais precocemente e preservar a segurança, a mobilidade e a autonomia, principalmente entre os idosos.

Qual é a relação entre audição e equilíbrio?

Audição e equilíbrio estão próximos inclusive anatomicamente. No ouvido interno estão a cóclea, responsável pela audição, e o sistema vestibular, que participa do controle do equilíbrio e da percepção dos movimentos da cabeça.

Mas o ouvido não trabalha sozinho. Para manter o corpo equilibrado, o cérebro precisa combinar informações provenientes do sistema vestibular, da visão e de sensores localizados nos músculos e articulações, que ajudam a identificar a posição corporal no espaço.

“Quando existe uma alteração em algum desses sistemas, podem surgir sintomas como tontura, vertigem, desequilíbrio e instabilidade ao caminhar”, explica a Dra. Ariane.

Algumas doenças do ouvido interno podem afetar simultaneamente a audição e o equilíbrio, provocando sintomas como perda auditiva, zumbido, sensação de ouvido cheio e crises de vertigem.

A especialista também destaca que estudos apontam uma associação entre perda auditiva e maior risco de quedas, sobretudo na terceira idade. Entre as possíveis explicações estão a menor percepção de sons e pistas do ambiente e o maior esforço cerebral necessário para escutar.

Quedas na terceira idade merecem atenção

O risco de quedas é uma preocupação importante durante o envelhecimento. Dados internacionais indicam que mais de uma em cada quatro pessoas com 65 anos ou mais relata pelo menos uma queda por ano.

Nessa fase da vida, uma queda pode ter consequências significativas, incluindo fraturas, traumatismos, hospitalizações, medo de voltar a caminhar sozinho e perda de independência.

Por isso, tonturas frequentes ou dificuldades de equilíbrio não devem ser automaticamente consideradas parte natural do envelhecimento.

“Quando um idoso apresenta tontura, desequilíbrio, insegurança para caminhar ou quedas frequentes, é importante investigar. Esses sintomas não devem ser simplesmente normalizados por causa da idade”, alerta a fonoaudióloga.

Nem toda tontura é labirintite

Outro ponto importante é evitar a associação automática entre qualquer episódio de tontura e a popularmente chamada “labirintite”.

A Dra. Ariane explica que a tontura é um sintoma, e não um diagnóstico. Além das alterações do ouvido interno, problemas neurológicos, cardiovasculares e metabólicos, distúrbios da visão e até determinados medicamentos podem provocar tontura, desequilíbrio e instabilidade.

Entre os distúrbios vestibulares mais conhecidos está a Vertigem Posicional Paroxística Benigna, ou VPPB. Ela costuma provocar episódios rápidos de vertigem desencadeados por mudanças na posição da cabeça, como ao deitar, levantar ou virar na cama.

A doença de Ménière também pode provocar crises de vertigem acompanhadas por alterações da audição, zumbido e sensação de pressão no ouvido. A neurite vestibular é outra possibilidade.

Por haver diferentes causas, uma avaliação adequada é essencial para determinar a origem dos sintomas e direcionar o tratamento.

Quais sinais devem acender o alerta?

Alguns sinais auditivos podem indicar a necessidade de procurar um profissional especializado. Dificuldade para compreender conversas, pedir frequentemente que outras pessoas repitam o que disseram, aumentar muito o volume da televisão, apresentar dificuldade para entender a fala em locais barulhentos ou perceber zumbidos são exemplos.

Em relação ao equilíbrio, merecem atenção episódios recorrentes de tontura, sensação de que o ambiente está girando, instabilidade ao caminhar, sensação de flutuação, dificuldade para andar no escuro ou sobre terrenos irregulares e ocorrência de quedas.

Quando a tontura vem acompanhada de diminuição da audição, zumbido ou sensação de pressão no ouvido, a investigação também se torna importante.

Existem ainda situações que exigem atendimento médico rápido. Uma perda auditiva que surge subitamente precisa ser avaliada com urgência. Tontura intensa e repentina acompanhada de dificuldade para falar, fraqueza ou dormência em um dos lados do corpo, alteração importante da visão ou dificuldade súbita para caminhar também requer avaliação médica imediata.

Audição e equilíbrio interferem na autonomia

Os impactos desses problemas podem ultrapassar os sintomas físicos. Quem apresenta perda auditiva pode ter dificuldade para perceber sons importantes do ambiente, como buzinas, veículos se aproximando ou sinais de alerta.

A dificuldade para acompanhar conversas também pode fazer com que a pessoa reduza o convívio social, deixe de frequentar determinados ambientes e abandone atividades das quais gostava.

Quando há desequilíbrio, o medo de cair pode aumentar ainda mais as limitações. A pessoa passa a evitar sair sozinha, movimenta-se menos e pode se tornar progressivamente sedentária.

Esse comportamento pode criar um ciclo prejudicial: com menos atividade física, ocorre redução do condicionamento e da força muscular, o que pode aumentar ainda mais a vulnerabilidade às quedas.

“Cuidar da audição e do equilíbrio significa ajudar a preservar mobilidade, segurança, independência e qualidade de vida”, destaca a Dra. Ariane.

Como são feitos diagnóstico e tratamento?

Não existe um único exame capaz de identificar todas as causas de tontura. A investigação começa pela história clínica e pela avaliação profissional.

Dependendo do quadro, podem ser solicitados exames como audiometria e imitanciometria, além de testes específicos para avaliar o sistema vestibular e os movimentos dos olhos. Em determinadas situações, exames laboratoriais ou de imagem também podem ser necessários.

O tratamento varia conforme a causa. Nos casos de perda auditiva com indicação de amplificação, aparelhos auditivos podem melhorar a compreensão da fala, a percepção dos sons do ambiente e a comunicação.

Na VPPB, podem ser realizadas manobras específicas de reposicionamento. Para outros distúrbios vestibulares, a reabilitação vestibular pode ser indicada, com exercícios individualizados destinados a melhorar a estabilidade e a segurança dos movimentos.

Medicamentos também podem ser utilizados em algumas situações, sempre de acordo com avaliação médica. A automedicação, entretanto, deve ser evitada, já que diminuir a tontura não significa necessariamente tratar sua origem.

Tecnologia também pode contribuir para a segurança

Alguns aparelhos auditivos modernos já oferecem funcionalidades que vão além da amplificação dos sons. Há modelos com recursos de detecção e alerta de quedas, capazes de enviar mensagens para familiares ou contatos previamente cadastrados quando uma possível queda é identificada.

Outras tecnologias podem auxiliar na triagem de alterações relacionadas ao equilíbrio. Esses recursos, contudo, são complementares e não substituem a avaliação especializada.

“Ouvir bem, movimentar-se com segurança e preservar a autonomia são partes fundamentais de um envelhecimento saudável. O mais importante é identificar corretamente a causa e oferecer um tratamento individualizado”, conclui a Dra. Ariane Bonucci.