A enxaqueca afeta milhões de brasileiros e figura entre as principais causas de incapacidade no mundo. Contudo, muitos conceitos sobre a condição continuam cercados por mitos, fazendo com que pacientes convivam durante anos com dores frequentes e restrições desnecessárias.
Nesse sentido, o conhecimento evoluiu significativamente. O neurologista Dr. Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC), revela os conceitos fundamentais para entender e controlar o problema.
1. O cérebro do paciente é hiperexcitável
O ponto de partida é compreender a biologia por trás da dor. “O cérebro de quem tem enxaqueca funciona de forma diferente. Ele apresenta uma maior sensibilidade aos estímulos do ambiente e do próprio organismo, o que chamamos de hiperexcitabilidade cerebral”, explica o neurologista.
Luzes intensas, cheiros fortes, noites mal dormidas, estresse e alterações hormonais podem disparar uma crise. “Essa característica não significa que o cérebro esteja ‘mais ativo’, mas sim que ele responde de maneira mais intensa e tem um limiar menor para iniciar uma crise”, destaca o especialista.
Por outro lado, o isolamento total não é a resposta. “Se uma pessoa não trata a enxaqueca, tem uma vida muito intensa, está sempre exposta a estímulos, sofre com grande estresse e não dorme direito, ela tende a sofrer com crises mais frequentes e mais graves. Mas não podemos colocar as pessoas em uma bolha, por isso a doença deve ser tratada”, ressalta.
2. Fatores ambientais podem ajudar ou piorar o quadro
Apesar do forte componente genético, a rotina desempenha um papel decisivo. Existem fatores de risco modificáveis, como:
Tabagismo e obesidade
Restrição de sono
Uso excessivo de medicamentos e estimulantes
Da mesma forma, existem os fatores não modificáveis, como o histórico familiar e o sexo biológico. As mulheres, por exemplo, sofrem cerca de três vezes mais do que os homens devido às oscilações do estrogênio na menstruação, ovulação, gravidez e menopausa.
3. A cafeína ajuda a tornar a doença crônica
Para quem convive com o problema, se afastar da cafeína é fundamental. “A cafeína modifica a forma como o cérebro responde aos estímulos relacionados à dor… Quando há consumo frequente de cafeína, essa reatividade aumenta ainda mais, dificultando que o cérebro retorne ao seu funcionamento normal”, explica o Dr. Tiago de Paula.
Além disso, a substância está escondida em lugares inesperados da rotina:
Chocolates (principalmente os com maior teor de cacau)
Chás estimulantes (preto, verde, mate e branco)
Refrigerantes de cola ou guaraná (mesmo as versões zero)
Bebidas energéticas e analgésicos comuns
Cosméticos, como cremes anticelulite e para a área dos olhos
“Muitas vezes a pessoa está evoluindo muito bem no tratamento, começa a usar um creme anticelulite ou um creme para a área dos olhos com cafeína e volta a apresentar piora das crises”, afirma o médico.
Para quem convive com o problema, se afastar da cafeína é fundamental – Canva Equipes/Vlada Karpovich de Pexels
4. Analgésicos de venda livre pioram a situação
Tomar remédios sem orientação para apagar o incêndio da dor é um perigo contínuo. O risco de cronificação aumenta significativamente em quem apresenta três ou mais dias de crise por mês e recorre frequentemente a essa prática.
Nesse sentido, analgésicos e anti-inflamatórios comuns não tratam a causa raiz. Quanto mais você toma, menor é a eficácia e maior é a dor — gerando a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
5. Tratamentos preventivos são essenciais
O disparo da enxaqueca percorre um caminho neuronal. Quanto mais vezes o cérebro faz esse trajeto, mais fácil fica para ele repetir o processo nas vezes seguintes.
Assim, os tratamentos preventivos atuam reduzindo a frequência com que esse “caminho” é percorrido, permitindo que o cérebro passe mais tempo em equilíbrio e fora do estado de crise.
6. O botox tem aplicação neurológica diferenciada
Embora utilize o mesmo princípio ativo da estética, o uso da toxina botulínica tipo A na neurologia foca no bloqueio nervoso, e não no relaxamento muscular.
“Na estética, a ideia é relaxar o músculo. Na enxaqueca, buscamos bloquear o nervo. O efeito estético que pode surgir, especialmente na região da testa, é apenas um efeito colateral do tratamento neurológico”, esclarece o especialista.
“A toxina botulínica age no neurônio sensitivo, impedindo a liberação de vesículas que transmitem o estímulo doloroso ao cérebro. Quando interrompemos esse processo repetidamente, o cérebro começa a desfazer o caminho da dor que havia aprendido”, completa o Dr. Tiago de Paula.
7. Os gatilhos perdem força quando há tratamento
Antigamente, a recomendação era cortar tudo o que pudesse desencadear a dor, o que limitava demais a vida do paciente. Contudo, a medicina moderna foca em fortalecer o organismo.
“Durante muito tempo, o tratamento da enxaqueca ficou baseado em evitar tudo o que pudesse desencadear uma crise. O problema é que isso pode restringir profundamente a vida da pessoa”, pontua o médico.
Com a doença controlada, o cérebro fica menos reativo. “Quando a enxaqueca está bem tratada, muitos gatilhos perdem força e o paciente consegue voltar a tomar uma taça de vinho ocasionalmente, comer determinados alimentos, viajar, frequentar ambientes iluminados ou aproveitar momentos de lazer sem viver com medo constante de uma nova crise”, enfatiza.
Em suma, o foco principal é devolver a liberdade ao indivíduo. “Em outras palavras, tratamos a enxaqueca para devolver qualidade de vida e autonomia ao paciente, e não para colocá-lo em uma bolha de restrições”, finaliza.Enxaqueca
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