Por Dr. Leandro de Paula Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Uma das perguntas que mais aparecem no consultório é: “Doutor, ainda dá para resolver sem cirurgia?”. Na maioria das vezes, a resposta não depende da idade. Depende do que estamos tentando tratar.
Toxina botulínica, preenchimento com ácido hialurônico, tecnologias para a pele e cirurgia plástica podem fazer parte do processo de envelhecimento de uma pessoa, mas não fazem a mesma coisa. O problema começa quando tentamos usar uma técnica para corrigir algo que não está ao alcance dela.
Um exemplo clássico é tentar compensar uma flacidez importante adicionando cada vez mais volume ao rosto. O preenchimento pode ser excelente quando existe indicação para reposição de volume ou sustentação em pontos estratégicos. Mas ele não retira excesso de pele.
Quando tentamos fazer com que o volume desempenhe o papel de um lifting, podemos acabar alterando as proporções faciais e produzindo justamente aquilo que muitos pacientes hoje querem evitar: um rosto excessivamente preenchido e distante de suas características naturais.
Botox trata movimento, não excesso de pele
A toxina botulínica, popularmente chamada de Botox, atua reduzindo temporariamente a contração de determinados músculos. Por isso, é especialmente útil para as chamadas rugas dinâmicas, aquelas relacionadas à movimentação repetitiva da face.
Linhas da testa, região entre as sobrancelhas e os chamados pés de galinha são exemplos conhecidos.
Isso é muito diferente de tratar uma pele que perdeu firmeza e apresenta queda dos tecidos. A toxina pode suavizar determinadas marcas e modificar a ação muscular, mas não deve ser entendida como substituta de um lifting facial quando existe flacidez significativa.
Preenchimento devolve volume onde ele foi perdido
Nosso rosto não envelhece apenas na superfície. Ao longo dos anos, acontecem mudanças na pele, nos compartimentos de gordura e até na estrutura óssea.
É nesse contexto que o ácido hialurônico pode ter uma ótima indicação.
Utilizado de maneira criteriosa, o preenchimento pode restaurar volumes perdidos e melhorar determinadas proporções. O objetivo não precisa ser aumentar lábios ou criar maçãs do rosto evidentes. Muitas vezes, estamos falando de devolver discretamente aquilo que o processo de envelhecimento retirou.
O problema é acreditar que, se um pouco de preenchimento melhorou, colocar mais necessariamente melhorará ainda mais.
Nem sempre. Existe um momento em que adicionar volume deixa de corrigir a causa principal da queixa.
Quando o problema é flacidez, colocar volume pode não ser a resposta
Imagine um tecido que perdeu sustentação e mudou de posição ao longo dos anos. Se tentarmos compensar essa queda apenas acrescentando volume, podemos até conseguir alguma melhora visual inicialmente, mas existe um limite.
Quanto maior a flacidez, maior o risco de precisar acrescentar volumes que modificam as características naturais daquele rosto sem realmente tratar o excesso de pele.
É nesse momento que precisamos mudar a pergunta.
Em vez de “quanto preenchimento falta?”, talvez seja necessário perguntar: “ainda estamos tratando perda de volume ou agora o principal problema é a queda dos tecidos?”.
Essa diferença é fundamental.
E quando a cirurgia entra nessa conversa?
O lifting facial não deve ser encarado como um fracasso dos procedimentos menos invasivos. Ele simplesmente possui outra indicação.
Quando existe flacidez mais significativa, excesso de pele e deslocamento dos tecidos faciais, a cirurgia permite reposicioná-los e retirar excessos de uma maneira que preenchimentos e toxina botulínica não conseguem reproduzir.
Isso também não significa que todo paciente com algum grau de flacidez precise operar.
Existem tecnologias e tratamentos que podem melhorar qualidade da pele, estimular colágeno e proporcionar resultados interessantes em casos selecionados. A decisão depende do grau de envelhecimento, anatomia, qualidade da pele, histórico de tratamentos, condições clínicas e, principalmente, da expectativa do paciente.
Não existe uma idade certa para fazer lifting
Outro equívoco comum é estabelecer uma idade para cada tratamento: Botox aos 30, preenchimento aos 40 e cirurgia depois dos 50.
O envelhecimento não segue uma tabela.
Há pessoas mais jovens com maior flacidez e outras mais velhas que mantêm boa sustentação facial. Genética, exposição solar, tabagismo, oscilações importantes de peso e características individuais interferem nesse processo.
Por isso, o tratamento deve acompanhar a anatomia, e não a idade registrada no documento.
Naturalidade também significa saber quando parar
A busca atual por resultados mais naturais trouxe uma mudança importante para a cirurgia plástica e para os procedimentos estéticos.
Durante muito tempo, a ideia de rejuvenescimento esteve muito associada a acrescentar: mais volume, mais projeção, mais preenchimento. Hoje, cada vez mais pacientes chegam ao consultório dizendo justamente o contrário: “Eu quero continuar parecendo comigo”.
E considero essa uma ótima referência.
Um bom tratamento não deveria transformar todas as pessoas em versões semelhantes umas das outras. Ele precisa respeitar proporções, anatomia, expressões e características individuais.
Às vezes, isso significa fazer um procedimento menos invasivo. Em outros casos, significa não fazer nada naquele momento. E há situações em que reconhecer que determinado procedimento atingiu seu limite pode evitar exageros.
Botox, preenchimento e cirurgia não são concorrentes. Também não são uma escada em que obrigatoriamente precisamos subir um degrau de cada vez.
São ferramentas diferentes, mas o principal objetivo de qualquer tratamento estético é sempre o mesmo: rejuvenescer sem apagar a identidade de quem está diante do espelho.





